A casa onde podemos ser nós (por Miguel Esteves Cardoso)

O melhor da nossa casa não é a casa em si – é ser nossa. Nós somos a nossa casa. Quando mudamos de casa, nunca mudamos o que mais interessa.

atualizado

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Casa declarada como residência de Rodrigo Bacellar em 2018
1 de 1 Casa declarada como residência de Rodrigo Bacellar em 2018 - Foto: null

O segredo da vida é transformar vontades em farturas. Há uma maneira natural de conseguir e uma maneira mais inteligente.

A natural é ir tantas vezes a Nova Iorque que já não apetece nada ir a Nova Iorque. A inteligente é observar que as vontades são mais férteis do que as farturas e que não é preciso ir 20 vezes a Nova Iorque para perceber que tudo cansa e que a culpa não é de tudo, mas do pendor humano para o cansaço.

A pessoa sábia é aquela que prefere ficar em casa. Há umas que preferem ficar em casa porque desperdiçaram a vida a conhecer tudo o que o mundo tem, até descobrir que é em casa que se está bem. Depois há outras, mais rápidas, que descobrem cedo que o melhor que se pode fazer nesta vida faz-se melhor em casa do que no resto do mundo.

Digo casa, como quem diz a minha casa, ou Colares, ou Lisboa, ou Portugal: a nossa casa é concêntrica. Sim, mas é no centro que se está melhor.

O melhor da nossa casa não é a casa em si – é ser nossa. É isso que nenhum paraíso exterior pode oferecer. Nós somos a nossa casa. Quando mudamos de casa, nunca mudamos o que mais interessa, que somos nós.

Se estamos tristes e viajamos para fugir à tristeza, cedo descobrimos que a tristeza veio conosco. Mas com a alegria é a mesma coisa. A lição é que tanto faz ficar em casa ou viajar.

A casa verdadeira somos nós. O nosso ego, a nossa alma, a nossa maneira de ser é a inquilina do nosso corpo. Já tem casa. E é por isso que se sente em casa onde se pode sentir mais à vontade, onde pode ser mais desinibidamente ela própria: em casa.

Quando somos jovens só queremos exterioridades. Só queremos o que não temos. Penduramos todos os nossos sonhos em coisas que ainda não temos.

Infelizmente é inevitável que assim seja. Só assim – depois de obter algumas dessas coisas importantíssimas e ficar a perceber que não tinham importância nenhuma – é que aprendemos que já tínhamos tudo – ou quase tudo – de que precisávamos para nos divertirmos.

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