Power nap: médicos explicam os benefícios do cochilo durante o dia
Cochilos rápidos podem ajudar o cérebro a se recuperar durante o dia, desde que sejam breves e feitos no horário certo
atualizado
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Sentir sono ao longo do dia, especialmente depois do almoço, é uma experiência comum para muita gente. Em meio à rotina de trabalho e compromissos, a vontade de fechar os olhos por alguns minutos costuma ser ignorada ou vista como sinal de preguiça. Mas será que tirar um cochilo rápido, o chamado power nap, pode ser saudável e trazer benefícios para o corpo e a mente?
Especialistas ouvidos pelo Metrópoles explicam que o hábito não é apenas cultural. Em muitos casos, ele responde a uma necessidade real do cérebro, especialmente quando o descanso noturno não foi suficiente.
Do ponto de vista neurológico, o cochilo curto pode ter origem tanto biológica quanto comportamental. O neurologista Thiago Taya, do Hospital Brasília, em Águas Claras, explica que o cérebro precisa de sono para realizar processos essenciais de limpeza e renovação química.
“Quando a pessoa não dorme bem à noite, o cérebro não consegue fazer a depuração adequada de substâncias que se acumulam ao longo do dia. Isso aumenta níveis de compostos como a adenosina, que provoca cansaço e sonolência, e acaba gerando a necessidade biológica de um cochilo durante o dia”, afirma.
Segundo ele, o fator cultural também influencia. Horários de trabalho que preveem pausas após o almoço e hábitos familiares consolidados desde a infância ajudam a moldar o ciclo circadiano e a tornar o cochilo um comportamento mais comum em algumas pessoas do que em outras.
Por que o cochilo precisa ser curto
A duração do power nap é um dos pontos mais importantes para que ele traga benefícios. Cochilos de até 20 ou 30 minutos costumam ser suficientes para restaurar o nível de alerta sem causar efeitos indesejados.
Thiago explica que o sono é organizado em ciclos de cerca de 90 minutos, divididos entre fases mais leves e o sono REM.
“Nos primeiros minutos, entramos no sono não REM, especialmente nas fases iniciais, que já permitem descanso mental. Quando o cochilo se prolonga demais, aumenta a chance de entrar no sono REM, e acordar nessa fase pode gerar sensação de confusão, cansaço e sono não reparador”, diz.
Além disso, cochilos longos reduzem excessivamente a adenosina, o que pode dificultar o acúmulo natural dessa substância ao longo do dia e atrapalhar o sono da noite, que é o mais importante para a saúde cerebral.
Efeito nas funções cognitivas
Quando feito da forma correta, o power nap pode ajudar a recuperar o desempenho mental ao longo do dia. O neurologista explica que o cochilo não aumenta as capacidades cognitivas além do normal, mas ajuda a restaurar funções que foram prejudicadas pelo cansaço.
“O benefício principal é a recuperação da atenção, da velocidade de processamento, da flexibilidade cognitiva e das funções executivas, como o controle da impulsividade e a capacidade de resolver problemas”, afirma.
Segundo ele, esse efeito ocorre porque o sono promove uma reorganização neuroquímica e a remoção de substâncias que atrapalham o funcionamento do cérebro.
Quando e para quem o cochilo é indicado
Nem todo mundo se beneficia da soneca diurna, e isso também precisa ser levado em conta. A neurologista Margarete de Jesus Carvalho, do Hospital Samaritano Paulista, explica que o horário mais adequado costuma ser após o almoço, respeitando o limite de cerca de 20 minutos.
“O cochilo saudável é curto e pontual. Pessoas que acordam cansadas, sentem sonolência excessiva ao longo do dia e precisam dormir várias vezes fora do horário noturno merecem atenção”, afirma.
Segundo ela, quando o cochilo deixa de ser eventual e passa a se repetir muitas vezes ao dia, pode indicar que o sono noturno não está sendo reparador. “Nesses casos, é importante investigar distúrbios do sono com um neurologista, porque o excesso de sonolência diurna não deve ser encarado como normal”, orienta.
