A política do espetáculo (por Gustavo Krause)

O espetáculo é o palco montado onde o líder interpreta o papel da persona que melhor se ajusta e que tenha aderência à preferência do eleito

atualizado

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Andrew Harnik/Getty Images
Presidente dos EUA, Donald Trump - Metrópoles
1 de 1 Presidente dos EUA, Donald Trump - Metrópoles - Foto: Andrew Harnik/Getty Images

“A política, outrora, era ideias. Hoje, é pessoas. Ou melhor, personagens. Pois cada dirigente parece escolher um emprego e desempenhar um papel. Como no espetáculo”. Assim começa o livro O Estado Espetáculo de Roger-Gérard Schwartzenberg, (Flamarion, 1977), professor, escritor, político militante. Caso a definição fosse atualizada incluiria inevitavelmente “e algoritmos”, a obra não estaria totalmente comprometida, mas teria que ser submetida a substancial revisão.

Em 1967, foi publicada A Sociedade do Espetáculo, várias vezes reeditados em diversos idiomas, a obra clássica do notável pensador marxista Guy Debord, escrito em nove capítulos e 221 proposições, qualifica o espetáculo como a “ditadura efetiva da ilusão na sociedade moderna” (proposição 213)”. Nesta “ilusão” a vida deixou de ser vivenciada para ser apenas representada, vive-se “por procuração e “o consumidor real torna-se um consumidor de ilusões” (proposição n. 47).

Por sua vez, Mario Vargas Llosa (Nobel de Literatura em 1910), desiludido militante de esquerda, hoje, um liberal de sólidas convicções, escreveu em A Civilização do Espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura (Rio de Janeiro: Objetiva, 2013): “Para essa nova cultura são essenciais a produção industrial maciça e o sucesso comercial. A distinção entre preço e valor se apagou, ambos agora são um só tendo o primeiro absorvido e anulado o segundo […] O único valor existente é agora fixado pelo mercado”.

De fato, o fenômeno da espetacularização abarca e transforma todos os aspectos da sociedade contemporânea. No caso da política, o acréscimo do “algoritmo e da internet” é um permanente desafio porque altera profundamente os mecanismos da competição democrática. Este processo de transformação afeta profundamente o que parecia sólido e impõe uma enorme fluidez nas relações sociais e nas instituições que dão suporte à democracia liberal. Os mecanismos tradicionais não respondem com presteza ao ritmo vertiginoso exigido pelas demandas e aspirações sociais.

No entanto, os meios de comunicação desafiam no palco do “estado espetáculo” métodos maquiavelianos de “O Príncipe” por meio de conselhos, até hoje, em plena validade. O Principe no exercício do poder (a política como ela é de não como devia ser, eis do que se ocupa o notável pensador “florentino”) não pode dispensar a “astúcia da raposa” e a “força do leão”; fingir e disfarçar é um mandamento irrecusável “pois o vulgo só se pronuncia quanto aquilo que vê”, ou seja, no “teatro” da política o que parece é, mesmo não sendo.

Vivendo o momento histórico da transição da estrutura feudal descentralizada e fragmentada para o Estado moderno unificado e centralizado, Maquiavel, arguto observador e pensador sábio, compreendeu profundamente o funcionamento do poder, a psicologia dos governantes e governados; fundou uma nova ética, laica, apartada dos dogmas; e elaborou um tratado sobre a política aplicada à conquista e à manutenção do poder para uma efetiva sobrevivência do Estado.

De lá para cá, a “arte de mentir” lançou mão de progressos tecnológicos extraordinários o que levou Hannah Arendt a uma lúcida constatação: “A política é feita, em parte, da fabricação de uma certa ‘imagem’ e, em parte, da arte de levar a acreditar na realidade dessa imagem” (Da Mentira em Política). Trata-se de manipular a opinião para “comprar” ou “vender” uma imagem no mercado eleitoral ainda que seja necessário enganar e iludir.

Embora decorrido quase meio século de publicado, o livro de Schwartzenberg serve como fonte de consulta e discorre sobre três vertentes: personagens, espetáculo e o público.

No caso dos personagens, estabelece uma tipologia a ser assumida diante das circunstâncias históricas e os respectivos perfis  a serem assumidos: o herói, inflado pelo culto à personalidade, salva; o homem comum, o líder que se iguala  qualquer pessoa e que, além de manejar ideias e ações populistas, provoca nas pessoas com o jeito simples de ser o “prazer da igualdade”; o líder “charmoso” é o personagem que esbanja jovialidade, dinamismo, sucesso, atrai as pessoas pelas distinções contrastante, traços aristocráticos que não afastam, mas aproximam com uma calibrada igualdade.

O espetáculo é o palco montado onde o líder interpreta o papel da persona que melhor se ajusta e que tenha aderência à preferência do eleitor. Aí entra a gigantesca tarefa das equipes de campanha, com generalistas, especialistas, marqueteiros, redatores, um grupo eclético capaz utilizar as tecnologias disponíveis para dar voz, tela, a um one show man que atraia espectadores, ou seja, o público a ser persuadido, votar no candidato e obedecer ao líder.

O espetáculo, o público, os candidatos são dirigidos por instrumentos de medida cada vez mais sofisticados e desafiadores no quesito ganhar o voto. Neste ponto, tudo que foi dito é produzido por sofisticada tecnologia e, institucionalmente, regrada por um sistema político e eleitoral que, bem ou mal,  funcionem.

Atualmente, e diante da revolução digital, tudo que aqui foi escrito, diria Cazuza, é um “museu de grandes novidades”. Nele estão o velho aperto mão, o abraço amistoso e o desempenho nos debates que não resistem ao engajamento provocado por um dedinho deslizando pelo aplicativo Tik Tok.

Analógicos, aposentem-se! digitais, atualizem-se! A geração Alfa vem aí, a Beta começou a nascer. A Inteligência pode ser comprada no Mercado Livre. E a era Trump está, apenas, começando.

 

Gustavo Krause foi ministro da Fazenda 

 

 

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