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Demétrio Vecchioli

Bandas de rock desconhecidas têm cachês milionários em São Paulo

Quatro bandas que só tocam cover e foram criadas recentemente receberam mais de R$ 2,3 milhões em cachês em 15 meses

14/07/2026 02:00
MotorRockBr se apresenta com cachê de R$ 30 mil pago pela prefeitura de São Paulo
Bandas de rock desconhecidas têm cachês milionários em São Paulo

O ano de 2024 estava já no fim quando cinco músicos, nenhum deles de renome, criaram uma banda de rock, a MotorRockBr. Um ano e meio depois, sem nunca terem lançado uma música e com apenas 333 seguidores nas redes sociais, eles já receberam R$ 828 mil da prefeitura de São Paulo, para 30 shows, sempre contratados como “artistas consagrados”. A foto que ilustra a reportagem mostra o público desses eventos.

Por cada apresentação, mesmo quando tocam no corre-corre da estação da Sé no horário do rush em dia de semana, cobram cachê de R$ 30 mil. Isso é mais de quatro vezes o valor da Tabela de Referência da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) para uma banda de cinco componentes.

Para justificar o preço e a exceção para artistas consagrados, a banda apresenta notas de shows anteriores realizados em “eventos corporativos” nas sedes de microempresas do mesmo dono da agência que a representa.

Mas a MotorRockBr não está sozinha. Quatro bandas de rock também ligadas ao produtor Fabrício Raveli foram contratadas ao menos 73 vezes pela prefeitura de São Paulo nos últimos 15 meses, com cachês que somam mais de R$ 2,3 milhões.

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Todas foram criadas entre 2023 e 2024, tocam covers, nunca foram contratadas por outro ente público e basicamente se apresentam somente em eventos do próprio Raveli, que são bancados pela gerência de eventos da São Paulo Turismo, comandada pelo irmão dele, Rodrigo Ravelia prefeitura diz tê-lo afastado após a coluna publicar sobre a relação entre os dois.

Os irmãos são sobrinhos de Élcita Raveli, principal assessora do presidente do Tribunal de Contas do Município (TCM), Domingos Dissei. Os dois estiveram na sede da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) em 5 de agosto de 2025 e se reuniram com o chefe de gabinete da pasta. No dia seguinte, a SMC iniciou processo de contratação de dois shows de bandas de Fabrício para dali uma semana.

Fundada por Fabrício – dono do evento RockFun Fest e da empresa RockFun -e representada por uma empresa que pertencia a ele, a RockFun Legends recebeu R$ 45 mil para um show que não foi divulgado previamente, supostamente às 17h de uma terça-feira comum em um centro cultural da prefeitura.

Tanto o valor (o mesmo que o rapper MV Bill recebeu para tocar na Virada Cultural) quanto dia e horário são absolutamente incomuns na agenda cultural municipal.

A partir de uma denúncia da vereadora Luana Santos (PSol), o TCM abriu inquérito para investigar esses contratos e identificou que as justificativas da prefeitura para comprovar a “consagração pela crítica ou pelo público” de duas dessas bandas, Névula e RockFun Legends, são apenas “material de divulgação preparado pelo próprio contratado“, não uma análise legal.

A auditoria constatou também que não há qualquer evidência de divulgação prévia nos autos nem comprovação da efetiva realização dos espetáculos nos processos de pagamento, entre eles o contratado a toque de caixa depois da visita de Élcita à secretaria de Cultura.

O processo aguarda voto do relator Eduardo Tuma para ser levado a plenário. Procurado, Raveli não comentou, mas deletou as redes sociais de um dos eventos e da ONG utilizada para organizá-los.

Produtor ganha da prefeitura em quatro frentes

Mais ou menos na mesma época em que criou a MotorRockBr, em outubro de 2024, Fabrício lançou a “Associação Consciência Cultural”, que ele apresenta como a solução para um problema crônico da cena rock em São Paulo: há mais bandas do que há público e dinheiro para bancar as apresentações. Muita gente sonha em viver de música, pouca gente consegue.

Por isso, a associação organiza eventos em que bandas associadas à entidade se apresentam com cachê bancado pela Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e estrutura paga pela São Paulo Turismo (SPTuris). Mas há uma condição: para as bandas serem escaladas por ele (e pagas pela SMC), seus componentes devem bater ponto nas reuniões e eventos organizados pela associação, mostrando a “força” do rock paulistano. 

Fabrício Ravelli, organizador de eventos, contrata as próprias bandas com cachê pago pela prefeitura de São Paulo

A coluna teve acesso à mensagem enviada pela associação a uma banda que viria a escolhida supostamente pela SMC para realizar um show bancado com recursos municipais. “Após nossa curadoria, sua banda foi selecionada para se apresentar no evento que será realizado no dia (…), em local a ser definido em breve. A escolha levou em conta a presença em nossas palestras, o que mostrou compromisso com sua banda e com a cena e a identidade sonora que vocês representam.”

As palestras, no caso, são do próprio Fabrício, que ganha quatro vezes. É remunerado pela prefeitura para dar essas “palestras” nas reuniões, recebe apoio milionário da SPTuris para os eventos dele (SP Rock Nation, RockFun Fest e Festival Tennessee) e tem suas bandas recebendo cachê muito mais alto do que as demais para abrir os festivais, que são absolutamente amadores e sequer têm técnicos de som.

Além disso, as bandas, pagas com cachê da prefeitura, assumem com Fabrício o compromisso de contratar exclusivamente profissionais “homologados” pela associação dele. E, de brinde, ele ainda promove suas redes sociais, seus eventos e seus programas de rádio na transmissão e na apresentação dos eventos.

Em busca de oportunidade de fazer uma apresentação com cachê de R$ 6,5 mil, as bandas dão legitimidade e público aos eventos, o que permite a Fabrício e à SMC realizarem mais e mais edições dos festivais, sempre abertos por bandas dele e com público ínfimo.

Exemplo: em março, uma edição do SP Rocknation aconteceu na zona norte, no CCJ Cachoeirinha. A MotorRockBr recebeu R$ 30 mil da prefeitura para fazer o “esquenta” (mesmo valor do cachê de Supla na última Virada Cultural). Subindo ao palco depois, Just Heroes e Atakhama receberam R$ 6,5 mil e R$ 8,5 mil, respectivamente.

A diferença se dá porque há duas formas de uma prefeitura pagar cachê para uma apresentação artística. A primeira, que deveria ser a regra, é pagar um preço tabelado pelo número de integrantes – R$ 6,5 mil para uma banda de quatro a cinco músicos. A segunda, exceção, um valor definido pelo próprio artista, desde que haja demonstração da “consagração artística”.

Das quatro bandas ligadas a Raveli, três nunca foram contratadas por outros entes públicos que não a prefeitura de São Paulo, o que significa que elas não aparecem no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), utilizado pela prefeitura como referência de preço.

Essa bandas nunca lançaram álbum nem foram headliners (atração principal) de qualquer festival. Nas redes sociais, somam menos de 1,5 mil seguidores. Ainda assim, são sempre contratadas pela prefeitura como artistas consagrados. Criada em 2024, a MotorRockBr já nasceu com cachê (de R$ 45 mil) próximo ao da histórica Negritude Júnior (R$ 50 mil).

Agência dá o preço e a prefeitura paga

As três – MotorRockBr, Black Tie e Rockfun Legends – são representadas pela agência Agência J7, que se chamava Agência RVL (de “Raveli”) e estava em nome de Raveli até novembro de 2024, quando ‘foi doada para Matheus Inácio do Nascimento. Como elas não aparecem no portal que baliza os cachês pagos pelo país, cabe às bandas apresentar notas fiscais de três outras apresentações privadas, de onde é calculada uma média.

As bandas apresentam sempre notas de shows em “eventos corporativos” de outras duas empresas também pertencentes a Mateus, uma delas com capital social de R$ 1 mil. A terceira nota é sempre da casa de shows Santo Rock Bar, em valores muito acima do mercado para apresentações de 60 minutos. A RockFun Legends, por exemplo, teria recebido R$ 45 mil para tocar lá.

No mercado, é sabido que o cachê no bar costuma ser na casa de R$ 500 por músico, para até três entradas no palco. O valor é baixo por causa do momento do rock: há enorme oferta de bandas, mas demanda baixíssima por apresentações, ainda mais para grupos que só tocam covers.

A outra banda ligada a Raveli é a Névula, contratada dez vezes pela prefeitura de São Paulo só entre julho e outubro de 2025. Para justificar a cobrança de um cachê de R$ 30 mil, a banda apresenta notas fiscais emitidas para shows particulares para uma consultoria de engenharia, para uma pessoa física e para uma das empresas de Mateus Inácio.

O que dizem os envolvidos:

Em nota, a prefeitura disse que Rodrigo Ravelli, funcionário da SPTuris desde 2005, foi afastado das funções até a conclusão da apuração aberta na Controladoria Geral do Município (CGM) após as primeiras denúncias da coluna a respeito dele.

Ravelli na verdade foi demitido pelo então prefeito Bruno Covas (PSDB) em meio a um inquérito civil aberto pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) para investigar contratos firmados por ele. Em 2022, foi trazido de volta à SPTuris por Ricardo Nunes (MDB).

“A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa ressalta que não há qualquer influência externa na escolha dos artistas contratados, cujas decisões são adotadas pelas áreas técnicas competentes, observados os requisitos legais e administrativos aplicáveis”, disse a pasta, que alegou adotar o PNCP, onde as bandas não aparecem, como referência para a pesquisa de preços de cachês artísticos.

“Os processos administrativos incluem a comprovação da consagração do artista junto à crítica especializada e à opinião pública, por meio de documentação apresentada no sistema “Porta de Entrada”, além da demonstração de compatibilidade dos valores com apresentações anteriores realizadas sem vínculo com o Município”, continuou a prefeitura.

A gestão Ricardo Nunes também disse que “a programação dos eventos é definida com base em critérios artísticos, culturais e de interesse público, considerando a diversidade de linguagens, públicos e territórios atendidos”. A prefeitura não respondeu pedidos de comentários sobre as razões de ter escolhido bandas de Ravelli, com cachês de R$ 30 mil e R$ 45 mil, para apresentações em horário comercial dentro do metrô e em um centro cultural.

Já o TCM disse que auditoria apontou fragilidades na comprovação da notoriedade dos artistas para fins de inexigibilidade, na documentação relativa à divulgação e execução de apresentações e, em um dos casos analisados, na justificativa dos preços.

“Também concluiu não haver elementos para caracterizar fracionamento irregular das contratações. O processo segue em tramitação, observados o contraditório e a ampla defesa. A partir disso, as respostas da Prefeitura serão analisadas novamente pela auditoria, para, posteriormente, o processo ser levado à apreciação do Pleno”, continuou.