USP diz não ter sido comunicada sobre desocupação da Reitoria pela PM
Em meio à greve por reajuste em auxílio, PM usou bombas e “corredor polonês” para retirar estudantes de prédio da USP na madrugada
atualizado
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A Reitoria da Universidade de São Paulo (USP) afirmou que não foi avisada pela Polícia Militar (PM) sobre a ação de reintegração de posse na madrugada deste domingo (10/5). Por volta das 4h15, policiais utilizaram bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e um “corredor polonês” com cassetetes para retirar estudantes do prédio, ocupado desde a última quinta-feira (7/5) em meio à greve motivada pelo aumento do auxílio estudantil.
Em nota, a reitoria alega que informou sobre a ocupação à Secretaria de Segurança Pública (SSP) na própria quinta-feira “com vistas à adoção dos protocolos de proteção e de preservação da ordem de competência das autoridades policiais”. A USP, no entanto, sustenta que o espaço foi desocupado “sem comunicação prévia à reitoria”.
A universidade ainda lamentou os acontecimentos e repudiou que a “violência substitua o diálogo, a pluralidade de ideias e a convivência democrática como forma de avanço de pautas e solução de controvérsias”. A reitoria afirmou que continuará atuando com responsabilidade institucional, buscando a pacificação do ambiente universitário.
Sobre as reivindicações dos alunos, a USP alegou que manteve diálogo com o movimento estudantil, mas que as tratativas chegaram a um limite por causa da impossibilidade de atendimento das demandas dos alunos. “A Reitoria segue aberta a um novo ciclo de diálogo com a finalidade de consolidar o que já foi encaminhado nas reuniões com a representação estudantil, o que pressupõe a manutenção do direito de ir e vir em todos os espaços da Universidade.”
Entenda a greve na USP
- A principal motivação da manifestação é a divergência dos alunos com a decisão de reajuste do PAPFE (Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil) – política de auxílio socioeconômico da universidade.
- Atualmente, o valor do benefício é de R$ 885 por mês, para alunos que não residem na moradia estudantil, e R$ 330 para os residentes.
- Os estudantes, no entanto, propõem aumento do valor para R$ 1.804, o equivalente a um salário mínimo paulista.
- Em comunicado emitido no dia 29/4, a reitoria informou que não iria acatar o pedido de aumento do auxílio. O documento também encerrou as possibilidades de negociação para esse assunto e para as demais demandas exigidas pelo corpo discente.
Na manhã deste domingo, a SSP afirmou que a desocupação contou com cerca de 50 policiais e foi concluída sem registros de feridos. A pasta disse que toda a ação foi registrada pelas câmeras corporais dos agentes e as imagens serão anexadas aos autos.
Segundo a pasta, foram apreendidos entorpecentes, armas brancas e objetos contundentes. Quatro pessoas foram conduzidas ao 7º Distrito Policial (Lapa), onde foi registrado boletim de ocorrência por dano ao patrimônio público e alteração de limites. Após a qualificação, elas foram liberadas.
“A Polícia Militar ressalta que eventuais denúncias de excesso serão rigorosamente apuradas. O policiamento segue no local para garantir a ordem pública e a integridade do patrimônio público”, finalizou a nota.
O Metrópoles procurou a SSP para comentar a suposta falta de comunicação à reitoria e de decisão judicial para a reintegração e aguarda retorno.
Bombas e “corredor polonês”
Vídeos enviados ao Metrópoles mostram a ação da PM (veja acima) durante a reintegração. De dentro da Reitoria da USP, os policiais se organizaram em fila para agredir os alunos que deixavam o prédio. Outra gravação mostra os agentes retirando mesas e barracas montadas pelos estudantes.
Segundo o Diretório Central dos Estudantes (DCE), dezenas de alunos ficaram feridos e quatro foram detidos. O DCE responsabilizou o reitor, Aluísio Segurado, e seu chefe de gabinete, Edmilson de Freitas, pela violência e questionou sobre a ação ter sido realizada sem determinação judicial.
Em nota nas redes sociais, o DCE afirmou que a reitoria envergonha a comunidade acadêmica. “Diante de tudo, os estudantes representados pelo DCE livre da USP Alexandre Vansucchi Leme refirmam: nossos passos vêm de longe, nossa história é de luta e não iremos parar por aqui”, diz o texto.
Também nas redes sociais, a diretoria do Instituto de Química da USP repudiou a violência da PM contra os estudantes (veja abaixo). “Tal escalada na violência não contribui para a resolução dos problemas de permanência, moradia e alimentação apontados pelos alunos”, diz o texto.
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Reitoria ocupada
Durante manifestação na tarde da última quinta-feira (7/5), estudantes ocuparam o saguão da Reitoria da USP, em protesto pelo posicionamento da gestão da universidade de encerrar as negociações sobre as demandas cobradas na greve.
O ato se iniciou por volta das 14h. Às 16h, os portões do prédio foram derrubados pelos estudantes da manifestação com apoio dos grupos do movimento estudantil da universidade. Diante da situação, a PM foi acionada.
Divergência de opiniões
Na ocasião, a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) repudiou o ocorrido, acusando os estudantes de agirem com violência, vandalismo e depredação de patrimônio público.
No comunicado, o órgão afirmou que os atos não são compatíveis com os princípios fundamentais para o bom funcionamento do espaço acadêmico.
Já o DCE declarou que a ocupação ocorreu de forma pacífica e sem depredação, ao contrário do que acusa a PRIP.
Suspensão das negociações
Na sexta-feira (8/5), o reitor Aluísio Segurado sugeriu acionar a Justiça para desocupar o prédio e descartou o reajuste no auxílio. Segundo ele, a proposta final é elevar o benefício de R$ 885 para R$ 912.
“Estamos no teto, que é R$ 912. Os [outros] programas de bolsas estão aí e podem aumentar muito o valor por estudante”, disse o reitor.
Ele indicou que os alunos podem se inscrever em projetos de monitoria, por exemplo, para aumentar o valor da assistência que recebem.
Segurado disse ainda que os estudantes estavam intransigentes nos últimos dias e diziam que a negociação duraria até que “todas as reivindicações fossem atendidas”, o que, segundo ele, não seria possível.
Para o reitor, o reajuste de R$ 27 no PAPFE já havia atendido à reivindicação de um aluno, que comprovou que o benefício perdeu valor por causa da inflação de 2025. Durante negociação anterior, Segurado diz ter avisado aos alunos que seria inadmissível elevar o auxílio a um salário mínimo, como eles defendiam.
Apesar disso, parte dos estudantes argumenta que o bônus de R$ 4.500 aprovado para professores é a prova de que há verba para melhorar a permanência estudantil. A aprovação do bônus, segundo eles, mostra que a USP estaria privilegiando uma categoria em detrimento da outra, o que o reitor nega.















