Brasileirinhos: inadimplência e endividamento (por Roberto Caminha)
Aqui no nosso Brasil…bem, aqui as instituições e a gentalha adoram uma emoção
atualizado
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Imaginemos o Brasil como a nossa família. O papaizinho aqui ganha R$ 5 mil por mês (isso é o PIB), mas já deve R$ 4 mil no cartão de crédito, no cheque especial e ainda parcela a geladeira nova. Essa dívida em relação ao que ele ganha é o que reconheço como relação dívida/PIB.
No Brasil, esse número gira em torno de 90% do PIB. Traduzindo: para cada R$ 100 que o país produz, já deve quase R$ 90. Não é Venezuela ainda, mas também não é Suíça, nem aqui nem na casa da Mãe Joana.
E daí? Porque dívida não é problema — o problema é quando ela não para de crescer rápido e mais rápido do que a nossa capacidade de pagar e se limpar.
Os países ricos também têm dívidas altas. O Japão, um belo exemplo, deve mais de 200% do PIB. Só tem uma coisa, lá, o Vorcaro e seus pirilampos seriam obrigados a fazer um haraquiri coletivo na Praia de Copacabana no dia primeiro de janeiro. Por lá, há planejamento de verdade e o dinheiro é bem administrado, a economia cresce e os juros são baixíssimos.
Aqui no nosso Brasil…bem, aqui as instituições e a gentalha adoram uma emoção.
Quando o governo gasta mais do que arrecada — o famoso déficit — ele precisa pegar dinheiro emprestado. E quem empresta (investidores) cobra juros. E cobra caro, porque sabe com quem está lidando. Resultado: Mais dívida, juros mais altos, menos investimento e o crescimento travado. É o famoso ciclo do “quanto mais deve, mais paga e menos cresce”.
E o Zé Povinho como é que entra nessa história? Agora vem a parte que envenena o bolso do brasileiro das arquibancadas e gerais.
Quando o governo gasta demais, ele tem três opções: Aumentar impostos – nisso são muito hábeis e rápidos. Emitir mais dívida – os técnicos são ótimos na aplicação das ordens. Imprimir dinheiro que é a mais perigosa das opções, por ser geradora de inflação, que come o nosso bolso e a nossa mesa. No Brasil, fazemos as três opções — com muito esmero e incrível dedicação.
E isso afeta diretamente a população:
1- Juros altos: financiamento de casa, carro e até geladeira subiu de preço
2- Inflação: o dinheiro perde valor dentro do bolso e na ida para a feira
3- Menos emprego: empresas investem menos e as Bolsas Misérias crescem incentivando a tragédia. O partido que deveria ser dos trabalhadores, torce pela Bolsa Miséria e pela jornada com menos trabalho. O Partido dos Trabalhadores é contra o trabalho. Eu já não consigo dormir neste barulho.
Enquanto isso, o brasileiro já está com o bolso furado. No Brasil de hoje, mais de 70% das famílias encontram-se endividadas. Ou seja: O governo deve, o povo deve e os bancos, gentilmente agradecem.
Economia é basicamente confiança. Você jamais emprestará dinheiro para o seu vizinho, se não tiver a certeza que receberá de volta, com uma beirinha a mais. Se investidores começam a desconfiar que o país não vai pagar suas contas, eles fazem o quê? Correm ou voam. E quando o dinheiro cria asas, o dólar sobe demais, a inflação dispara e o país empobrece rapidamente. É como um restaurante vazio: o faminto vê a luz fraca, ninguém entra e começa a desconfiar da comida.
O Brasil não tem problema de arrecadação — arrecada muito. O problema é na hora de pagar. Paga mal e desviam bem. Há, no Brasil de hoje, uma imensa crise de credibilidade. E aqui entra um ponto importante: gastar mais hoje pode até dar voto, mas cobra juros amanhã — e não é só financeiro, é social.
E quem sofre primeiro? O jovem sem emprego, o aposentado roubado, com renda fixa e o brasileirinho empregado, que vê o seu honesto e valoroso salário dissolver.
Desvendando a tragédia: 1- Dívida/PIB alta: indica o risco existente 2-Gasto descontrolado: aumentam a dívida do brasileirinho 3- Juros altos: trancam a desconfiada economia 4- Inflação: destrói o poder de compra, come o dinheiro do brasileirinho, dentro do próprio bolso 5- Endividamento das famílias: fecha o ciclo. É uma engrenagem que gira rápido… para baixo.
Se nada mudar, o Brasil entrará num cenário de crescimento baixo por muitos anos — o famoso “voo de galinha”. Não é colapso imediato, é pior: é empobrecimento certo, lento e contínuo. Somamos a todo esse esforço, o envelhecimento da população economicamente ativa e a fuga dos jovens para novos e prósperos mercados bem ao nosso ladinho e no ultra mar.
A boa notícia? Tem solução.
Controle honesto dos gastos públicos, responsabilidade fiscal soberana, incentivo à produtividade e segurança jurídica. Isso não é vodu, e também não será por mágica — será por disciplina.
Meus senhores, disciplina, no Brasil, costuma ser goleada pela tentação do gasto fácil.
O Brasil não está quebrado. Mas está flertando, perigosamente, quase noivando, com o desequilíbrio. E aqui vai a verdade nua, crua e com ironia: o governo faz dívida…mas quem paga é sempre o brasileirinho. Seja na suprema e recordista mundial carga tributária, nos juros ou no preço do baião de dois.
Porque no fim das contas, meu ilustre e caro senhor leitor — de 17 ou de 70 anos — não existe almoço gratuito, só conta adiada, empurrada com a barriga, para nós ou para os nossos descendentes pagarem. E, tenhamos uma só certeza: ela sempre chega.
Roberto Caminha Filho, economista, é brasileirinho, é disciplinado e está esperando, por um ungido pelo Céu, em Brasília.


