
Longe da casa da mãe Joana (por Marcos Magalhães)
Não é necessária nenhuma dose exagerada de patriotismo para perceber um movimento de Washington para alterar a política na América do Sul

Javier Milei e Donald Trump provavelmente não conhecem a antiga expressão, nascida na Idade Média e transplantada ao Atlântico Sul. Mas os presidentes da Argentina e dos Estados Unidos parecem crer que o Brasil se tornou uma espécie de Casa da Mãe Joana.
Segundo o estudioso de folclore Câmara Cascudo, tudo começou quando a rainha Joana I, de Nápoles, regulamentou, em 1347, os bordéis de Avignon, onde vivia. Em Portugal nasceu então a expressão Paço da Mãe Joana, uma espécie de sinônimo para prostíbulo.
Ao chegar ao Brasil, tornou-se a Casa da Mãe Joana. E a expressão ganhou significado mais amplo. Passou a indicar, segundo o folclorista, “um lugar onde cada um faz o que quer, onde imperam a desordem e a desorganização”.
Onde cada um faz o que quer. Pois Milei fez o que quis no final de semana, em São Paulo. Participou da convenção do PL, de oposição ao governo, e disse que o senador Flávio Bolsonaro seria o único capaz de barrar a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesFoi além. Em sua passagem por São Paulo, chamou Lula de “ladrão” e “delinquente”, além de tê-lo acusado de patrocinar uma campanha anti-Argentina. E aproveitou para chamar de “lixo careca” o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que não permitiu sua visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Da direita brasileira recebeu aplausos calorosos. Ganhou ainda, do governador paulista Tarcísio de Freitas, a Ordem do Ipiranga, maior condecoração do governo de São Paulo. O mesmo governador que se deixou fotografar com o boné onde se lia Make America Great Again.
O governo brasileiro reagiu. O ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, transmitiu ao embaixador argentino em Brasília, Daniel Raimondi, a insatisfação com as críticas feitas por Milei a Lula e Moraes.
Em nota, o Itamaraty ressaltou que não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, faça agressões e ofensas “ao chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro”.
Mas o estrago já estava feito. As relações bilaterais desceram ao mais baixo nível das últimas décadas, justamente quando o Mercosul, liderado pelos dois países, procura negociar acordos comerciais com importantes potências, como Canadá, Japão, Coreia e a China.
Milei já indicou que não pretende pedir desculpas ao Brasil. Ou seja, acha que não fez nada de errado e que o país que visitou é mesmo um lugar onde cada um faz o que quer.
E Donald Trump? Tentou enviar ao Brasil dois representantes do Departamento de Estado com a justificativa oficial de discutir liberdade de expressão no momento em que se aproximam as eleições de outubro. Segundo a própria imprensa americana, o objetivo real da missão era o de questionar o processo eleitoral brasileiro.
Um dos dois enviados, Samuel Sanson, foi indicado pelo jornal The New York Times como um dos principais responsáveis pela “guerra cultural”estimulada por Trump na Europa. Não terá sido mera coincidência a escolha do presidente americano.
O Itamaraty negou os vistos de entrada dos dois funcionários. Uma atitude que demarca limites à ação de Washington às vésperas das eleições brasileiras. Como se a dizer que aqui não imperam a desordem e a desorganização.
Resta saber como vai reagir a sociedade brasileira. No mundo político, o bolsonarismo assume integralmente o lado de Trump – seja diretamente ou por meio de seus aliados, como Milei. Nos meios de comunicação, há os que têm dificuldade em identificar o que hoje já parece uma clara interferência externa em assuntos domésticos brasileiros.
Não é necessária, porém, nenhuma dose exagerada de patriotismo para perceber que existe um movimento idealizado em Washington para alterar de vez o cenário político na América do Sul. Depois de vitórias da direita em países como o Chile e a Colômbia, o Brasil seria a cereja do bolo na transformação do subcontinente em um campo de escoteiros de Trump.
Os eleitores terão a palavra final. Mas este país precisa manter a sua independência. Precisa fazer respeitar a sua soberania. Para que ninguém pense que aqui cada um faz o que quer.

