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São Paulo

Ex-número 3 da Fazenda queria abrir sauna para justificar dinheiro vivo

André Weiss foi alvo de operação do Ministério Público de São Paulo contra esquema de propina em troca de créditos de ICMS

03/09/2026 09:07, atualizado 18/09/2026 13:15
Imagem gerada por inteligência artificial
Fotomontagem colorida mostra saunda com maços de dinheiro. Metrópoles

Preso nesta quinta-feira (3/9) durante operação contra um suposto esquema de propinas em troca de créditos de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), André Weiss sugeriu comprar uma sauna para lavar dinheiro, afirmou o Ministério Público de São Paulo (MPSP). Weiss, que foi número três da Secretaria da Fazenda de São Paulo (Sefaz-SP), é apontado pela investigação como líder do núcleo público do esquema.

A ação desta quinta-feira é um desdobramento da Operação Ícaro, deflagrada em 2025, que resultou na prisão preventiva de executivos de grandes empresas, como a Ultrafarma e a Fastshop, e desarticulou um esquema de fraude tributária arquitetado pelo ex-auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto.

Na Operação Ícaro, as autoridades apreenderam o celular do ex-auditor e encontraram uma gravação, em áudio, de uma reunião dele com outros auditores, além de Weiss, em julho de 2023. Um dos objetivos da conversa seria discutir a centralização dos processos de ressarcimento de três grandes contribuintes.

Weiss afirma ter pensado em pegar dinheiro e comprar uma sauna em São Paulo para fazer reuniões, mas também porque seria bom para lavagem de capitais. Aos presentes, ele afirmou que quase todas as pessoas pagam em dinheiro e que ninguém usa cartão para pagar saunas, o que é descrito pelo MPSP como um clássico negócio de fachada.

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Em outro momento, o MPSP descreve que Weiss revelou consciência das fraudes ao afirmar que não poderia ostentar carros de luxo, porque o fato acabaria noticiado pelos jornais e ele poderia ser preso. A conversa gravada revela, segundo o MPSP, que a prática de corrupção e o recebimento de propina eram tratados com extrema naturalidade no âmbito da Secretaria da Fazenda, sendo inclusive motivo de piadas e risadas entre os fiscais presentes.


Entenda o esquema

  • As empresas que pagavam propina para os fiscais envolvidos na fraude eram privilegiadas na fila do ressarcimento de ICMS – processo que pode durar anos.
  • Os investigadores também constataram que, por vezes, o crédito de ICMS era inflacionado pelos auditores corruptos.
  • Como esses créditos podem ser revendidos no mercado, na prática, o pagamento de propina dava dinheiro aos empresários que participavam do esquema.
  • A Smart Tax, empresa de contabilidade registrada no nome da mãe de Artur Gomes da Silva Neto, emitiu mais de R$ 1 bilhão em notas fiscais, que seriam usadas para dar legitimidade ao valor obtido por propina.
  • A Fast Shop, que segundo o MPSP recebeu R$ 936,4 milhões em vantagens no esquema, terá de pagar multa de R$ 1,04 bilhão – a maior multa já aplicada na história com base na Lei Anticorrupção.

Desde novembro de 2023, primeiro ano do mandato de Tarcísio de Freitas (Republicanos), Weiss ocupou o terceiro cargo mais poderoso da Secretaria da Fazenda paulista. Ele deixou o posto em maio de 2026. A organização criminosa contava com a ajuda de Weiss. O esquema mantinha delegados tributários que faziam favores às empresas mediante suborno.

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Quando o caso ganhou destaque, após a prisão do empresário Sidney Oliveira, dono da Ultrafarma, Weiss foi o responsável por escalar oito auditores fiscais para formar grupo de trabalho de combate à fraude.

Quanto custa uma delegacia tributária

Weiss recebeu, de acordo com a investigação do Grupo de Atuação Especial de Repressão aos Delitos Econômicos (Gedec) do MPSP, R$ 4,5 milhões do auditor fiscal Paulo Sérgio Siqueira Prado, conhecido como PP.

A propina começou a ser paga em abril de 2023, quando Weiss assumiu o comando da Diretoria de Fiscalização (DIFIS), cargo que ocupou até ser promovido à chefe da Deat. Em troca, o diretor devia manter Paulo Prado como chefe da Delegacia Tributária do Butantã, onde o esquema funcionava.


Quem são os alvos da operação

  • João André Buttini de Moraes
  • Buttini de Moraes Sociedade de Advogados
  • BM Tax / Buttini de Moraes Consultoria Ltda.
  • BM Investimentos e Participações Ltda.
  • BM Gestão Patrimonial Ltda.
  • Flávia Buttini de Moraes
  • Juri Consultoria Empresarial Ltda.
  • Marilda Peres de Moraes
  • Patricia Peres de Moraes
  • Amanda Nadal Gazzaniga
  • Ricardo Adati*
  • Adilson Moreira Gomes e A.M. Gomes Sociedade Individual de Advocacia
  • Vidal & Mendes (Sociedade de Advogados e Assessoria Empresarial)
  • Fábio Guardia Mendes e Fabiano Cunha Vidal e Silva
  • André Weiss
  • Beatriz Helena Sbrissa Lucafó (companheira de André Weiss)
  • Nilo Fernando Sbrissa Lucafo
  • Heva Gestão e Participações Ltda. e Biscayne Administração e Participações
  • Celso Luiz Profeta da Cruz – diretor financeiro da BM Tax
  • Kelly Tatiana Lima Carvalho
  • Mauro Luís Almeida dos Anjos
  • Márcio Miranda Maia e Vitor Manuel dos Santos Alves Junior
  • Lisandra Cristina Greco Marquezi
  • Aldo Misael Pires Gomes
  • Carmine Lourenço Del Gaiso Gianfrancesco
  • José Gianfrancesco Netto
  • Carlos Eduardo de Oliveira Pereira
  • João Carlos de Oliveira
  • Bruno Alves de Oliveira
  • Herman Brian Elias Moura
  • Fernando Santiago Miguel Gonzalez
  • Anderson Aparecido Carratu

* Em 18 de setembro, o MPSP informou que Ricardo Adati não é investigado (leia mais a seguir).


Segundo o MPSP, a propina foi paga em parcelas de R$ 250 mil até chegar a R$ 4,5 milhões. O dinheiro tinha origem no escritório do advogado João André Buttini de Moraes. Os clientes do Buttini de Moraes Sociedade de Advogados e da consultoria BM Tax pagavam honorários milionários em troca de vantagens tributárias.

Paulo Prado fez, recentemente, acordo de colaboração premiada, em que confirmou o repasse de dinheiro guardado em mochilas entregues a Weiss em restaurantes e cafés da zona oeste de São Paulo.

O que dizem os citados

Em nota, a defesa do advogado João André Buttini de Moraes informou que “está tomando conhecimento dos elementos da investigação e das circunstâncias que levaram à operação da data de hoje. Em total transparência e colaboração com a investigação, informa que tão logo tenha acesso integral aos autos do caso, prestará todos os esclarecimentos necessários às autoridades competentes.”

Ricardo Adati informou que foi envolvido na operação porque “um dos investigados adquiriu um veículo de minha propriedade que havia sido deixado em consignação em uma concessionária representante oficial da marca”. Ele apreciou um pedido de exclusão do rol de investigados, o que foi aceito pela Justiça.

“A aproximação entre o requerente e o J.A.B.M. ocorreu de maneira estritamente acidental, em ambiente de mercado de automóveis de luxo, inexistindo qualquer ajuste doloso ou envolvimento com esquemas de corrupção tributária ou lavagem de capitais. Como pontuou com clareza o órgão acusatório, quem pretende dissimular fornecimento de numerário ilícito não utiliza os serviços de concessionária oficial nem suporta o pagamento efetivo de comissão de corretagem formalmente tributada. Assim, evidenciada a atipicidade fática e a licitude do negócio patrimonial, não subsiste justa causa para a persecução criminal em relação ao requerente. Assim, havendo expressa concordância do Ministério Público, impõe-se determinar a exclusão imediata do peticionário do rol de investigados”, diz a decisão. O MPSP confirmou que Adati não é investigado.

A Secretaria da Fazenda e Planejamento do estado de São Paulo afirmou que, desde agosto de 2025, quando foi deflagrada a Operação Ícaro, atua em conjunto com o MPSP na apuração dos fatos. “Qualquer novo fato decorrente dos desdobramentos da operação, inclusive de eventuais acordos de delação ou denúncias, será rigorosamente apurado e, comprovadas irregularidades, serão adotadas as medidas cabíveis”, diz o texto.

A Sefaz ressaltou, ainda, que empresas envolvidas estão sendo responsabilizadas, com autuações específicas que já resultaram na constituição de mais de R$ 3 bilhões em créditos tributários, multas e juros.

O Metrópoles busca contato com os demais citados como envolvidos no esquema. O espaço está aberto para atualizações.