Confia que dá: credibilidade evapora e a conta chega (Roberto Caminha)
E o Supremo? Quanta saudade daquele secreto Supremo de outrora!
atualizado
Compartilhar notícia

Uma coisa que o nosso Brasil aprendeu com Jeferson Peres, Roberto Campos e Mário Henrique Simonsen é que a economia não perdoa ilusão. Pode enganar eleitor, pode distrair comentarista, mas não engana o mercado. E quando a confiança vai embora, meu querido e lúcido leitor, não adianta rezar nem chamar o Curupira ou o Mapinguari: o capital voa mais rápido que notícia ruim em grupo de WhatsApp.
Vamos ao ponto, sem firulinhas: quando há um desgaste simultâneo das instituições — políticos desacreditados, Banco Central sob suspeita e Judiciário contestado — o país entra numa espécie de “crise de confiança”. E confiança, gostemos ou não, é a joia mais valiosa de uma economia. Já estamos vendo grandes centros de comércio, como Madureira, no Rio e o Brás, em São Paulo, bastante atingidos.
Agora entra o personagem da vez: o banqueiro-rei, o Vorcaro. Não importa aqui o nome pelo folclore, mas pelo simbolismo. Quando vetores privados passam a ocupar espaços que deveriam ser ocupados por instituições sólidas, algo está fora do eixo. É como se o juiz resolvesse virar atacante no meio do jogo, podendo até dar show, mas ninguém mais entenderá a regra.
O que acontecerá com a economia, com o bolso do Sr. José?
Primeiro efeito: o inescrupuloso e maligno custo do dinheiro subirá.
Sem confiança, o investidor exigirá prêmio maior para correr risco. Traduzindo em alto e bom som: juros mais altos. E juros altos significam menos investimento, menos emprego e o tal do crescimento vai ficando mais lento. É o famoso “freio de mão puxado”.
Segundo efeito na economia de mercado: o câmbio começará a bailar.
Quando há desconfiança, o capital estrangeiro sai voando ou evita entrar. Resultado? O real enfraquecerá. E aí tudo fica mais caro: combustível, alimentos, tecnologia. O brasileiro já descobriu, há algum tempo, que a inflação não precisa de convite — ela entra sem bater. Nota-se que os produtos chineses, aqueles que nos invadem, fica mais caro, todas as semanas.
Terceiro efeito na economia: o tal do investimento no setor produtivo desaparece. Empresário não é bobo, nem qualquer herói romântico. Ele quer credibilidade, além de previsibilidade. Se o Banco Central e a moeda que ele pensa tomar conta, perde a credibilidade, se o Supremo vira arena política e se o Congresso parece mais um ringue de vale tudo, ninguém investe pesado. No máximo, brinca de apostar no curto prazo…e olhe lá.
Quarto efeito na economia: o Estado perde a sua força e vira refém.
Aqui está o ponto mais delicado. Quando instituições perdem legitimidade, o poder migra para grupos informais: grandes bancos, lobbies organizados, influenciadores de bastidor. Não é teoria da conspiração — é economia política básica. Sintam, assim, a influência cancerosa deixada pelo VORCARO. Um só indivíduo, dinamitou a vida das frágeis instituições brasileiras.
E como fica o Banco Central nessa historinha marota?
O Banco Central é o guardião da moeda. É a Casa que impede que o dinheiro vire papel de bombom, dinheirinho de Banco Imobiliário, de brincadeira, como o dinheiro da fantasiosa Cuba. Quando há interferência política ou dúvida sobre sua autonomia, o recado é claro: “ninguém está no controle”. Tudo vai para o descontrole. Para a anarquia, que é tudo que o capital detesta.
E aí, meu querido amigo, o mercado reage como um “nervoso aborrescente” contrariado e mimado: faz barulho, bate o pezão, arromba a porta e voa… vai embora.
E o Supremo? Quanta saudade daquele secreto Supremo de outrora!
O Supremo deveria ser o porto seguro institucional. Quando ele entra no jogo político — ou assim é percebido — o efeito é devastador. Porque se não há árbitro confiável, qualquer disputa vira briga de rua. A tradicional economia não gosta de briga. Economia gosta de regra clara, previsibilidade e contrato sendo respeitado. Alguém, do seu círculo de amizade, conhece o nome ou foto de algum “Supremado americano ou inglês”? Claro que não. Eles têm um código de conduta muito rígido.
E o efeito dominó? O resultado disso tudo é um ciclo perigoso: desconfiança, menos investimento, crescimento baixo, mais pressão política, mais intervenção, mais desconfiança, mais Estado e mais Bolsa Vigário. É o famoso cachorro correndo atrás do próprio rabo — com a maldita inflação no meio.
E o cidadão brasileiro? Ah, o cidadão…esse serve para pagar a conta em elegante e discreto silêncio. Crédito mais caro, salário corroído, emprego mais escasso, serviços públicos piorados, furto de aposentados. E ainda ouve que “a economia está reagindo”. Reagindo, sim — mas como paciente comatoso em UTI.
Conclusão (com um leve e malandro sorriso irônico):
O Brasil não quebra por falta de riqueza. Quebra por excesso de invencionismo institucional. Temos recursos, temos mercado, temos geninhos. O que falta — e é aqui que mora a tragédia — é confiança.
Como repetiria Roberto Campos, com aquela elegância que hoje faz falta: “O Brasil não perde oportunidade de perder oportunidades.”
E enquanto banqueiros viram protagonistas, políticos viram memes e instituições viram suspeitas, seguimos nesse teatro onde todos discursam e ninguém convence, nem no prostíbulo do Vorcaro.
No final do piquenique, dentro do velho mercado, a economia é simples: sem confiança, não há investimento; sem investimento, não há crescimento; sem crescimento, sobra só um farto lero-lero político.
E discurso, com lero-lero de políticos, já sabemos: não paga boleto.
Roberto Caminha Filho, economista, pagará, pelo Vorcaro, R$1 bilhão no grama da confiança.


