É possível fazer um “detox” de plástico? Saiba o que diz a ciência

Apesar do alarde em torno dos possíveis riscos dessas substâncias à saúde, falta compreender melhor as relações desse contato

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1 de 1 Imagem de milhares de mcroplásticos - Metrópoles - Foto: Getty Images

O documentário Detox de Plástico, lançado em março na Netflix, populariza a ideia de que seria possível fazer uma “limpeza” desse tipo de material no organismo com benefícios para a saúde. Contudo, por mais sedutora que essa hipótese pareça, o que a ciência discute hoje é se reduzir a exposição cotidiana a esses materiais e aos compostos associados a eles pode trazer algum benefício ao organismo — e quais seriam esses efeitos.

No filme, seis casais com dificuldades para engravidar passam 90 dias tentando reduzir drasticamente a exposição cotidiana a plásticos, sob orientação da epidemiologista reprodutiva Shanna Swan. A experiência se baseia em um estudo piloto real, publicado em março de 2026 na revista Toxics. Ao fim da intervenção, os participantes apresentaram redução nos níveis urinários de bisfenol A (BPA) e ftalatos, compostos químicos presentes em plásticos e embalagens.

Sem um grupo controle, porém, o estudo não permite conclusões sobre a relação entre a intervenção e os desfechos reprodutivos, embora quatro casais tenham engravidado e tido bebês. “Do ponto de vista científico, ‘detox de plástico’ não é um conceito médico validado”, diz a gastroenterologista Patricia Almeida, do Einstein Hospital Israelita. A expressão chama atenção e ajuda a comunicar o tema ao público leigo, mas não significa que exista um protocolo para eliminar plásticos e substâncias derivadas do organismo. “A maioria desses compostos não permanece indefinidamente acumulada no corpo. Pelo contrário, costuma ter meia-vida relativamente curta, sendo metabolizada e eliminada”, afirma.

Aditivos químicos

Além da imprecisão do termo “detox”, a ideia de contaminação por plástico pode confundir quem tenta reduzir a exposição por motivos de saúde. Grosso modo, há dois tipos de exposição: a fragmentos microscópicos dos polímeros, os microplásticos, e a aditivos químicos, como plastificantes, retardadores de chama e substâncias antiaderentes. São esses aditivos que concentram as evidências mais consistentes de impacto sobre a saúde.

Uma revisão de várias meta-análises publicada em 2024 na Annals of Global Health lista alguns desses efeitos, entre eles disrupção endócrina, redução da qualidade do esperma e doenças cardiovasculares. Algumas das substâncias mais estudadas são compostos adicionados aos plásticos para fornecer propriedades específicas, como maleabilidade, resistência ou estabilidade. É o caso dos ftalatos, usados como plastificantes, e do BPA, empregado na fabricação de certos plásticos e resinas. Ambos estão entre os compostos mais associados a riscos à saúde humana.

O BPA tem sido associado a condições como diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão, doenças cardiovasculares e problemas reprodutivos, como síndrome dos ovários policísticos. Já os ftalatos foram relacionados a abortos espontâneos, redução da qualidade do esperma, endometriose, asma e prejuízos ao desenvolvimento cognitivo e motor infantil.

Compostos conhecidos como éteres difenílicos polibromados (PBDEs), usados como retardantes de chama em produtos plásticos, também aparecem associados a prejuízos no desenvolvimento cognitivo infantil. Já as substâncias per e polifluoroalquil (PFAS), chamadas de “químicos eternos” e usadas sobretudo em revestimentos antiaderentes, são associadas a alterações na tireoide, aumento do índice de massa corporal (IMC) em crianças, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em meninas e rinite alérgica.

Esse contato se dá de diversas formas. Um dos exemplos mais comuns analisados em laboratório são os filmes de PVC, películas transparentes usadas para embalar e armazenar alimentos. “Aquilo é um polímero de PVC, o mesmo que a gente tem, por exemplo, em canos. Só que, para ter aquele formato de filme mais fino e esticável, é preciso adicionar plastificantes”, explica o químico Fabio Bazílio, doutor em Vigilância Sanitária pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), que estuda como substâncias presentes em plásticos e embalagens migram para os alimentos e acabam chegando ao organismo. “Essas substâncias podem ser transferidas quando entram em contato com o alimento. No caso dos plastificantes, como os ftalatos, o maior problema são os alimentos gordurosos, porque essas substâncias têm afinidade com a gordura.”

E o contato pode ocorrer em diferentes etapas da cadeia de produção dos alimentos, como armazenamento, transporte, processamento industrial e em embalagens, revestimentos internos de latas e filmes plásticos. Nesses casos, fatores como calor, fricção e presença de gordura podem intensificar a migração dessas substâncias, que chegam ao organismo principalmente pela ingestão. “Do ponto de vista da saúde humana, a alimentação é a principal via de exposição”, frisa a gastroenterologista. “Isso tende a ser mais relevante quando há um padrão alimentar com alto consumo de produtos industrializados, como alimentos embalados, prontos para consumo e mais processados.”

Microplásticos por todo lado

Paralelamente, a ciência também vem se aprofundando nos efeitos da exposição aos microplásticos, definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como partículas sólidas de plástico ou fibras sintéticas com tamanho entre 1 nanômetro e 5 milímetros, muitas vezes misturadas a aditivos químicos para aumentar sua durabilidade.

Essas partículas estão disseminadas no ambiente e também podem ser ingeridas pela alimentação. Uma revisão sistemática de 2024, publicada na Reviews on Environmental Health, reuniu diferentes estimativas e apontou que um ser humano pode consumir até 1,5 milhão de micropartículas de plástico por dia. Segundo o estudo, as principais fontes seriam água engarrafada, frutas, vegetais, bebidas como café em sachê, moluscos e água encanada.

O ar é outra via importante de exposição. Uma análise divulgada no Journal of Exposure Science & Environmental Epidemiology mostrou que a presença de microplásticos tende a ser maior em ambientes fechados do que ao ar livre, e que o ar-condicionado pode agravar esse quadro. Em áreas externas, as maiores concentrações foram encontradas em rodovias com tráfego intenso, provavelmente devido à abrasão de pneus. Inclusive, há registros dessas partículas até em áreas remotas de montanhas e oceanos.

Os próprios autores, porém, ressaltam limitações importantes, como a falta de métodos padronizados para medir partículas em escala nano e a escassez de evidências sobre os impactos diretos à saúde humana. “De um lado, há um discurso que sugere que qualquer contato com plástico seria automaticamente tóxico e determinaria uma doença, o que não é cientificamente correto. Afinal, nem todo plástico é igual, e diferentes materiais podem ter comportamentos muito distintos”, observa a médica do Einstein.

Como reduzir a exposição

Mas também é equivocado minimizar o problema. Ainda que faltem provas conclusivas sobre as consequências desses poluentes para nossa saúde, já existem evidências sugestivas. Uma revisão sistemática publicada na Environmental Science & Technology classificou a exposição a microplásticos como uma suspeita de dano à saúde humana.

Segundo os autores, embora os dados ainda sejam limitados, estudos em animais com evidências de qualidade moderada a alta indicam prejuízos à qualidade do esperma, inflamações crônicas no sistema digestivo e estresse oxidativo nos pulmões, além de sugerirem uma possível ligação com câncer de cólon e de pulmão.

Também já se sabe que essas partículas podem circular pelo organismo. Um estudo transversal publicado na Scientific Reports encontrou microplásticos na corrente sanguínea de 88,9% dos adultos saudáveis analisados, com concentração média de 4,2 partículas por mililitro. De acordo com os pesquisadores, essa presença esteve associada a processos inflamatórios e alterações na coagulação, o que pode elevar riscos cardiovasculares. “Outro erro comum é tratar a presença detectável como doença comprovada. O fato de um composto ou de uma partícula ser detectado em fluidos ou tecidos humanos não significa, por si só, que ele seja a causa direta de uma condição de saúde ou de uma doença específica”, explica Patricia Almeida.

Ainda assim, o estudo apontou associação entre níveis mais altos de microplásticos no sangue e hábitos cotidianos: indivíduos que usavam com mais frequência recipientes plásticos para armazenar ou consumir alimentos apresentaram maiores concentrações dessas partículas. O achado não prova causalidade nem valida a proposta do documentário, mas reforça a hipótese de que reduzir a exposição pode alterar a carga desses materiais no organismo.

Embora ainda faltem conclusões definitivas, o conjunto de evidências aponta para um princípio já conhecido na saúde: reduzir exposições desnecessárias, especialmente quando envolvem atitudes simples, pode ser uma estratégia prudente enquanto ainda não temos todas as respostas.

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