Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Copa do Mundo 2026Saúde

Derrota é oportunidade para ensinar crianças a lidar com a frustração

Após a eliminação do Brasil na Copa, especialistas dizem que pais podem aproveitar o momento para conversar com crianças sobre sentimentos

06/07/2026 14:28
Compartilhar notícia
Magnific
Foto colorida de criança brava, triste, sentada com braços cruzados - Metrópoles.

A eliminação do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo 2026 deixou muitos torcedores frustrados. Para crianças e adolescentes, porém, a derrota pode virar uma oportunidade importante de aprendizado.

Mais do que falar sobre futebol, pais e responsáveis podem usar o momento para conversar sobre tristeza, perdas, irritação e situações que fogem ao nosso controle.

Os especialistas lembram que perder faz parte da vida. O desafio é ajudar os mais jovens a entender que sentir raiva, chorar ou ficar decepcionado não é errado. O ponto central está na forma como cada um aprende a lidar com as emoções.

Receba no seu email as notícias de Ciência&Saúde

Frequência de envio: Semanal

Ver todas as newsletters

Acolher as crianças antes de corrigir

Para a psicóloga Carmela Silvana da Silveira, da Santa Casa de São José dos Campos, o primeiro passo é acolher a emoção sem julgamento. Tristeza, raiva, decepção e frustração são reações humanas diante de uma derrota.

“O adolescente precisa perceber que não é o sentimento que determina quem ele é, mas a forma como escolhe responder a ele”, afirma Carmela.

A psicóloga explica que o episódio também pode estimular o autoconhecimento. Em vez de exigir que o jovem “supere logo”, pais e responsáveis podem ajudá-lo a identificar o que está sentindo, por que a derrota afetou tanto e quais atitudes podem trazer mais equilíbrio.

Conversar, fazer uma pausa nas redes sociais, praticar atividade física e refletir antes de responder a provocações são caminhos apontados pela especialista para evitar reações impulsivas, brigas e discussões.

Perder não significa fracassar

A psicóloga Raquel Lima, do Complexo Hospitalar Santa Casa de Bragança Paulista, em São Paulo, reforça que a derrota da Seleção pode ajudar crianças a compreender que frustração faz parte da vida. Segundo ela, pais e responsáveis devem nomear a emoção e mostrar que perder não significa fracassar.

O cuidado vale principalmente para crianças que criam vínculo afetivo com o esporte. Nesses casos, chorar ou ficar triste após uma eliminação pode ser uma reação natural.

“Frases como ‘é só um jogo’ ou ‘para de chorar’ podem passar a ideia de que o sentimento da criança não importa. O adulto tem que validar a emoção antes de tentar explicar a situação. Uma alternativa é dizer: ‘Entendo que você ficou triste’, e depois mostrar que a tristeza passa e que derrotas fazem parte das experiências humanas”, explica.

As especialistas lembram que vivemos em uma cultura que valoriza muito a vitória e, muitas vezes, associa sucesso ao valor de uma pessoa. Por isso, ensinar crianças e adolescentes a perder também é uma forma de proteger a autoestima. A derrota não diminui ninguém. Pelo contrário: pode abrir espaço para refletir, rever estratégias, crescer e desenvolver maturidade.

Quando apenas o resultado é valorizado, esforço, dedicação, persistência e coragem de tentar novamente acabam ficando em segundo plano.

Para os jovens, compreender essa diferença é essencial. O valor de uma pessoa não depende apenas das conquistas, mas também da forma como enfrenta desafios.

O papel dos pais no desenvolvimento das crianças

A derrota da Seleção pode servir como ponto de partida para conversas sobre outras frustrações: uma nota baixa, briga com amigos, rejeição, expectativa não alcançada ou uma mudança inesperada. Segundo Carmela, os pais não precisam ter respostas prontas. O mais importante é criar um espaço de escuta, acolhimento e diálogo.

Quando adultos demonstram serenidade diante das próprias frustrações, tornam-se exemplos importantes. Na prática, mostram que é possível sofrer, aprender e seguir em frente”, explica a psicóloga.

A atenção deve aumentar quando a reação da criança ou do adolescente é muito intensa, prolongada ou começa a atrapalhar a rotina. Raquel cita mudanças no sono, na alimentação, na escola, nas brincadeiras ou em outras áreas da vida como sinais de alerta.

As profissionais também orientam a observar explosões frequentes de raiva, agressividade, isolamento, crises desproporcionais diante de pequenas perdas, medo excessivo de errar, baixa autoestima persistente, ansiedade intensa ou desistência constante diante de desafios.

Nesses casos, o acompanhamento psicológico pode ajudar a criança ou o adolescente a compreender melhor as emoções, fortalecer a autoestima e desenvolver recursos para lidar com perdas.