Banda com cachês milionários em SP tem servidor da Fazenda como músico
Banda de número 2 da pasta foi contratada dez vezes pela Prefeitura de SP para shows em 2025. Secretaria diz que participação é voluntária

Um dos integrantes da banda Névula, que é uma das quatro que recebeu cachês milionários da Prefeitura de São Paulo em 2025, segundo revelado pelo colunista Demétrio Vecchioli do Metrópoles, é o secretário-adjunto municipal da Fazenda. As contratações são alvo de apuração (leia abaixo) do Tribunal de Contas do Município (TCM).
Fabiano Martins de Oliveira se apresenta com o nome artístico de “Tenente”, mas hoje é o número 2 da pasta. No mês passado, Fabiano assumiu o posto enquanto o atual secretário, Luis Felipe Vidal Arellano, estava em férias.
Fabiano é auditor fiscal tributário de carreira e foi nomeado na Prefeitura de São Paulo em 2012. Desde então, também exerceu os cargos de diretor de Administração Financeira, diretor de Arrecadação Bancária e diretor do Disponível.
O nome de “Tenente” é usado nos palcos em referência ao cargo de 1º tenente R2 do Exército Brasileiro, onde exerceu atividades entre 1996 e 2005, de acordo com a Secretaria da Fazenda.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPAntes de chegar a São Paulo, Fabiano foi secretário municipal em Atibaia, no interior paulista, entre os anos de 2017 e 2018. Como servidor público, exerceu o cargo de agente fiscal do Tesouro do Estado do Rio Grande do Sul, entre os anos de 2010 e 2012, e administrador na Advocacia-Geral da União (AGU), entre 2007 e 2010.

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Ver todasProcurada pelo Metrópoles, a Secretaria da Fazenda afirmou que Fabiano Martins de Oliveira não integra a banda mencionada na reportagem e que a participação artística do servidor ocorreu a convite da banda, de forma voluntária, sem remuneração e com renúncia expressa a quaisquer direitos, vantagens ou pagamentos decorrentes dessa participação.
A banda Névula tem 4,5 mil ouvintes mensais em uma das plataformas de streaming, com 10 singles e um EP com cinco músicas, lançado em 2025. Seus perfis no Instagram e no YouTube foram deletados após questionamentos da reportagem do Metrópoles à Secretaria da Fazenda. Apesar da afirmação, o secretário aparecia em diversas publicações feitas pela rede social e também no Facebook ao longo de 2025, incluindo um post de apresentação.
Para justificar a cobrança de um cachê de R$ 30 mil, a banda apresenta notas fiscais emitidas para shows particulares para uma consultoria de engenharia, para uma pessoa física e uma das empresas de Matheus Inácio do Nascimento, responsável pela agência Agência J7, que antes se chamava Agência RVL.
O antigo dono é Fabrício Raveli, organizador de eventos, que teria contratado as próprias bandas com cachê pago pela Prefeitura de São Paulo. O grupo foi contratado dez vezes pela Prefeitura de São Paulo só entre julho e outubro de 2025. Seu irmão, Rodrigo Raveli, comanda a São Paulo Turismo, que banca essas agendas culturais – a prefeitura diz tê-lo afastado após a coluna de Demétrio Vecchioli publicar sobre a relação entre os dois.
Em resposta ao Metrópoles, a Secretaria da Fazenda reforçou que “o servidor e a Secretaria Municipal da Fazenda não participam de qualquer etapa dos processos de contratação realizados pela Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa ou qualquer outra Pasta”.
Outras contratações
Além da Névula, outras bandas de rock (MotorRockBr, RockFun Legends, Black Tie) também ligadas ao produtor Fabrício Raveli foram contratadas ao menos 73 vezes pela Prefeitura de São Paulo nos últimos 15 meses, com cachês que somam mais de R$ 2,3 milhões.
Todas foram criadas entre 2023 e 2024, tocam covers, nunca foram contratadas por outro ente público e basicamente se apresentam somente em eventos do próprio Raveli.
Os irmãos Raveli são sobrinhos de Élcita Raveli, principal assessora do presidente do Tribunal de Contas do Município (TCM), Domingos Dissei. Os dois estiveram na sede da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) em 5 de agosto de 2025 e se reuniram com o chefe de gabinete da pasta. No dia seguinte, a SMC iniciou processo de contratação de dois shows de bandas de Fabrício para dali uma semana.
Apuração do TCM
A partir de uma denúncia da vereadora Luana Santos (PSol), o TCM abriu inquérito para investigar esses contratos e identificou que as justificativas da prefeitura para comprovar a “consagração pela crítica ou pelo público” de duas dessas bandas, Névula e RockFun Legends, são apenas “material de divulgação preparado pelo próprio contratado“, não uma análise legal.
A auditoria constatou também que não há qualquer evidência de divulgação prévia nos autos nem comprovação da efetiva realização dos espetáculos nos processos de pagamento.
O processo aguarda voto do relator Eduardo Tuma para ser levado a plenário. Procurado, Raveli não comentou, mas deletou as redes sociais de um dos eventos e da ONG utilizada para organizá-los.


























