Empresas de fachada e excesso de Pix: as pistas que complicam Deolane
Em denúncia do MPSP contra a influenciadora Deolane Bezerra, promotores listam fatos e condutas considerados suspeitos. Ela está presa em SP

Na denúncia do Ministério Público de São Paulo (MPSP) contra a influenciadora Deolane Bezerra por organização criminosa e lavagem de dinheiro, apresentada nessa quarta-feira (10/6) pelo promotor Lincoln Gakiya, foram relacionados fatos e condutas considerados suspeitos e determinantes para o pedido de manutenção de sua prisão preventiva. Entre eles estão a existência de empresas de fachada em nome da influenciadora e o uso excessivo de transferências instantâneas por meio do Pix.
Deolane foi presa em São Paulo no mês passado, suspeita de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo o MPSP, suas empresas movimentaram mais de R$ 140 milhões em créditos e débitos entre julho de 2022 e maio de 2024.
Além da influenciadora, foram denunciados Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder máximo da facção criminosa; seu irmão, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior; seus sobrinhos Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho; e Everton de Souza, conhecido como Player ou Temer, considerado operador financeiro do PCC.
A defesa de Deolane Bezerra nega que ela faça parte de organização criminosa. “A defesa ainda não teve acesso à acusação e, tão logo for citada, apresentará a devida resposta, reafirmando que Deolane não faz parte de nenhuma organização criminosa e tampouco cometeu qualquer crime, o que será provado ao longo do processo”, diz nota divulgada pelos advogados Aury Lopes Jr., Josimary Rocha, Rogério Nunes e Luiz Ricardo Imparato.
Empresas de fachada
De acordo com as investigações do MPSP, Deolane constituiu empresas com características de serem de fachada, por estarem sediadas em imóveis sem estrutura operacional condizente e sem movimentação bancária declarada.
Para os promotores, a influenciadora atuava como operadora de lavagem de capitais de alta capacidade, transformando recursos espúrios da facção em ativos com aparência de legalidade por meio de seu conglomerado empresarial e círculo familiar.
Uso recorrente do Pix
Os relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontaram operações financeiras incompatíveis com a capacidade econômica declarada dos denunciados.
Chamou a atenção do MPSP o fracionamento de valores, a fragmentação e pulverização de depósitos e a utilização recorrente de transferências instantâneas via Pix.
Segundo a Promotoria, houve uma evolução atípica no fluxo financeiro e das empresas dela, sem lastro contábil ou operacional, e a imagem da influenciadora nas redes sociais ajudou a justificar a origem dos recursos que eram movimentados em nome de Deolane. Na documentação bancária, não há comprovantes de pagamento de advocacia ou contratos formais de publicidade e influência digital.
O MPSP pediu a manutenção da prisão preventiva de todos os denunciados, argumentando a necessidade de garantir a ordem pública e interromper as atividades da organização, que tem planos de expansão internacional. Além disso, foi solicitado o sequestro de bens e a perda do patrimônio incompatível com a renda lícita dos envolvidos.
Proximidade com família de Marcola
A denúncia do MPSP também anexou as fotos publicadas nas redes sociais que evidenciariam a relação pessoal da influenciadora com membros da família Camacho, especialmente com a cunhada e o irmão de Marcola.
O documento reúne diferentes registros de Deolane ao lado de Francisca Alves da Silva, companheira de Alejandro Juvenal Herbas Camacho, “circunstância que afasta a hipótese de contato meramente eventual ou fortuito e revela convivência reiterada em ambientes privados e sociais”, escreveram os investigadores.
A empresária também apareceu em fotos com Bárbara Alves Mota e Alejandro Juvenal Herbas Camacho Neto, enteada e filho de Alejandro Camacho, respectivamente. De acordo com a Polícia Civil de São Paulo, as publicações reforçariam uma proximidade não apenas com uma pessoa isolada, mas também com diferentes integrantes do mesmo núcleo familiar.
A prisão de Deolane
A influenciadora foi presa em 21 de maio de 2026, em uma operação da Polícia Civil de São Paulo em parceria com o MPSP. A prisão aconteceu na mansão onde ela morava, no condomínio Tamboré I, em Barueri, na Região Metropolitana de São Paulo.
Atualmente, ela está presa na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, a cerca de 640 km de São Paulo, próximo à divisa com Mato Grosso do Sul.
Deolane já havia sido presa preventivamente em Recife em setembro de 2024, no âmbito de uma operação da Polícia Civil pernambucana que investigava o envolvimento da advogada com lavagem de dinheiro e jogos de azar ilegais, as chamadas bets.
Entenda a cronologia da operação contra Deolane e o PCC
- A investigação teve início em 2019, quando policiais penais apreenderam bilhetes com detentos da Penitenciária II de Presidente Venceslau.
- Os manuscritos revelaram elementos relacionados à dinâmica interna do PCC, à atuação de lideranças do crime organizado e a possíveis ataques contra agentes públicos.
- A Polícia Civil notou a menção a uma “mulher da transportadora”, que teria feito um levantamento de endereços de servidores públicos para auxiliar no planejamento dos ataques do PCC, e chegou a uma transportadora, o que deu início à segunda etapa da investigação.
- Batizada de Lado a Lado e deflagrada em 2021, a operação revelou a utilização da transportadora como braço financeiro do PCC, além de movimentações financeiras incompatíveis e crescimento econômico sem lastro.
- Durante a Operação Lado a Lado, as autoridades apreenderam um celular com indícios de repasses financeiros a Deolane, além de estreitos vínculos da influenciadora com um dos gestores fantasmas da transportadora.
- Deolane, segundo os investigadores, passou a ocupar posição de destaque no caso, em razão de movimentações financeiras expressivas, incompatibilidades patrimoniais e indícios de conexão com o comando do PCC.
- Os levantamentos apontaram recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição de bens de alto padrão, o que fundamentou o desdobramento desta quinta-feira.

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