Aprender a dizer a verdade (por Miguel Esteves Cardoso)
Ao contrário de dizer a verdade, mentir dá muito trabalho.
atualizado
Compartilhar notícia

Lembro-me de como aprendi a dizer a verdade.
Em menino, dizia sempre a verdade. Era a primeira coisa que me ocorria. E havia a novidade de falar, de dar comigo a dizer coisas como gente grande e, sobretudo, de haver quem se interessasse pelas minhas opiniões.
Era só uma pessoa — aquela que tinha andado comigo na barriga — mas já me chegava para expostular longamente sobre os defeitos do Nesquik.
As crianças dizem a verdade porque é o que custa menos a dizer. Mas depressa percebem que quase ninguém gosta da verdade. As pessoas começam a chorar. Ofendem-se. Dão-nos chapadas. Reagem. Insultam-nos. Fazem um esforço especial para nos magoar. E acertam. E depois somos nós a chorar baba e ranho.
Assim, aprendemos a mentir. A dizer que não é bem mentir: é doirar a pílula. É ver o lado bom das coisas. É querer agradar. É ser bem-educado. É respeitar a sensibilidade dos outros.
Mas há um problema com a mentira. Como toda a gente mente, todos sabem quando estamos a mentir. Não faz mal. Aprendemos a dar o desconto. Quando ela diz que “até gosta de mim”, é indiferente aos meus encantos ou odeia-me e não descansa enquanto não me matar?
Ao contrário de dizer a verdade, mentir dá muito trabalho — para mais com a tabela de descontos sempre aos saltos, à maneira das cotações da bolsa.
Os mentirosos apanham-se depressa não porque se esquecem das mentiras, mas porque, no fundo, querem ser apanhados, para poderem desistir daquela trabalheira toda.
Voltamos a dizer uma verdade. E, para grande espanto nosso, o mundo não desaba. Há até um certo alívio. Pela primeira vez, não desconfiam de nós. Pela primeira vez, interessam-se mesmo pela nossa opinião.
E, por muito espalhafatosa que seja a confissão, por horrendo que seja o preconceito que se confessou, aparecem sempre outros que concordam conosco.
Afinal, podemos dizer a verdade outra vez. Podemos guardar a imaginação para as fantasias que nos fazem falta. E podemos ser meninos outra vez.
(Transcrito do PÚBLICO)


