Diarista diz que Deolane ordenou busca em sua casa: "Devolve". Ouça
Influenciadora, presa por suposta ligação com a cúpula do PCC, teria ameaçado trabalhadora à qual atribuiu o furto de R$ 80 mil

A diarista Denise Rosane Bastos afirmou à Justiça que a influenciadora Deolane Bezerra Santos ordenou que seguranças fossem até sua casa para procurar R$ 80 mil que teriam desaparecido do apartamento de Kayky Bezerra Teixeira, de 19 anos, filho de Deolane.
Além da suposta “revista” no imóvel, no carro e no celular da trabalhadora, Denise entregou à Polícia Civil áudios atribuídos a Deolane (ouça abaixo). Em uma das gravações, a influenciadora cobra a devolução do dinheiro.
“Devolve o dinheiro do meu filho e segue sua vida, entendeu? Vai lá onde você guardou, pega e traz na minha casa. Senão, você me aguarde”.
A inluenciadora está atrás das grades desde 21 de maio passado, quando foi presa em um condomínio de luxo em Alphaville, região metropolitana de São Paulo. Ela é acusada de receber valores de uma transportadora criada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) e, também, de atuar na lavagem de dinheiro do grupo criminoso.
Ela, o chefe do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e mais cinco suspeitos foram indiciados pela Polícia Civil pelos crimes de integrar organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Cobrança por áudio
O caso envolvendo a diarista foi parar na Justiça após Denise apresentar uma queixa-crime contra Deolane, acusando a influenciadora de ameaça e calúnia. Segundo a trabalhadora, ela prestava serviços de faxina para Deolane desde 2021 e, posteriormente, também passou a trabalhar nos apartamentos dos filhos dela, no Tatuapé, zona leste paulistana.
Na versão levada ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), Denise fez uma faxina no apartamento de Kayky, em 24 de novembro do ano passado, e deixou o imóvel por volta das 13h30. No dia seguinte, às 17h, recebeu uma ligação do filho de Deolane, que perguntou sobre uma quantia em dinheiro que estaria no quarto.
A diarista negou a subtração de qualquer valor. Ainda assim, segundo a queixa, Deolane entrou na conversa e passou a cobrá-la diretamente. As primeiras falas atribuídas à influenciadora, no documento, teriam sido:
“Cadê o dinheiro do meu filho?” e “Devolve o dinheiro do meu filho, sua vagabunda”.
Em outro áudio entregue pela diarista à Justiça, Deolane teria dito:
“Meu amor, quem rouba não fala [que roubou] não, já vi cada coisa em minha vida. Porque na hora em que os meninos [seguranças] estavam lá com ela [diarista], ela não falou? [sobre o suposto crime].”
Seguranças na casa
Ainda segundo a queixa-crime, por volta das 19h do mesmo dia, dois seguranças da família Bezerra foram até o apartamento de Denise, em São Paulo.
A diarista afirma que os homens revistaram o imóvel, o carro e o celular dela. No documento apresentado à Justiça, a defesa de Denise sustenta que a permissão para a entrada e a busca só ocorreu porque a trabalhadora estava “sob pressão psicológica” e com medo pela própria segurança.
Depois do episódio, Denise foi para Ribeirão Preto, interior paulista. A partir daí, segundo o relato, passou a receber mensagens de áudio de um número desconhecido.
“Não era do playboy”
Nas mensagens, de acordo com a queixa-crime, interlocutores não identificados diziam que Denise havia furtado dinheiro do apartamento de Kayky. Os mesmos áudios, segundo o documento, afirmavam que a quantia “não era do playboy” e que Deolane e o filho “lavavam dinheiro para eles”.
A diarista disse à polícia que um dos interlocutores afirmou ter ido até a porta da casa dela e mencionou informações sobre sua rotina, o marido e um sobrinho. Denise afirmou que passou a temer por sua vida e pela segurança da família.
Ela entregou à polícia um pen drive com gravações dos áudios, de visualização única, atribuídos a Deolane e das mensagens enviadas pelo desconhecido. Também apresentou uma gravação feita no apartamento de Kayky, na qual, segundo a queixa, seria possível ver grande quantidade de dinheiro em espécie.
Caso citado pelo MPSP
O episódio envolvendo Denise também foi citado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) em denúncia oferecida contra Deolane, Marcola, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, o Marcolinha, Everton de Sousa, Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Paloma Sanches Herbas Camacho.
Na denúncia, a Promotoria acusa o grupo de integrar organização criminosa voltada à lavagem de dinheiro ligada ao PCC. Deolane é apontada pelos promotores como integrante do núcleo financeiro do esquema, o que ela nega.
Ao mencionar o caso da diarista, o MPSP afirma que Denise prestava serviços de faxina para Deolane e seus filhos e foi acusada de subtrair R$ 80 mil em espécie do apartamento de Kayky. O órgão também cita que ela entregou à polícia áudios nos quais criminosos afirmavam que o dinheiro pertencia a eles e que Deolane e o filho lavavam dinheiro para o grupo.
Para o MPSP, as supostas ameaças atribuídas a Deolane e a ida de seguranças à casa da diarista reforçariam a tese de que a organização criminosa atuaria com violência contra a prestadora de serviço.
Disputa judicial
A queixa-crime apresentada por Denise inicialmente apontava crimes de ameaça e calúnia. O processo foi distribuído em Ribeirão Preto, mas a Justiça determinou a remessa do caso para a capital paulista por entender que os fatos teriam ocorrido em São Paulo.
Depois, a 20ª Vara Criminal da Barra Funda rejeitou parcialmente a queixa em relação ao crime de ameaça, por entender que esse tipo de acusação deve ser conduzido pelo MPSP.
A própria decisão, no entanto, registrou que Denise fez boletim de ocorrência e que deveria haver investigação policial para apurar os fatos, permitindo que a Promotoria avalie a possibilidade de uma eventual denúncia. Já a parte referente à calúnia ficou para análise do Juizado Especial Criminal, por se tratar de crime de menor potencial ofensivo.
A defesa de Deolane não foi localizada pelo Metrópoles nos documentos analisados se manifestando especificamente sobre a acusação feita pela diarista. O espaço segue aberto.

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