“Caixa” do crime organizado: saiba por que PCC tentou blindar Deolane
Polícia Civil de São Paulo diz que operadores do PCC fragmentavam referências a Deolane para ocultá-la em “balancetes” da facção criminosa
atualizado
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Integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) demonstraram preocupação em preservar a identidade da advogada e influenciadora Deolane Bezerra Santos dentro do esquema de lavagem de dinheiro atribuído à facção, segundo relatório final da Polícia Civil de São Paulo.
Ela foi presa na quinta-feira (21/5), em sua mansão na Grande São Paulo, durante ação conjunta da Polícia Civil com o Ministério Público paulista (MPSP).
De acordo com os investigadores, Everton de Souza — apontado como operador financeiro da organização criminosa — repassava ordens recebidas de integrantes da cúpula do Primeiro Comando da Capital e evitava mencionar diretamente o nome da influenciadora em movimentações financeiras ligadas ao grupo.
“[Ele] externava claramente a preocupação em não identificar Deolane, obviamente por esta ser uma das principais engrenagens na complexa estrutura de lavagem de capitais ora desnudada”, afirma trecho do relatório policial.
Nessa sexta-feira (22/5), Deolane foi transferida da Penitenciária Feminina de Sant’Ana, na zona norte paulistana, para a Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, no interior.
O deslocamento ocorreu porque a investigação que culminou na prisão preventiva da influenciadora foi conduzida na região de Presidente Venceslau, no oeste do estado.
“Balancetes” e contas fragmentadas
A Polícia Civil afirma que Everton de Souza enviava números de contas bancárias usadas em “acertos” e “balancetes” mensais da facção. Em uma dessas movimentações, segundo o relatório, apareceria uma conta ligada a Deolane.
“Essa conta informada, ainda que fragmentada com relação ao nome do titular, nos trouxe até a investigada Deolane Bezerra Santos após confirmação do envio do comprovante de depósito”, aponta o documento.
Os investigadores sustentam que a fragmentação do nome da influenciadora fazia parte da estratégia para dificultar a identificação dela dentro das movimentações do PCC.
Segundo o relatório, duas contas atribuídas a Deolane receberam valores oriundos da facção criminosa.
Papel estratégico na engrenagem
A investigação aponta que Deolane exercia função relevante na estrutura financeira usada para ocultar recursos da organização criminosa.
“Deolane […] movimenta milhões de reais em nome da facção, sob o manto de sua atuação pública”, diz o relatório policial.
A decisão judicial que autorizou a prisão preventiva da influenciadora reforça essa linha investigativa ao afirmar que ela foi identificada como beneficiária de valores recebidos em contexto de “acerto” e “fechamento” financeiro da facção, “e não como remuneração lícita por serviços advocatícios”.
Segundo a Polícia Civil, empresas ligadas à influenciadora apresentavam características típicas de estruturas de lavagem de dinheiro, com movimentações incompatíveis com o faturamento declarado, além de depósitos milionários sem origem identificada.
Veja o que Deonale disse em audiência
Mais de R$ 40 milhões movimentados
O relatório aponta que Deolane movimentou mais de R$ 40 milhões como pessoa física. Parte dos créditos e débitos, segundo os investigadores, não teve origem ou destinatário identificados.
“Isso não é apenas prova irrefutável de ato de branqueamento de valores, mas também de que a movimentação ilícita por suas contas é tamanha gerando certo descontrole nos cálculos e posteriores lançamentos”, diz a Polícia Civil.
Entre os bens citados pela investigação está uma Ferrari SF90 avaliada em mais de R$ 4,7 milhões, além de outros veículos de luxo registrados em nome de empresas ligadas à influenciadora.
Investigação nasceu em transportadora do PCC
O caso começou a ser desdobrado a partir da investigação sobre a transportadora Lopes Lemos, apontada como empresa usada pelo PCC para lavagem de capitais e movimentação patrimonial da facção.
As apurações indicam que integrantes da família de Marcola utilizavam operadores financeiros e empresas de fachada para ocultar patrimônio e distribuir recursos da organização criminosa.
Segundo o MPSP e a Polícia Civil, Deolane, Everton de Souza, integrantes da família Herbas Camacho e outros investigados integrariam esse núcleo financeiro ligado à facção, entre eles Marcola — principal liderança do PCC.
Defesa nega ligação com facção
A defesa de Deolane nega qualquer vínculo da influenciadora com o PCC ou com lavagem de dinheiro.
Familiares dela afirmam que a investigação tenta transformar “suposições em condenações” e sustentam que os valores movimentados têm origem lícita.
Em audiência de custódia (assista acima) Deolane alegou que foi presa por conta de seu trabalho como advogada, para o qual teria recebido R$ 24 mil referentes a um processo “antigo”. “Fui presa por estar advogando”, afirmou.











