Conversa com o diabo (por Pedro Costa)
O que insisto é na distinção entre o acordo entre diferentes e o pacto com o diabo. O acordo que faz avançar, traz vantagens para todos
atualizado
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É um dogma da diplomacia que os Estados não se movem por princípios, mas por interesses. Faz sentido, desde que os interesses sejam pensados a longo prazo, dentro de um contexto amplo, e os princípios não sejam rasgados. Assim, para usar dois exemplos clássicos, a realpolitik de Henry Kissinger fez a aproximação dos Estados Unidos com a China, deixando de lado a ridícula ideia — que agora está de volta — de que a China é Taiwan, o que foi bom; e o pacifismo de Neville Chamberlain o fez aceitar o acordo de Munique, entregando a Tchecoslováquia, o que foi ruim.
A questão de o regime da China ser ou não aceitável para os Estados democráticos precisa de contexto histórico, mesmo hiper-simplificado. O respeito ao homem no Império do Meio foi sempre relativo, para não dizer que a velha civilização não era lá (vamos usar um bom anacronismo) muito cristã. No começo do séc. XX Sun Yat-Sen e o Kuomintang (Partido Nacionalista) proclamaram a república e fizeram um acordo com a URSS e o Partido Comunista, em meio à zorra total dos senhores de guerra e dos enclaves das nações “civilizadas”.
Surgiram Chiang Kai-Shek e Mao Tsé-Tung. Eles romperam e veio a longa guerra civil, em que morreram 8 milhões, pausada pela invasão japonesa, em 1931, e pela Segunda Guerra Mundial. A partir de 45, a ofensiva comandada por Mao e Chou En-lai foi implacável e em 49 Chiang só dominava a ilha de Taiwan e o comércio de ópio. Mao foi bonzinho e mauzão (unificou o país e matou 3 milhões), alternadamente, e conseguiu colocar a China na ONU. Kissinger fez Nixon ir à China e quase todos os presidentes americanos, desde então, seguiram o ritual.
Quando o Presidente Sarney visitou a China, já Deng Xiaoping começara a liberalização econômica do País. A economia chinesa era então menor que a brasileira. (Sarney quis que seguíssemos o modelo de crescimento econômico deles, mas o Brasil não quis.) Hoje a China é o que todos sabem e o povo chinês melhorou enormemente de vida. Há violações de direitos humanos, certamente, mas isso, inclusive execução com tiro na nuca, é o que mais há no Brasil.
O caso de as exigências alemãs serem ou não aceitáveis para a Inglaterra e a França — a Itália estar no acordo foi só deboche do Hitler — é bem diferente. Em setembro de 1938 Hitler já tinha passado a fase Trump havia 5 anos. O mundo já tinha testemunhado os massacres dentro da Alemanha. Já tinha acontecido o Anschluss, a anexação da Áustria, com suas barbaridades. Havia meses que Hitler fazia provocações e tinha declarado que invadiria a Tchecoslováquia se não houvesse a entrega dos Sudetos (o pretexto), onde tinha criado um grupo paramilitar. A França e a Inglaterra queriam fugir de uma guerra, e pressionaram a Tchecoslováquia a aceitar as exigências. Negociaram. Combinaram um encontro de última hora em Munique. Ao saber que havia dúvidas sobre sua palavra, Hitler perguntou a um diplomata escandinavo: “Alguém jamais me ouviu mentir?” Chamberlain queria acreditar. Deu para Hitler assinar “o desejo dos dois países de nunca mais entrar em guerra”; pouco depois o Führer explicou a seu ministro do Exterior que “esse papel não vale nada”. Quando Chamberlain desembarcou em Londres, no dia 30, foi carregado nos braços como salvador da civilização ocidental. No dia 1º de outubro, como combinado, Hitler invadiu o Sudeto. Em março de 1939 já não havia Tchecoslováquia. A 1º de setembro começava a Segunda Guerra.
Não conto nada de novo, claro. O que insisto é na distinção entre o acordo entre diferentes e o pacto com o diabo. O acordo que faz avançar, que traz vantagens para todos — inclusive os fora do acordo — são ótimos e providenciais. Vamos dizer os START, assinados entre Reagan e Gorbachev, que limitaram armas nucleares, cuja sequência acabou há poucos dias para regozijo de Putin e Trump e risco de fim do mundo.
Já o que é feito para não ser cumprido, com um parceiro que dirá “esse papel não vale nada”, não é que não vale nada, é um passo para o desastre. Por exemplo o dos dois diabos, do Trump com o Netanyahu para acabar com a Gaza palestina, depois de terem matado dezenas de milhares de civis (e continuarem matando dezenas por dia), é uma agressão à humanidade, inclusive pela sugestão de acabar com a ONU. Um acordo para acabar a guerra da Ucrânia em que a URSS — desculpe, a Rússia — fique com a metade da Ucrânia e a famiglia Trump com as terras raras seria um desastre, já que amanhã, como diria o Führer, viria a Polônia e depois de amanhã a Terceira Guerra.
Isso vale para o nosso Lula, apesar de sua excelente assessoria internacional. Não digo que não sente à mesa com o diabo, mas pense que os que estavam como a ingrata do Vanzolini, “espetadinha no garfo, Santanás fritando a bicha”, na realidade sendo heroicamente massacrados pelas milícias de Trump nas ruas de Minneapolis e EUA afora, podem achar que apoia a porrada. Não digo que não sente à mesa com os diabos domésticos, mas fazer acordo com eles porque as pesquisas dizem que o demo tem voto é se dar uma ilusão, já que “esse papel não vale nada”.
Vale também para todos — não são muitos — os que, de boa fé, pensam que para pacificar o Brasil é preciso por o genocida em prisão domiciliar e instalar uma linha direta entre ele e seus co-conspiradores, com direito a horário eleitoral. O Brasil só ficará pacificado quando estiverem afastados da política todos que são contra a democracia, se chamem Ciro ou Ciro ou Valdemar ou Hugo ou … completem aí que a lista é longa. Pesquisa de opinião é muito bom para saber de que é preciso convencer as pessoas, não para o líder mudar de convicção. Para não citar mais uma vez o Mitterrand e a pena de morte, cito o ganhador da Guerra, Franklin Roosevelt, que driblou a opinião dos americanos para dar armas para a Inglaterra e a União Soviética e preparou os Estados Unidos para quando chegasse a hora estarem prontos para vencer Hitler, Mussolini e Hiroito.
Vale para o novo Ministro da Justiça que quer combinar com o Mendoncinha um plebiscito contra as crianças — reduzir maioridade penal é isso. Acordo para banalizar a violência do Estado é tudo que o Inferno quer. Pode ser que ganhe uns votos bolsonaristas e perca, por falecidos, uns futuros eleitores: já bastam as atrocidades por que passam os prisioneiros de guerra nas febem da vida.
Ah! Presidente, muito boa, apesar de velhinha, aquela do “vai que eu ganho” — afinal, o happy ending de “O Rato que Ruge” é implausível. (A obra prima do Peter Sellers está nas redes.) Mas Lampião foi um assassino cruel, não importa o que o fez assim. É melhor falar de Irmã Dulce dos Pobres, que é também brasileira e é santa. Em termos de povo sofrido, os que encontraram Lampião morreram, alguns descorticados, e os que encontraram a santinha — ela era pequenina e gigante — foram tratados e tiveram redenção!
Pedro Costa é arquiteto e escritor.


