Lavar frutas e verduras remove os agrotóxicos? A resposta é incômoda
Higienizar frutas e verduras ajuda, mas existe um limite que nenhuma solução caseira consegue ultrapassar
atualizado
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Quem lava morango com vinagre, deixa a maçã de molho em água com bicarbonato e esfrega o tomate com escovinha antes de comer acredita estar fazendo a coisa certa. E está, em parte. A verdade é que a higienização reduz sim a carga de resíduos de agrotóxicos em frutas e verduras, mas há um ponto que pouca gente conhece: existe um tipo de contaminação que nenhuma lavagem alcança.
O que a lavagem consegue, e o que não consegue
Aqui está o ponto central que a maioria das pessoas não sabe. Os agrotóxicos se dividem em dois grandes grupos: os sistêmicos, que penetram no interior das folhas e polpas da planta, e os de contato, que agem principalmente nas partes externas. A lavagem em água corrente e a retirada de cascas e folhas externas reduzem os resíduos presentes na superfície, mas são incapazes de eliminar aqueles contidos no interior do alimento.
Em outras palavras: lavar ajuda a remover o que está por fora. O que foi absorvido pela planta e chegou à polpa não sai com água, bicarbonato nem vinagre.
Bicarbonato, vinagre ou água corrente: o que funciona melhor?
Entre os métodos caseiros mais populares, o bicarbonato de sódio é o que tem mais respaldo científico para remoção de resíduos superficiais. Um estudo da Universidade de Massachusetts comprovou o potencial do bicarbonato na lavagem de maçãs, conseguindo remover resíduos de dois tipos de agrotóxicos da superfície. Contudo, internamente, a fruta ainda continha pesticidas. O estudo só avaliou maçãs, o resultado não é automaticamente transferível para outros alimentos.
O vinagre, ao contrário do que muita gente pensa, tem função diferente. O vinagre apenas remove sujeira e não faz a desinfecção química.
Existe ainda uma ordem importante a seguir: se soluções ácidas como o vinagre forem usadas antes de soluções alcalinas como o bicarbonato, os agrotóxicos ácidos podem penetrar mais facilmente nos alimentos. O mais seguro é fazer primeiro a imersão em bicarbonato de sódio e depois, se quiser, usar o vinagre.

Para folhas verdes, a recomendação da Anvisa é retirar as folhas externas e lavar cada folha separadamente em água corrente. Para frutas e legumes com casca, a escovinha ajuda a remover resíduos acumulados nas reentrâncias. A única alternativa capaz de remover 100% dos agrotóxicos externos é a retirada da casca, mas isso não resolve a contaminação interna.
O que fazer diante disso tudo
A higienização continua sendo necessária e reduz a carga de contaminantes superficiais, mas não resolve o problema estrutural. A melhor opção para evitar a exposição seria o consumo de alimentos orgânicos, mas o alto preço e a pouca oferta tornam essa escolha inacessível para boa parte da população brasileira.
Algumas estratégias práticas ajudam a diminuir o risco no dia a dia: dar preferência a alimentos da estação, que em geral recebem menos agrotóxicos; buscar informação sobre a origem do que se compra; preferir produtos com casca mais espessa nos casos em que ela será descartada; e priorizar orgânicos especialmente nos itens que aparecem com mais irregularidades nos relatórios da Anvisa: historicamente, pimentão, morango, pepino, alface e tomate figuram entre os mais problemáticos.












