A incansável geopolítica do petróleo (por Felipe Sampaio)
Na era industrial uma economia só decola torrando um volume colossal de combustíveis, muito acima da oferta de outras fontes energéticas
atualizado
Compartilhar notícia

O Antropoceno não existe sem petróleo, sem seus derivados (diesel, gasolina e gás de cozinha) e seus vizinhos de jazida (como o gás natural). Na era industrial uma economia só decola torrando um volume colossal de combustíveis, muito acima da oferta de outras fontes energéticas como a solar, eólica, nuclear ou hidrelétrica. Quem manda é o petróleo. Os Estados Unidos foram produto dessa revolução industrial e desde a largada disputam a liderança nos variados segmentos de mercado, principalmente o setor de energia (leia-se petróleo).
Para nós, brasileiros, não é simples entender o que significa o petróleo para o dia a dia, porque na Terra da Santa Cruz só estamos acostumados a associar o uso de derivados de petróleo aos nossos carros, motos e caminhões. O restante da nossa vida é movido pela energia invisível dos nossos rios, por meio de hidrelétricas. Ou seja, iluminação pública, eletrodomésticos, maquinário industrial, computadores, TV, ar condicionado, elevadores, escadas rolantes, carros elétricos etc. etc.
Em outros países é diferente. Não há disponibilidade de rios adequados para a produção de energia elétrica em uma quantidade que determine a matriz energética para o cotidiano, como temos no Brasil. A energia desses lugares vem do petróleo, através de usinas termelétricas. Tudo funciona com petróleo e gás natural. Sem petróleo e gás esses países param. O Tio Sam foi o maior produtor de petróleo do mundo durante décadas. Depois, passou a dividir, por uns 40 anos, a posição com o Oriente Médio, especialmente a Arábia Saudita com quem, ao lado do Kwait e Emirados Árabes, a Casa Branca formou uma aliança global para estabilizar o fornecimento e o preço dos combustíveis fósseis. A Europa, por outro lado, passou a depender desse equilíbrio baseado no petróleo árabe, mas, também, do gás da mui amiga Rússia.
Contudo, agora os EUA recuperaram a liderança em petróleo e gás com larga vantagem sobre a concorrência internacional. A trampolim foi a descoberta de incríveis reservas de petróleo e gás extraídos das rochas de xisto. É o que revela Daniel Yergin em “O Novo Mapa – energia, clima e o conflito entre nações”. Acontece que esse novo estoque gigantesco de combustíveis tornou os ianques autossuficientes em energia pelas próximas décadas. E ainda sobra para suprir a China, o Japão, a Europa e clientes menores, dispensando os esforços caros pela paz nas arábias. De quebra, libera a OTAN dos humores russos.
Porém, como previa Henry Kissinger no seu “Ordem Mundial”, sobrou de novo para o Irã, que é grande exportador de petróleo e consegue bagunçar o mercado gringo de energia. Sem falar que banca facções da guerra santa antiamericana e antissemita espalhadas por diferentes países do Oriente Médio. Não é à toa que o Pentágono e Wall Street mostram tanta paciência com atuais as desventuras de Washington contra Teerã. Quanto menos petróleo persa no mercado, maior o lucro americano com a elevação dos preços do barril e o aumento dos volumes exportados. O problema é que os Aiatolás também estão lucrando tanto com o aumento de preços que compensa a queda das exportações e decorrência da guerra.
Até os russos têm enchido o bolso com toda essa confusão em Ormuz, apesar de andarem preocupados com a concorrência do xisto americano para seus clientes europeus e chineses. Mar-a-Lago precisará fazer as contas direito (que não é costume do seu inquilino) se quiser sair desse imbróglio sem queimar mais jazidas de xisto (e votos) em escaramuças sem futuro.
Felipe Sampaio: Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; chefiou a assessoria especial do Ministro da Defesa; dirigiu a área de estatísticas no Ministério da Justiça; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; foi subsecretário de Segurança Urbana do Recife; é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo e Microempresa.


