Deputadas acionam órgãos contra Tarcísio e PM após desocupação na USP
Em meio à greve por reajuste em benefício, PM usou bombas e “corredor polonês” para retirar estudantes de prédio na madrugada
atualizado
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As deputadas federais Sâmia Bomfim e Erika Hilton, ambas do PSol, informaram que vão acionar órgão de Justiça contra a violência durante a desocupação da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP). Na madrugada desse domingo (10/5), policiais militares usaram bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e um “corredor polonês” para retirar os estudantes grevistas do prédio.
Nas redes sociais, Sâmia Bomfim disse que acionará a Corregedoria da Polícia Militar e o Ministério Público de São Paulo (MPSP) para apurar a conduta “ilegal e truculenta”. Já Erika Hilton acionou a Procuradoria-Geral de Justiça contra o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), a Polícia Militar e a Reitoria da USP.
“O protesto, legítimo, pede apenas que estudantes em vulnerabilidade social tenham a possibilidade de continuar a sua formação. E é um absurdo que o poder público se recuse a negociar, parta para a violência e que quatro estudantes tenham sido detidos por exercerem seu direito constitucional ao protesto”, afirmou.
Pouco antes da invasão da reitoria, na terça-feira (5/5), Tarcísio disse que a greve dos estudantes não entra na cabeça dele e que a paralisação tem “cunho político”. Segundo o governador, o ato é uma “perda de oportunidade” e os alunos “têm que estudar”, “têm que fazer o melhor”.
Violência na USP
Por volta das 4h15, policiais utilizaram bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e um “corredor polonês” com cassetetes para retirar estudantes do prédio, ocupado desde a última quinta-feira (7/5) em meio à greve motivada pelo aumento do auxílio estudantil.
A Reitoria da USP afirmou que não foi avisada pela PM sobre a ação.
Em nota, a reitoria alegou que informou sobre a ocupação à Secretaria de Segurança Pública (SSP) na própria quinta-feira “com vistas à adoção dos protocolos de proteção e de preservação da ordem de competência das autoridades policiais”. A USP, no entanto, sustenta que o espaço foi desocupado “sem comunicação prévia à reitoria”.
A universidade ainda lamentou os acontecimentos e repudiou que a “violência substitua o diálogo, a pluralidade de ideias e a convivência democrática como forma de avanço de pautas e solução de controvérsias”. A reitoria afirmou que continuará atuando com responsabilidade institucional, buscando a pacificação do ambiente universitário.
Sobre as reivindicações dos alunos, a USP alegou que manteve diálogo com o movimento estudantil, mas que as tratativas chegaram a um limite por causa da impossibilidade de atendimento das demandas dos alunos. “A Reitoria segue aberta a um novo ciclo de diálogo com a finalidade de consolidar o que já foi encaminhado nas reuniões com a representação estudantil, o que pressupõe a manutenção do direito de ir e vir em todos os espaços da Universidade.”
Entenda a greve na USP
- A principal motivação da manifestação é a divergência dos alunos com a decisão de reajuste do PAPFE (Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil) – política de auxílio socioeconômico da universidade.
- Atualmente, o valor do benefício é de R$ 885 por mês, para alunos que não residem na moradia estudantil, e R$ 330 para os residentes.
- Os estudantes, no entanto, propõem aumento do valor para R$ 1.804, o equivalente a um salário mínimo paulista.
- Em comunicado emitido no dia 29/4, a reitoria informou que não iria acatar o pedido de aumento do auxílio. O documento também encerrou as possibilidades de negociação para esse assunto e para as demais demandas exigidas pelo corpo discente.
Na manhã do domingo, a SSP afirmou que a desocupação contou com cerca de 50 policiais e foi concluída sem registros de feridos. A pasta disse que toda a ação foi registrada pelas câmeras corporais dos agentes e as imagens serão anexadas aos autos.
Segundo a SSP, foram apreendidos entorpecentes, armas brancas e objetos contundentes. Quatro pessoas foram conduzidas ao 7º Distrito Policial (Lapa), onde foi registrado boletim de ocorrência por dano ao patrimônio público e alteração de limites. Após a qualificação, elas foram liberadas.
“A Polícia Militar ressalta que eventuais denúncias de excesso serão rigorosamente apuradas. O policiamento segue no local para garantir a ordem pública e a integridade do patrimônio público”, finalizou a nota.
O Metrópoles procurou a secretaria novamente para comentar a suposta falta de comunicação à reitoria e de decisão judicial para a reintegração. A pasta disse que vinha acompanhando a situação desde o acionamento da Reitoria no dia da invasão. Segundo a SSP, a desobstrução foi realizada sem registro de feridos, “observando o poder-dever do Estado de preservar a segurança das pessoas, a ordem pública e a proteção do patrimônio público”.
Bombas e “corredor polonês”
Vídeos enviados ao Metrópoles mostram a ação da PM (veja acima) durante a reintegração. De dentro da Reitoria da USP, os policiais se organizaram em fila para agredir os alunos que deixavam o prédio. Outra gravação mostra os agentes retirando mesas e barracas montadas pelos estudantes.
Segundo o Diretório Central dos Estudantes (DCE), dezenas de alunos ficaram feridos e quatro foram detidos. O DCE responsabilizou o reitor, Aluísio Segurado, e seu chefe de gabinete, Edmilson de Freitas, pela violência e questionou sobre a ação ter sido realizada sem determinação judicial.
Em nota nas redes sociais, o DCE afirmou que a reitoria envergonha a comunidade acadêmica. “Diante de tudo, os estudantes representados pelo DCE livre da USP Alexandre Vannucchi Leme refirmam: nossos passos vêm de longe, nossa história é de luta e não iremos parar por aqui”, diz o texto.
Suspensão das negociações
Na sexta-feira (8/5), o reitor Aluísio Segurado sugeriu acionar a Justiça para desocupar o prédio e descartou o reajuste no auxílio. Segundo ele, a proposta final é elevar o benefício de R$ 885 para R$ 912.
“Estamos no teto, que é R$ 912. Os [outros] programas de bolsas estão aí e podem aumentar muito o valor por estudante”, disse o reitor.
Ele indicou que os alunos podem se inscrever em projetos de monitoria, por exemplo, para aumentar o valor da assistência que recebem.
Segurado disse, ainda, que os estudantes estavam intransigentes nos últimos dias e diziam que a negociação duraria até que “todas as reivindicações fossem atendidas”, o que, segundo ele, não seria possível.
Para o reitor, o reajuste de R$ 27 no PAPFE já havia atendido à reivindicação de um aluno, que comprovou que o benefício perdeu valor por causa da inflação de 2025. Durante negociação anterior, Segurado diz ter avisado aos alunos que seria inadmissível elevar o auxílio a um salário mínimo, como eles defendiam.
Apesar disso, parte dos estudantes argumenta que o bônus de R$ 4.500 aprovado para professores é a prova de que há verba para melhorar a permanência estudantil. A aprovação do bônus, segundo eles, mostra que a USP estaria privilegiando uma categoria em detrimento da outra, o que o reitor nega.
Estudantes convocaram uma manifestação nesta segunda-feira (11/5) e uma assembleia geral sobre a greve, inclusive com possibilidade de adesão dos cursos de outras universidades estaduais de São Paulo.
