Meio ambiente: microplásticos achados no mar podem ser reaproveitados?
Os microplásticos são fragmentos minúsculos que se desprendem de objetos plásticos. Imperceptíveis, cada vez mais estão presente no oceanos
atualizado
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Atualmente, um dos maiores desafios ambientais é salvar os oceanos da presença de microplásticos. Ao chegarem no mar por meio da ação humana, é quase impossível localizá-los. Assim, eles passam a interagir com sedimentos naturais, causando a poluição dos ecossistemas marinhos e contaminando a cadeia alimentar, da fauna marinha aos seres humanos.
Recentemente, pesquisadores brasileiros encontraram rochas misturadas com plástico na Ilha da Trindade, em Vitória (ES). O estudo publicado na revista científica Science Direct mostra como materiais plásticos vem alterando ciclos geológicos no ambiente marinho. Porém, segundo especialistas entrevistados pelo Metrópoles, a notícia não é nada animadora.
A geóloga Luiza Ferreira afirma que não há evidências robustas de que as rochas de plástico podem ser reaproveitadas de alguma forma. Atualmente, a especialista faz mestrado pela Universidade de Brasília (UnB) sobre a ocorrência de microplásticos no Lago Paranoá, em Brasília.
“É um tema complexo, que envolve desafios quanto à composição heterogênea, presença de contaminantes e custo de coleta e processamento. Ainda precisamos avançar muito para compreender o comportamento físico e químico deste material antes de pensar em qualquer aplicação prática”, explica a profissional.
O oceanógrafo Gilberto Fillmann, professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), afirma que, no caso das rochas modificadas pelo plástico, é impossível retirar minerais presentes no objeto.
“A presença do plástico em sedimentos naturais não vai trazer benefício nenhum. Por exemplo, se você pretende extrair algum mineral associado a essa rocha, isso vai ser um problema, porque haverá um interferente, o plástico”, diz o membro do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO).
Fillmann ainda ressalta que há mais um agravante: os plásticos presentes no mar são danificados pela salinidade da água e a radiação ultravioleta (UV) do sol, podendo liberar substâncias tóxicas em certas condições. “Ele serve como uma esponja no oceano, acumulando contaminantes”, afirma.
O que são microplásticos?
- Os micro e nanoplásticos são fragmentos minúsculos que se desprendem de objetos plásticos ao longo do tempo ou com o uso, como aquecimento, abrasão e lavagem.
- Eles já foram detectados em alimentos, no ar, na água e até no corpo humano, incluindo em órgãos vitais e na placenta.
- Testes com camundongos também identificaram essas partículas nos fetos, levantando preocupações sobre os impactos ainda desconhecidos na saúde.

Ação humana: uma nova era para geologia
Grande parte dos especialistas afirma que as plastiformações – mistura de sedimentos naturais com plástico – marcam uma nova era geológica ligada à intensa ação humana sobre o planeta: o antropoceno. As rochas de plástico são consideradas evidências robustas de como a presença humana alterou processos biológicos naturais.
Na geologia atual, vestígios e detritos tecnológicos, como o plástico, já são classificados como tecnofósseis, um termo relativamente novo. “Entende-se como se eles fossem “fósseis” da era tecnológica humana. Futuramente, isso poderá ser estudado como parte de uma nova época geológica”, alerta Luiza.
Prevenir é melhor solução
É quase impossível retirar microplásticos dos mares em larga escala. O processo seria muito custoso e precisaria filtrar grandes volumes de água, sendo mais prejudicial do que benéfico aos ecossistemas marinhos.
Atualmente, a medida mais eficaz é agir na raiz do problema: coletar garrafas, embalagens e outros resíduos antes que se desintegrem pelos mares. Além disso, políticas públicas que foquem na redução gradual do plástico descartável, fomentem a reciclagem e ações nacionais para diminuição de lixo marinho também são essenciais.
“O fato de o plástico estar se integrando nesse patamar nos lembra o tamanho do impacto humano. Vejo isso como uma nova frente de atuação, precisamos nos atentar a essa nova temáticas e participar ativamente dessas discussões. A realidade atual é muito dinâmica e não podemos ficar presos ao tradicionalismo”, finaliza Luiza.
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