Como Al Capone: polícia usou fraude fiscal para prender Deolane
Operação da Polícia Civil e Minsitério Público de São Paulo mirou influenciadora e familiares de Marcola por lavagem de dinheiro do PCC
atualizado
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A influenciadora e advogada Deolane Bezerra, presa nessa quinta-feira (21/05), suspeita de ser peça-chave em esquema de lavagem de dinheiro da cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC), foi desmascarada pela polícia por causa de sua declaração do Imposto de Renda.
Segundo a investigação, a incompatibilidade foi identificada após cruzamentos feitos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), relatórios do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) da Polícia Civil e quebras de sigilo bancário e fiscal autorizadas pela Justiça.
Fraude à moda Al Capone
Assim como ocorreu com o mafioso norte-americano Al Capone, autoridades chegaram ao nome de Deolane após identificarem um padrão de vida e movimentações financeiras incompatíveis com os rendimentos oficialmente declarados. Nos Estados Unidos, o chefe da máfia de Chicago acabou condenado por evasão fiscal, após investigadores demonstrarem que sua fortuna não encontrava lastro nas declarações feitas ao governo americano.
A Receita Federal brasileira, em consonância com a visão estadunidense, vê renda incompatível com patrimônio como um dos principais indícios de fraude fiscal.
No caso da influenciadora, a investigação paulista aponta uma lógica semelhante a qual resulta do cruzamento entre movimentações bancárias, patrimônio ostensivo, empresas consideradas suspeitas e dados fiscais — com indícios de lavagem de dinheiro ligada à cúpula do PCC, de acordo com a Polícia Civil.
A diferença central, segundo investigadores, é que a apuração paulista não mira apenas eventual sonegação, mas um suposto esquema de ocultação patrimonial em benefício da facção criminosa.
Além de Deolane, também foram alvos de mandados de prisão: Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, o Marcolinha; Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola; Paloma Sanches Herbas Camacho; Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho e Everton de Souza. A operação foi deflagrada pela Polícia Civil com apoio do Ministério Público de São Paulo (MPSP).
A defesa deles não foi localizada. O espaço segue aberto para manifestações.
Luxo, dinheiro e incompatibilidade fiscal
Relatórios do Coaf, afastamentos de sigilo bancário e análises fiscais apontaram que Deolane movimentava valores incompatíveis com os rendimentos oficialmente declarados à Receita Federal. Segundo a investigação, a influenciadora movimentou mais de R$ 40 milhões, sendo que metade dos créditos sequer teve origem identificada pelos investigadores.
O relatório também afirma que Deolane declarou cerca de R$ 5,5 milhões a mais do que o efetivamente movimentado em suas contas, o que, para a Polícia Civil, evidenciaria inconsistências fiscais e patrimoniais relevantes.
Os investigadores afirmam que ela teria recebido recursos oriundos da transportadora Lopes Lemos Transportes Ltda. — apontada como empresa usada para lavar dinheiro do PCC — em contexto de “acerto” e “fechamento” financeiro, sem comprovação de prestação de serviços advocatícios ou qualquer contraprestação lícita identificada.
“Núcleo financeiro”
A polícia sustenta que a influenciadora integrava um “núcleo financeiro” da organização, utilizando empresas registradas em nomes distintos para movimentação de recursos e ocultação patrimonial. Entre elas, aparecem a Bezerra Publicidade e Comunicação Ltda., Bezerra Produções Artísticas Ltda., Deolane Bezerra Holding Participações Ltda. e DB Santos Apoio Administrativo e Financeiro Ltda.
Segundo o relatório policial, essas empresas apresentavam características típicas de estruturas de lavagem de dinheiro, como endereços registrados em imóveis simples do interior paulista, ausência de atividade operacional identificada em diligências de campo, compartilhamento de contador e coexistência com dezenas de outras empresas no mesmo endereço.
Ao mesmo tempo, os investigadores destacam a “ostentação pública e reiterada” da influenciadora nas redes sociais, com divulgação frequente de viagens internacionais, veículos de luxo — como Lamborghini Huracán e McLaren — além do uso de aeronaves privadas. Para a polícia, o padrão de vida exposto publicamente contrastava com os dados fiscais disponíveis.
Relação com a cúpula do PCC
As investigações apontam que Deolane mantinha estreita relação financeira com Everton de Souza, descrito pelos policiais como operador ligado ao esquema de lavagem atribuído à cúpula do PCC. Segundo o relatório, Everton teria indicado contas bancárias da influenciadora para recebimento de recursos provenientes da estrutura financeira investigada.
A polícia sustenta que a engrenagem criminosa teria origem em uma rede criada para ocultar recursos atribuídos à facção criminosa, especialmente ao núcleo ligado a Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola — considerado o principal líder da facção — e ao irmão dele, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior.
Segundo a decisão judicial, a investigação começou após a apreensão de manuscritos em uma cela da Penitenciária II de Presidente Venceslau, em 2019, no interior paulista. Os documentos mencionavam integrantes da cúpula do PCC, planos contra agentes públicos e a atuação de uma “mulher da transportadora”, elemento que levou os investigadores à empresa Lopes Lemos Transportes Ltda.
“Portfólio criminoso do PCC”
A partir da análise de celulares, relatórios bancários, quebras de sigilo e comunicações financeiras, a Polícia Civil concluiu que a transportadora não seria apenas uma empresa usada para lavagem de dinheiro, mas uma estrutura “imersamente inserida no portfólio criminoso do PCC”, com ordens partindo diretamente da alta cúpula da facção.
Os investigadores afirmam que mensagens extraídas de aparelhos apreendidos revelaram discussões sobre divisão de lucros, aquisição de caminhões, indicação de contas bancárias de terceiros e distribuição de valores atribuídos ao grupo criminoso.
























