A Constituição é o problema (por Roberto Brant)

O resumo é que todos os governos para governar e resolver problemas tem que fazer reformas constitucionais

atualizado

Compartilhar notícia

constituição : Senado Federal/ Reprodução
Capa da Constituição Federal - Metrópoles
1 de 1 Capa da Constituição Federal - Metrópoles - Foto: constituição : Senado Federal/ Reprodução

Nesta semana a nossa Constituição completou 35 anos de vida. Na acidentada história política do Brasil este não é um fato trivial. A  Constituição de 1946, escrita após o fim do infame Estado Novo, durou apenas 18 anos. Uma questão que ainda está em aberto é se esses 35 anos ininterruptos de vida democrática se devem às virtudes da nossa Constituição ou ao amadurecimento da consciência democrática do povo brasileiro. A minha opinião é francamente pela segunda hipótese.

Duas coisas podem ser afirmadas sem risco de equívoco. A Constituição de 1988 foi um avanço indiscutível em termos de reconhecimento de direitos e garantias individuais. Outra marca extraordinária foi a universalização da assistência à saúde e a criação do SUS. Se ela tivesse feito apenas isto e ainda garantisse a existência de um Estado que funcionasse a serviço de todos, ela seria um belo exemplo de carta constitucional.  Na realidade ela foi muito além disto e aí começaram os problemas.

Para entendermos nossa Constituição temos que recuar até as particularidades de nosso processo constituinte. A Constituinte reuniu-se a partir de janeiro de 1987 sem um projeto prévio e num momento em que a morte de Tancredo tinha deixado o sistema político acéfalo e sem lideranças que o vertebrassem. A única liderança visível era de Ulysses Guimarães que, apesar do alto espírito público e da grande integridade, não era um político de ideias e formulações. Quando os constituintes se reuniram, eles foram distribuídos em comissões e subcomissões temáticas onde encontraram todas as páginas em branco. Começaram a escrever a partir do nada.

Cada grupo fechou-se em seu próprio tema sem ter ideia do que os outros grupos estavam escrevendo. Ao final, a soma de todos os textos setoriais formava uma peça de centenas de artigos descosturados e abrangendo todo os tipos de questão. Partia-se do particular para o geral sem qualquer visão unificadora. Dois outros aspectos são igualmente definidores do resultado geral. O primeiro foi que a Constituinte se reuniu e terminou o seu trabalho antes da queda do muro de Berlim e do colapso do socialismo real. Este fato fez da nossa Constituição, em sua versão de 1988, um documento estatista e extremamente nacionalista. A desmontagem destas distorções ocupou vários governos, especialmente o de Fernando Henrique. Se prevalecesse texto original nosso país seria hoje um dos mais atrasados do mundo.

O outro aspecto relevante foi a influência dos lobbies. O Plenário era sempre um espaço intransitável, ocupado por uma multidão de lobistas, que acabavam escrevendo o texto junto com os constituintes. Isto foi mais evidente no caso dos servidores públicos que asseguraram na Constituição toda a sorte de benefícios e privilégios que os tornaram um mundo à parte na sociedade brasileira. O pacto distributivo implícito na Constituição, na prática, aumentou a injustiça social em vez de reduzi-la

No final das contas, para atender a multiplicidade de interesses que a pressionavam e na ausência de lideranças disciplinadoras nossa Constituição aceitou tratar de tudo, chegando ao final com 250 artigos, 83 Disposições Transitórias e mais centenas de parágrafos, letras e incisos, o que acabou constitucionalizando toda a vida do país.

O resumo é que todos os governos para governar e resolver problemas tem que fazer reformas constitucionais, porque revelou-se impossível governar com a Constituição tal como foi escrita em 88.  Nestes 35 anos foram aprovadas 129 Emendas Constitucionais e várias outras estão a caminho. Só uma delas, a que trata da reforma dos impostos sobre o consumo contém 22 artigos e centenas de parágrafos e incisos, formando um texto que ocupa 35 páginas.

Tendo tratado de tudo e com tal minúcia, a Constituição manteve praticamente sem mudanças o sistema político herdado do regime militar. Este sistema está se revelando a cada dia mais disfuncional, mas é muito difícil mudá-lo porque está protegido pela Constituição.

Por isso e por muito mais nossa Constituição é um problema sem solução.

 

Roberto Brant, ex-ministro da Previdência Social do governo Fernando Henrique Cardoso

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comBlog do Noblat

Você quer ficar por dentro da coluna Blog do Noblat e receber notificações em tempo real?