
Carnaval, orgulho e preconceito (por Mirian Guaraciaba)
As Havaianas na Sapucaí

Aversão, ranço, ignorância, nem mudam de endereço. Na política, estão sempre à direita.
No Reveillon de 2025, o anúncio de Fernanda Torres com as sandálias Havaianas, e a frase: “entre o ano com os dois pés”, provocou reação tão barulhenta dos bolsonaristas e afins, que repercutiu até no exterior. No último domingo, o desfile da Acadêmicos de Niterói, contando a história de Lula, desde sua infância pobre, retirante, levado pela mãe, dona Lindu, para tentar a vida em São Paulo, até o terceiro mandato na Presidência da República, produziu ricochetes em cadeia da oposição. E largos elogios aqui e lá fora.
O sisudo britânico The Guardian mostrou o desfile e chamou Lula de “o maior brasileiro de todos os tempos”. Homenagem merecida, diz o The Guardian. Vamos combinar: é exatamente isso, colegas, toda escola faz homenagem a alguém ou a algum tema relevante. Ou não? Querem mais? A letra do samba é linda. O desfile foi emocionante. Lula ressaltou em suas redes sociais todas as escolas a que assistiu naquela noite. Lula não pediu a homenagem. Não a financiou. Alguns da imprensa conseguiram levantar celeuma que não está no Código Eleitoral.
Lula não é candidato oficial, não houve decisão do PT. O que se viu na Sapucaí foi o intolerável preconceito, indisposição de muitos jornalistas contra Lula. O homem Luis Inácio mereceu a homenagem. O resto é mimimi. Como disse uma colega que tem horror ao rançoso, ao azedume, “foi um sucesso, aceitem”. Em Salvador, durante a passagem do BaianaSystem, com a participação da ministra Margareth Menezes, Lula, aos 80 anos, deu asas a sua jovialidade e preparo físico, pulou feito carnavalesco. Velho? Jamais.
BBB, retrato do Brasil
Na semana de carnaval, o reality show da TV Globo expulsou o terceiro participante que infringiu regra de ouro do programa: não à agressão física. Assédio sexual e manifestações discriminatórias também levam à expulsão. BBB 26 bate recorde negativo. Descontrole entre pessoas comuns, a pipoca, e o que chamam de “camarote”. Em 33 dias, cinco baixas foram registradas, fora o paredão, três por expulsão, uma por desistência (seria expulso por assédio sexual) e outra por desclassificação.
Assim vamos assistindo a reprises ao vivo dessa realidade presente, lá dentro, e aqui fora, em todas as classes sociais. Na mesma semana, sábado de carnaval, um casal foi preso em flagrante em Dourados, Mato Grosso do Sul, por agredir brutalmente um bebê de um ano e oito meses. O bebê trazia hematomas pelo corpo, uma perninha quebrada, os olhos roxos. Cena dantesca, miserável. “O bebê não parava de chorar”, disse a pretensa mãe.
Dois dias antes, um médico invadiu uma festa de carnaval em Ubajara, Serra de Ibiapaba, no Ceará, para agredir a ex-namorada. Ela foi socorrida pela família. Em Piancó, no Maranhão, uma jovem não teve a mesma sorte. Foi morta a facadas pelo ex-companheiro. Como a vingança, às vezes, é um prato que ainda se come quente, o sujeito morreu ao pular a janela do prédio.
Em Brasilia, um jovem de 19 anos morreu neste sábado, após sofrer um golpe mata leão, em briga de rua. Em Itu, SP, Pamela Duarte foi estrangulada pelo ex-companheiro nesse domingo. Os casos se sucedem. Cruéis, desumanos. Homens capazes de matar os próprios filhos para punir a mãe. Covardes. Tão inaceitável quanto os ataques feitos à mãe, já dilacerada pela perda dos filhos.
Veio do interior do Pará a solidariedade cortante de outra mãe com história idêntica a de Itumbiara (Go). A delegada Amanda Souza teve os dois filhos assassinados pelo marido em 2023. Titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, indignou-se: “Absurdo, nojento, doentio, frustrante e desumano o que estou assistindo. Esses ataques dão legitimidade aos assassinatos das mulheres. Parem”.
Mirian Guaraciaba é jornalista
