Deolane: cobrança de “dinheiro do crime” a diarista é usada como prova
Polícia inclui investigação sobre ameaças que Deolane teria feito a ex-empregada em inquérito que prendeu e indiciou influenciadora
atualizado
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No relatório final que indiciou Deolane Bezerra por organização criminosa e lavagem de dinheiro, a Polícia Civil incluiu o material da investigação sobre ameaças que a influenciadora teria feito a uma ex-empregada, acusada de ter furtado uma quantia de R$ 80 mil. Segundo os investigadores, o conteúdo é mais uma prova de que a família de Deolane movimentava dinheiro proveniente de atividades criminosas.
O documento mostra conversas de Denise Bastos, que trabalhou como diarista para Deolane por cerca de quatro anos, com a influenciadora e um homem que afirma ser integrante do crime organizado. A mulher acusada nega que tenha pegado o dinheiro. Denise alegou que seguranças da influencer revistaram sua casa e seu carro em busca do dinheiro.
Áudios transcritos citam que os valores em espécie que estavam na casa de Deolane eram “oriundos do crime”. “Se você meter o louco em nóis, vai ser pouca ideia (..) Nóis lava dinheiro nos parceiros lá. A mãe do parceiro, o parceiro fecha com nóis. As imagens está aí. Eu estou te mandando só pra você ver que nóis fez a puxada da sua vida todinha. Você não vai fazer nóis bater de novo na porta da sua casa, né?”, diz o homem em áudio enviado para a ex-funcionária.
De acordo com a polícia, o “parceiro” mencionado no áudio é Kayke Bezerra, filho de Deolane, que, por sua vez, é referida como a “mãe do parceiro”. O relatório também traz áudios atribuídos a Deolane.
“A Denise me conhece, de trouxa eu não tenho nem a cara. Ela me conhece. A Denise já tem passagem por roubo. Eu já sei quem é a Denise. Ela já roubou brinquedo na casa dos meus filhos pra levar pros filhos dela. Ela já fez nota de mercado de seis mil reais quando no mínimo não dava nem dois. Então, ela me aguarde. Eu falei pra ela: ‘Devolve, segue a sua vida. Não queira confusão comigo’”, disse Deolane, segundo a polícia.
Para o delegado Edmar Caparroz, os áudios corroboram a tese de lavagem de dinheiro investigada no inquérito. “O próprio interlocutor, ao exigir a restituição dos valores, admite a origem ilícita do numerário, vincula-o a integrantes do núcleo familiar de Deolane e descreve, ainda que em linguagem coloquial, uma relação operacional voltada à circulação e ocultação de dinheiro criminoso”, escreveu o delegado.
Deolane e PCC
A Polícia Civil indiciou a influenciadora Deolane Bezerra, o chefe do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e mais cinco suspeitos pelos crimes de integrar organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Deolane foi presa no dia 21 de maio, em um condomínio de luxo em Alphaville, na região metropolitana de São Paulo. Ela é acusada de receber valores de uma transportadora criada pela facção criminosa e atuar na lavagem de dinheiro do grupo.
A polícia chegou a Deolane por meio de Everton de Souza, conhecido pelos codinomes “Player” ou “Temer”. Ele é identificado nas investigações como um intermediador e operador financeiro da alta cúpula do PCC, que atuaria na gestão de bens e na destinação de fluxos financeiros para a cúpula da facção, especificamente para Marcola e Alejandro.
Everton atuava como gestor indireto da Lopes Lemos Transportadora, empresa de fachada criada a pedido de Marcola e Alejandro, da qual recebeu R$ 28,7 mil em transferências bancárias. Ele orientava o sócio-administrador da companhia a realizar depósitos em contas de Deolane. Tais pagamentos faziam parte do acerto mensal ou “balancete” da facção, e não tinham origem justificada, apontou a investigação.
No celular do sócio-administrador, em uma operação de 2021, a polícia encontrou comprovantes de transferências bancárias diretamente para Deolane. Os valores, enviados entre agosto e outubro de 2020, totalizam R$ 24,5 mil. A defesa da influenciadora afirma que o montante foi pago pela prestação de serviços advocatícios.
Nas contas dela, os investigadores identificaram, ainda, a entrada de mais de R$ 1 milhão, em depósitos em espécie, entre 2018 e 2021, sem origem identificada. A defesa atesta que o valor também se refere ao trabalho como advogada.
Deolane também aparece como representante legal de Everton em registros policiais e como testemunha em ocorrências nas quais ele figura como vítima. A relação dos dois se mostrou ainda mais sólida com a declaração de Everton em interrogatório de que alugava um apartamento da advogada no bairro Tatuapé, na zona leste de São Paulo, por R$ 5 mil mensais.
Quem são os indiciados
- Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, irmão de Marcola: também detido no sistema federal, exercia controle direto sobre a transportadora e definia percentuais e destinação dos recursos por meio de sua filha. Conforme o relatório, Alejandro exercia liderança central no esquema, mesmo após o encarceramento.
- Deolane Bezerra dos Santos: teria recebido repasses do esquema, atuava na lavagem de dinheiro do PCC e a polícia suspeita de que a influenciadora tenha arquitetado o plano de reformulação após a prisão de outros influenciadores também acusados de atuar em benefício da facção.
- Everton de Souza (Player do PCC): identificado como um intermediador e operador financeiro do PCC, que atuaria na gestão de bens e na destinação de fluxos financeiros para a cúpula da facção, especificamente para Marcola e Alejandro.
- Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho de Marcola: filho de Alejandro, era beneficiário direto da lavagem de dinheiro. A quebra de sigilo revelou movimentação de cerca de R$ 746 mil em créditos efetivos, dos quais boa parte era proveniente de depósitos em espécie não identificados. Leonardo aparece em conversas como destinatário de repasses determinados pelo pai.
- Marcos Willians Herbas Camacho (Marcola): preso em uma penitenciária federal, é apontado como líder máximo do PCC e controlador da transportadora envolvida no esquema de lavagem de dinheiro.
- Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola: filha de Alejandro, atuava como mensageira e gestora indireta da parte do patrimônio correspondente ao pai. Intermediava ordens da cúpula do PCC para os operadores do esquema com a transportadora, indicando contas bancárias, divisões percentuais e valores a serem pagos.
- Eduardo Affonso Rodrigues: apontado como o contador do esquema, responsável por constituir e manter empresas de fachada para Deolane e Everton.














