
Agora tenho de saber mais (por Miguel Esteves)
A curiosidade é um desassossego. É uma insatisfação permanente: é como passar a vida à procura de buracos numa superfície que parece lisa

Gostei muito — quem não gosta? — de ver uma crónica minha no exame de português do 9.º Ano. Se soubesse para o que era, teria feito um esforço adicional.
Também quero agradecer a quem escolheu a crónica, por ter escolhido um tema — os livros que temos em casa — que eu adoro.
Se sair um bocadinho da minha pele e pensar na primeira pergunta a fazer sobre as bibliotecas das pessoas, ela seria “Porque se acumulam tantos livros em casa?”
Descontando as respostas óbvias — comodismo, prazer, companhia — fica a mais importante: a curiosidade.
A curiosidade é um vício: quanto mais se sabe, mais se tem de saber.
Não há nada que não bifurque. Cada resposta traz duas perguntas escondidas, que logo se exibem, a dançar e a arder para encontrarem as respostas, pedinchando que nos despachemos.
A curiosidade é um desassossego. É uma insatisfação permanente: é como passar a vida à procura de buracos numa superfície que, para todos os efeitos, parece lisa.
Se já tivéssemos à mão o cimento para tapar esses buracos, faria sentido. Mas não temos. Cada buraco precisa de um cimento diferente. Diferente, mas — aqui é que está o gancho — delicioso.
Antes de embarcar na curiosidade, é preciso saber duas coisas. A primeira é que a curiosidade não é como ter jeito para línguas. É muito pior, porque todos os seres humanos (para não dizer todos os gatos) têm jeito para a curiosidade.
A segunda coisa é que a curiosidade come muitos recursos: sai cara e é difícil de amortizar, até porque é raro que outra pessoa vá na conversa de achar graça às coisas que nos põem curiosos.
Em contrapartida, a curiosidade é incansável. Não envelhece. Não depende dos outros. É feita, com a maior precisão que neste mundo pode haver, à medida de cada um. Exatamente à medida de cada um: é um milagre individual.
E leva a caminhos transcendentes.
Para mais, é excitante quando se chega, excitante quando se vai para lá, e excitante quando se regressa.
Quantas coisas são assim?
(Transcrito do PÚBLICO)
