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Blog do Noblat - 22 anos

Brasil: a Copa que paga as contas (por Roberto Caminha Filho)

Não existe programa social capaz de reproduzir aquela magia que acontece quando o povo resolve consumir ao mesmo tempo

22/06/2026 09:06
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Rafael Ribeiro / CBF
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O brasileirinho é um fenômeno do Paraíso, no Jardim do Éden. Reclama da sua seleção, reclama do técnico, reclama do juiz, reclama da bola, reclama até da cor da chuteira. Mas basta a camisa amarela entrar em campo que o coração bate diferente, a cerveja fica mais gelada, a abóbora se junta com a picanha e o churrasco ganha gosto de final de campeonato.

A verdade é simples: a Canarinho e a Gorduchinha movimentam muito mais do que só a bola. Movimentam gente. Movimentam sonhos. Movimentam dinheiro. E dinheiro, convenhamos, é uma das coisas que o brasileiro mais gosta de ver correndo. Gosta, principalmente, quando corre na direção dos seus assaltados bolsos.

Enquanto os craques disputam espaço nos gramados americanos, milhares de trabalhadores brasileiros entram em campo sem aparecer nas transmissões. São os vendedores de camisas, os fabricantes de bandeiras, os ambulantes, os garçons, os churrasqueiros, os motoristas de aplicativo, os técnicos de televisão, os influenciadores digitais, os radialistas e os donos de bares que descobrem, mais uma vez, que a Seleção Canarinho é uma das maiores geradoras de renda temporária do meu querido, amado, idolatrado e jamais traído Brasil.

É a Copa do Mundo da economia popular. Não existe programa social capaz de reproduzir aquela magia que acontece quando o povo resolve consumir ao mesmo tempo. O sujeito compra uma camisa nova, reúne os amigos, abastece o carro, compra carvão, carne, refrigerante, gelo, bandeira e até aquela corneta infernal, a Vuvuzela, que faz a vizinhança inteira participar das partidas…sem querer. O dinheiro gira. E quando o dinheiro gira, o trabalhador pira e respira.

O Brasil, que tantas vezes parece dividido entre os que reclamam e os que reclamam dos que reclamam, encontra no futebol uma rara oportunidade de se enxergar como um só país. É quase um milagre administrativo. Aliás, se algum ministro descobrir como transformar o clima de Copa em política pública permanente, ganha vaga imediata no livro dos “Gênios da República”.

Existe outro ingrediente importante nessa receita. Chama-se Neymar. Sim, ele mesmo. O homem que consegue ser amado, criticado, elogiado e condenado ao mesmo tempo, muitas vezes antes mesmo do café da manhã. Gostem dele ou não, Neymar continua sendo a maior vitrine individual do futebol brasileiro. É o nome que os americanos conhecem, que os europeus reconhecem, que os asiáticos identificam e que os patrocinadores adoram colocar em letras garrafais. Garrincha e Pelé apresentaram o Brasil ao planeta. Neymar manteve o Brasil no noticiário esportivo mundial durante os últimos quinze anos. Isso não é pouca coisa.

Num país que adora destruir seus próprios ídolos antes de substituí-los por outros, talvez esteja chegando a hora de reconhecer que a imagem de Neymar ainda carrega uma força extraordinária para atrair atenção, audiência e paixão pelo futebol brasileiro. E todos sabem que ele sempre levou muita porrada e nunca pipocou.

A Seleção precisa dessa energia. E o povo também. Porque o futebol nunca foi apenas futebol. Ele é conversa de bar. É assunto de elevador. É tema de almoço em família. É motivo para abraçar desconhecidos. É a única ocasião em que um ministro, um desembargador, um bicheiro e um vendedor de picolé conseguem discutir o mesmo assunto durante duas horas acreditando que todos são técnicos da Seleção. E talvez sejam. Ninguém entende mais de futebol do que o brasileiro. Pelo menos é isso que cada brasileiro acredita.

Chegamos naquela hora de parar de procurar defeitos na camisa verde-amarela por alguns dias. Vamos suspender os julgamentos sumários. Vamos deixar os algoritmos da raiva descansarem um pouco. Vamos torcer. Torcer de verdade. Torcer pelo atacante, pelo goleiro, pelo massagista, pelo mais brasileiro dos treinadores italianos, pelo roupeiro e por aquela multidão invisível de trabalhadores que ganha algum dinheirinho quando a Seleção avança.

Cada vitória brasileira significa mais mesas ocupadas nos bares, mais bandeiras vendidas nas ruas, mais entregas realizadas, mais encontros entre amigos e mais movimentos na economia. O nosso PIB fica todo faceiro e se achando um PIBÃO.

A Copa do Mundo não resolve os problemas do Brasil. Mas ajuda o brasileirinho a lembrar que ainda somos capazes de vibrar juntos. E, convenhamos, num país que transformou a discussão política em campeonato permanente de arremesso de titicas e pedras, já seria uma enorme vitória voltar a comemorar o mesmo gol.

Que venha a próxima emoção. Que venha a Escócia e o melhor whisky escocês para a nossa taba. E que volte o velho e bom costume de acreditar. Porque quando a camisa canarinho está em campo, não entram apenas onze jogadores. Entra um Brasil inteiro. E um Brasil unido ninguém segura. É quando passamos a valer muito mais do que os três pontos no final da primeira fase da Copa do Mundo de Futebol.

Roberto Caminha Filho, economista, acredita no Brasil e no Neymar.