A pandemia do “mais” (por Eduardo Fernandez Silva)

Celebramos o crescimento econômico sem questionar suas consequências

atualizado

Compartilhar notícia

Getty Images
Usina elétrica a carvão com chaminés fumegantes contra o céu dramático do pôr do sol. Uso prejudicial de combustível em cidade grande. Metrópoles
1 de 1 Usina elétrica a carvão com chaminés fumegantes contra o céu dramático do pôr do sol. Uso prejudicial de combustível em cidade grande. Metrópoles - Foto: Getty Images

Passada a pandemia da COVID, especialistas advertem que é certo ocorrer uma próxima, embora não saibam quando. Antes dessa vindoura, deveríamos combater uma que grassa mundo afora, a também mortífera “pandemia do mais”.

Todos celebram o anúncio de “mais” vendas de veículos novos, embora reclamem do trânsito congestionado; viram quando empresas vendem “mais” refrigerantes e pseudo alimentos ultra processados, mas criticam a obesidade generalizada; governos celebram a realização de “mais” obras, e calam-se sobre a continuidade da baixa qualidade da saúde, educação e segurança pública.

Em suma, celebra-se o “mais”, sem que sejam avaliadas a qualidade do aumento e a quem beneficiou. Este certamente não é o caminho para construirmos uma sociedade melhor, mais bem adaptada à realidade de sermos quase dez bilhões de humanos munidos de milhões de motosserras, bilhões de veículos terrestres, marítimos e aéreos, além de fornos a queimar combustíveis fósseis. Como imaginar que tudo isso pode continuar na mesma linha de quando teve início essa corrida em relação a “mais”, se éramos então menos de 0,8 bilhão, sem motosserras, sem veículos motorizados e sem chaminés?

A justificativa da corrida é reduzir a pobreza, e a estatística oficial indica que a pobreza teria caído. Isso, apenas se aceitarmos a história oficial, que sustenta que ao ganhar acima de US$10,00/dia, ou um salário – mínimo brasileiro, deixa-se de ser pobre! Se, ao contrário, a linha traçada for menos ridícula, digamos US$2.000,00/mês, menos de 8% dos habitantes do planeta estariam acima da pobreza. É razoável continuar na pandemia do “mais” para beneficiar tão pequena parcela, ao enorme custo de avançarmos na sexta extinção em massa de seres vivos, desta vez causada por pequena fração dos membros de uma única espécie?

Celebrar o aumento de qualquer coisa, sem questionar a razão, os meios e as consequências desse crescimento é sinal de um viés ideológico inculcado por anos e anos de doutrinação. Há que criticar e questionar tão perigosa crença!

A imprensa celebra o “crescimento” de vendas, de produção, de viagens e de quase qualquer outra coisa; governantes também festejam. Poucos questionam suas consequências!

Sabemos que a sociedade está estruturada sobre um sistema no qual quem organiza a produção sofre grande pressão por crescer. Este é um fato inegável, e é razoável argumentar que tal forma de organização da sociedade – que nada tem de natural ou eterna – foi acompanhado por inovações que facilitaram aspectos da vida de milhões, apesar da pobreza de bilhões! Uma coisa, porém, é um planeta finito com 0,8 bilhão de habitantes, sem motosserras nem veículos; outra, a clamar por mudança, é estarmos hoje num planeta semidestruído pela erosão dos solos, abundância de plásticos pelos mares e rios e de gases venenosos na atmosfera, e continuarmos com uma forma de organização que leva empresas a desenharem produtos de rápido descarte ou mínima vida útil, movidas pelo imperativo de vender “mais” e lucrar mais.

A sobrevivência dos nossos filhos e netos não é mais importante?

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?