Funcionários descobrem mudança do Lutz pelo Instagram e cobram diálogo

Pesquisadores do Lutz afirmam não terem sido informados sobre possível demolição de prédios e realocação de laboratórios do instituto

atualizado

metropoles.com

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Divulgação/APqC
Fechada do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo
1 de 1 Fechada do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo - Foto: Divulgação/APqC

Pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz, laboratório ligado à Secretaria Estadual da Saúde (SES), afirmam que ficaram sabendo de uma possível mudança de local do órgão por meio de uma postagem nas redes sociais.

Isso porque o projeto do primeiro Hospital Inteligente do SUS, a ser instalado no complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, prevê que o novo prédio seja construído exatamente onde estão seis prédios que abrigam laboratórios do Lutz. Três deles devem ser demolidos.

Referência na área de vigilância epidemiológica e sanitária, atualmente o Lutz realiza cerca de 600 tipos diferentes de exames.

O Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI) — nome oficial do Hospital Inteligente —  é uma iniciativa do governo federal, viabilizado por meio de um empréstimo de cerca de R$ 2 bilhões junto ao Banco dos Brics, presidido desde 2023 pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

O projeto é tocado em parceria com a USP e o Governo de São Paulo, que é o responsável por ceder o terreno. A estimativa é que as atividades comecem em 2029, mas o cronograma divulgado pelo Ministério da Saúde aponta que as demolições podem ocorrer a partir de julho deste ano.

De acordo com o governo federal, o projeto arquitetônico prevê um edifício de 150 mil m², “com padrões internacionais de sustentabilidade e segurança, soluções de logística avançada e ambientes humanizados para pacientes e equipes”.

Funcionários do Lutz afirmam que ficaram sabendo da possível demolição de parte das instalações do instituto para a instalação do Hospital Inteligente após a médica Ludhmila Hajjar, professora da Faculdade de Medicina da USP e coordenadora do projeto, postar nas redes sociais uma projeção de como deve ficar o prédio do novo hospital. Na imagem, publicada em março, o moderno edifício aparece justamente em cima do Adolfo Lutz.

Pesquisadores cobram resposta

“Estivemos em reunião com a diretoria do Adolfo Lutz, que quando nos recebeu disse que não tinha nenhuma informação oficial, mas já estava se preparando de alguma forma (…) É uma situação bem grave de falta de diálogo no estado de São Paulo”, disse Helena Lutgens, presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC).

De acordo com a entidade, o investimento extra estimado para garantir o funcionamento dos laboratórios do Lutz em outro local seria de ao menos R$ 170 milhões. Ainda segundo a associação, o valor para a mudança não inclui os investimentos públicos feitos nos laboratórios nos últimos anos.

Um dos três prédios que seriam demolidos abriga o setor de virologia do Adolfo Lutz e conta com quatro andares. A associação afirma que, nas últimas duas décadas, mais de R$ 100 milhões foram investidos neste espaço para assegurar o funcionamento e a qualidade das pesquisas. “A associação reforça que a comunidade científica não foi consultada sobre a demolição dos prédios”, disse a APqC.

“O custo para se mudar o Lutz de lugar seria muito alto. Já tem todo o recurso que foi investido ali. Esses laboratórios de segurança, por exemplo, segundo a própria diretora do Lutz, não podem ser transferidos pelo próprio protocolo. Num laboratório de segurança, não pode pegar a estrutura que você colocou num lugar e transferir para um outro. Eles seriam demolidos e tem que fazer laboratórios novos”, diz Helena.

Ao Metrópoles, Ludhmila Hajjar afirmou que os pesquisadores do Adolfo Lutz irão para um lugar “muito melhor”, mas que não tem informações sobre o novo local que abrigará o instituto. Segundo a médica, a Secretaria da Saúde conversou com os profissionais e informou que um novo prédio será construído para o Lutz.

“Hoje, eles estão disseminados ali em três ou quatro prédios da Secretaria da Saúde. Laboratório aqui, laboratório acolá. Está organizado com o Secretário da Saúde e com o governador. Vão fazer um prédio dedicado para eles. Nós só vamos derrubar com tudo organizado. Isso é ponto pacífico. Eu sou uma cientista. Eu jamais deixaria isso acontecer”, afirmou Ludmilla.

A médica ainda disse que os pesquisadores serão levados para “algo definitivo”. “Hoje eles estão ali temporários. Tem laboratórios espalhados em quatro locais. Eles vão para um lugar novo, adequado, de acordo com as orientações deles. Estão, inclusive, participando das reuniões”, disse a professora da Faculdade de Medicina.

Sobre a postagem no Instagram que gerou reação dos pesquisadores, Ludhmila Hajjar argumentou que ela ocorreu ainda em março e que os profissionais foram chamados para conversar posteriormente.

“Estão cientes de tudo. Vão participar de todas as decisões. O lugar está sendo discutido. Mas isso não compete a mim. É decisão da Secretaria da Saúde. O que eu te asseguro é que eles só vão sair pra um local muito melhor”, completou.

Representados pela APqC, os pesquisadores, no entanto, insistem que não foram comunicados e que não estão participando das conversas sobre a mudança de local do Lutz, além de não terem sido a apresentados a nenhum projeto. Além disso, reforça que há uma lógica para o instituto estar naquele local.

“A proximidade com a Vigilância Epidemiológica permite que a pesquisa científica esteja integrada às ações de monitoramento e resposta em saúde pública, aproximando a produção de conhecimento da atuação do serviço epidemiológico”, afirmou Helena.

Já a Secretaria da Saúde de São Paulo afirmou que as atividades do Instituto Adolfo Lutz “serão mantidas normalmente, sem prejuízo a serviços essenciais e de pesquisa”. “A pasta e as diretorias do HC-FMUSP e dos órgãos envolvidos, entre eles o Adolfo Lutz, se reúnem periodicamente para definição conjunta do cronograma de etapas para a criação do Instituto Tecnológico de Emergência”, disse a secretaria.

A reportagem pediu uma entrevista com algum porta-voz da pasta para explicar qual deve ser o destino do Adolfo Lutz, mas o posicionamento se limitou à nota.

Impasse

No início do mês, a deputada estadual Beth Sahão (PT), que acompanha o tema e tem feito a intermediação entre os pesquisadores, o Lutz e governo federal, realizou uma audiência pública para debater o impasse. Na ocasião, uma funcionária do Lutz fez uma apresentação apontando quais prédios do instituto podem ser atingidos pela construção do Hospital Inteligente.

“Não sei quem está tendo reuniões, pode ser que estejam acontecendo. Mas todos os funcionários não sabem o que está acontecendo. E se for logo, a gente tem que correr atrás. Não é ser contra o hospital, mas precisamos nos apropriar das informações para saber se vamos ou não sair dali”, disse na audiência Gisele Lopes, assistente técnica de pesquisa científica e tecnológica do Lutz.

Segundo Beth Sahão, a ideia de colocar o Hospital Inteligente dentro do complexo do HC se dá pelo fato de o local já abrigar outros institutos importantes, como Instituto Central, o de Ortopedia e Traumatologia e o Instituto do Coração. A sede da Secretaria Estadual da Saúde também fica no local.

“Acontece que no meio desse complexo tem o Instituto Adolf Lutz, com os seus diferentes prédios. Se fosse só o prédio da Secretaria de Saúde, que é um prédio que uma parte abriga a secretaria e outra parte abriga o próprio Adolf Lutz. Mas me parece, segundo as informações, é que ele é insuficiente para abrigar o tamanho desse hospital. Então, teria que ser usado outros espaços”, disse a deputada.

“A questão é que é preciso sentar também com a diretoria do Instituto Adolfo Lutz, os representantes dos técnicos, dos pesquisadores, dos servidores, para ouvi-los. Até agora, eles estão no escuro. Não sabem o que vai acontecer com eles e precisam também ser ouvidos. Essa questão é que a gente está tentando também mediar, para encontrar alternativas”, completou a petista.


Hospital Inteligente

  • De acordo com o governo federal, o ITMI será o primeiro hospital inteligente do país, integrando tecnologias como inteligência artificial, internet das coisas, big data, telessaúde e sistematização de processos.
  • A expectativa, segundo os idealizadores, é que se torne um centro de excelência em saúde digital, combinando as ferramentas com ambulâncias conectadas em 5G, automação hospitalar, integração com prontuários eletrônicos e sistemas preditivos de gestão assistencial.
  • O ITMI terá 800 leitos dedicados à emergência de adultos e crianças nas áreas de neurologia, neurocirurgia, cardiologia, terapia intensiva e outras urgências.
  • No final do ano passado, o Senado autorizou a contratação de empréstimo junto ao Banco dos Brics, de cerca de US$ 320 milhões para custear a construção do novo hospital.

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