Fake news na saúde: repassá-las pode colocar a vida de outros em risco

Notícias falsas são escritas sobre qualquer assunto, mas, quando o tema é saúde, elas podem atrapalhar tratamentos e provocar doenças

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 28/04/2019 14:02

Você provavelmente já recebeu no WhatsApp uma notícia com um título bem apelativo e milagroso, sobre novidades impressionantes relacionadas à saúde. Pode ser o chá de uma folha rara que nasce no topo de uma montanha no interior asiático e que é capaz de curar todos os tipos de câncer ou alguma doença estranha que aparece depois da vacinação. As fake news, tão populares na política durante as últimas eleições, também estão firmes e fortes no campo da saúde.

As informações falsas são um perigo, principalmente nessa seara. Uma reportagem sem fonte, possivelmente inventada, pode ser responsável por vários problemas de saúde e até pela morte de alguém. É preciso responsabilidade: os especialistas afirmam que a população precisa aceitar que fake news existem e saber se defender delas. Não importa se veio da sua avó, de um tio ou do seu melhor amigo.

“Meu chefe me dizia que uma notícia falsa que chega de um parente querido para um paciente oncológico é uma declaração de amor com um vírus embutido. Significa que aquela pessoa quer o seu bem, mas pode estar causando mal”, explica a oncologista Lucila Rocha, da Oncologia D’Or. Ela conta que, fragilizado, o paciente com câncer tende a acreditar em qualquer notícia que forneça esperança frente a uma doença tão assustadora: muitos largam o tratamento prescrito para tentar garrafadas e remédios caseiros que prometem milagres e acabam piorando o quadro clínico.

Outros, com medo do julgamento do médico, passam a apostar em alimentos específicos durante o tratamento e não avisam os profissionais de saúde. “Algumas dessas ‘soluções milagrosas’ potencializam a toxicidade da quimioterapia, por exemplo, e o paciente pode até ter uma hepatite fulminante ou uma pancreatite. Mas o médico precisa se policiar sobre como reagir, para não condenar o paciente quando ele só precisa de empatia. O uso das fake news não acontece porque ele duvida do médico, mas porque está em busca de qualquer coisa que possa ajudar”, diz.

História antiga
Wagner Vasconcelos, coordenador da assessoria de comunicação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estudioso do assunto e coordenador-geral do II Seminário Internacional Relações da Saúde Pública com a Imprensa: Fake News e Saúde, conta que, ao contrário do que se pensa, as notícias falsas não são novidade. A diferença é que, hoje, elas se propagam muito mais rápido, o que lhes dá um efeito arrasador. “Todo mundo é um potencial comunicador amplificado e pode propagar notícia. O principal é lembrar que, por isso, temos responsabilidade”, diz.

Ele explica que as pessoas se informam na mídia tradicional, mas formam suas ideias a partir do que dialogam com os mais próximos. E é justamente daí que chegam as fake news. É no grupo da família, dos amigos do futebol, do pessoal do trabalho. “Já tem um peso diferente. E a gente quer ver replicado o que acreditamos, independentemente de estar correto. Se sou contra vacinas, por exemplo, vou passar para a frente uma informação mesmo sem saber da veracidade dela, se tem respaldo científico”, afirma.

E esse tipo de informação é sensível e tem a ver com a saúde das pessoas. Passar para frente uma notícia sem checar se é verdadeira significa potencialmente fazer mal ao próximo. É preciso ter responsabilidade. “Recomendamos ter senso crítico, buscar confrontar as informações, checar a fonte, se há uma instituição séria por trás, se há um estudo, se é embasado ou parte de um achismo”, diz Vasconcelos.

Ana Miguel, coordenadora do núcleo multimídia do Ministério da Saúde e responsável pelo programa Saúde Sem Fake News, ensina que as notícias falsas costumam seguir um padrão: título chamativo e apelativo, construção de texto ruim, um nome inventado que assina ou um portal que não existe. “Uma coisa milagrosa que não é noticiada pelos grandes jornais é estranho. O usuário do WhatsApp passa aquilo para a frente sem saber se é verdade, mas, se descobre que não é falsa, ele não volta para desmentir e a informação vai passando”, diz.

Preocupado com a propagação desse tipo de notícia, em agosto de 2018, o Ministério lançou um programa que funciona pelo WhatsApp, a rede social mais difícil de ser monitorada. Basta encaminhar a notícia para a pasta, que apura com a área responsável e responde com um selo de falso ou verdadeiro. Até março de 2019, foram recebidas 7852 mensagens, sendo 1400 fake news.

Três principais temas de fake news:  

  1. . Vacinas/vacinação
  2. . Alimentação (dietas milagrosas, cura de doenças pela alimentação e restrição de grupos alimentares)
  3. . Medicamentos (principalmente os milagrosos, que curam até câncer ou que podem matar)

Fonte: Ministério da Saúde

Oito passos para identificar fake news 

  • Avalie a fonte, o site, o autor do conteúdo
    Muitas páginas publicadoras de fake news têm nomes parecidos com endereços de sites de notícias. Portanto, avalie o endereço e verifique se é confiável. Também veja se outros conteúdos da página são duvidosos.
  • Avalie a estrutura do texto
    Sites que divulgam fake news costumam apresentar erros de português, de formatação, letras em caixa alta e uso exagerado de pontuação.
  • Preste atenção na data da publicação
    Veja se a notícia ainda é relevante e se está atualizada.
  • Leia mais que só o título e o subtítulo
    Leia a notícia até o fim. Muitas vezes, o título e o subtítulo não condizem com o texto.
  • Pesquise em outros sites de conteúdo
    Duvide se você receber uma notícia bombástica que não esteja em outros sites.
  • Veja se não se trata de site de piadas
    Alguns sites de humor usam da ironia para fazer piada.
  • Só compartilhe após checar se a informação é correta
    Não compartilhe conteúdo por impulso. Você é responsável por aquilo que compartilha.

Fonte: Ministério da Saúde

Confira, na galeria, algumas das informações checadas pelo Ministério da Saúde:

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