Prefeitura de SP bancou R$ 4,4 milhões em eventos de irmão de gestor
Ao menos 11 eventos do produtor Fabrício Raveli foram bancados pela gerência de eventos da SPTuris, de Rodrigo Raveli, irmão dele

A Prefeitura de São Paulo, por meio da gerência de eventos da São Paulo Turismo (SPTuris), bancou ao menos R$ 4,4 milhões em despesas de eventos organizados pelo produtor musical Fabrício Raveli. Ele é irmão do gerente responsável pela área, Rodrigo Raveli.
Como revelado pela coluna no mês passado, a SPTuris banca infraestrutura de eventos sem atender requisitos mínimos de transparência. Eles não aparecem em Diário Oficial, nem demandam apresentação de documentação por parte dos proponentes. Assim, não é possível saber quem solicitou a verba, quem aprovou, ou se houve contrapartida. Também não há documentação sobre como é mensurado o volume aportado pela prefeitura em cada evento.
Por esse modelo de “apoio”, a SPTuris contrata fornecedores costumeiros para que eles forneçam serviços para eventos escolhidos por alguém dentro da prefeitura. Só entre 2024 e 2025, foram pelo menos 11 eventos de Fabrício Raveli beneficiados assim. O irmão dele assumiu como gerente de eventos em fevereiro de 2022.
A lista pode ser maior porque não existe relação de todos os eventos apoiados pela prefeitura, a pouca documentação da SPTuris não nomeia os organizadores, e a SPTuris em diversas ocasiões camufla o nome dos eventos – “Tardezinha”, por exemplo, é chamado só de “TDZ” nos documentos e só é possível ligar uma coisa à outra vendo as fotos.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA coluna identificou, ainda assim, que a SPTuris bancou 11 “eventos” de marcas pertencentes a Raveli: RockFun, Rock Nation e Tennessee Fest só entre 2024 e 2025. Só o “Esquenta RockFun Fest” de 2024 custou R$ 1,7 milhão.
A conta seria maior, mas o “Tennessee Fest 2024” versão “Natal Iluminado”, que ocorreria em dezembro com apoio da prefeitura, foi cancelado por causa das chuvas. Para este ano, já está anunciado o “apoio” da Prefeitura de São Paulo a uma edição do RockFun no dia 12 de julho.
O “Rock Nation SP Galeria Olido (apoio SMC)”, com data de “10 de setembro de 2025 a 23 de setembro de 2025”, por sua vez, custou R$ 76 mil à prefeitura, mas não há nada que demonstre ou explique o que foi o evento. Único responsável pela prestação de contas, Rodrigo Raveli escreve somente que “os serviços foram prestados, porém não há evidência de registro fotográfico“.
Pelo evento, a prefeitura pagou 14 diárias de seis produtores, contratados junto à MM Quarter, empresa pivô de escândalo na SPTuris. Um outro evento com mesmo nome, o “Rock Nation SP Galeria Olido”, em 14 de setembro, custou R$ 21 mil em infraestrutura à prefeitura. Para esse existem fotos, que mostram no telão o nome do programa de rádio “Frequência Rock” e do apresentador dele: “Fabrício Raveli“.
Procurado pela reportagem, Rodrigo Raveli disse que é “coincidência” que os eventos do irmão dele sejam bancados pela prefeitura a partir da área comandada por ele.
“É um dinheiro que veio da prefeitura. Coincidentemente eu trabalho na agência (SPTuris) que faz o evento. A gente é demandado pelos promotores dos eventos, faz um briefing, envia para a Secretaria de Turismo aprovar, e eles aprovam ou não. Todos os eventos são assim. O evento do meu irmão também”, justificou.
Já Fabrício afirmou que não se pode “personalizar” o apoio da gerência do irmão aos eventos dele. “É a instituição SPTuris, é a instituição Secretaria de Cultura, apoiando eventos públicos. A SPTuris, até onde eu sei, executa o que é pedido, São Paulo tem diversos eventos”, afirmou.
Ele reconheceu que é o responsável por apresentar ao menos parte dos pedidos de recursos para os eventos promovidos por ele, mas não soube dizer se esses pedidos foram formalizados ou se acontecem informalmente.
Procurada, a prefeitura se manifestou: “O servidor Rodrigo Raveli trabalha na Prefeitura de São Paulo desde 2005 e quaisquer condutas eventualmente indevidas serão apuradas com rigor pelos órgãos internos de controle da atual gestão. No posto, Raveli gerencia diversos eventos, e as acusações feitas pela reportagem também serão apuradas internamente”.
Em outra reportagem, a coluna contou que Fabrício é ex-sócio da Complexys, empresa investigada pela Polícia Civil por emitir notas frias apresentadas pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) na prestação de contas do contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura para instalação de pontos de wi-fi, verba que a polícia suspeita ter sido desviada para o filme Dark Horse. Depois que ele assumiu a gerência da SPTuris, a área dele fechou mais de R$ 9 milhões em contratos com empresas de um ex-sócio dele na Complexys. Fabrício é o fiscal de todos os contratos.




