Reitor da USP descarta aumentar auxílio estudantil: “Estamos no teto”
Aluísio Segurado diz que é “impraticável” elevar auxílio permanência de alunos da USP a um salário mínimo
atualizado
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O reitor da Universidade de São Paulo (USP), Aluísio Segurado, não descarta entrar na Justiça para conseguir a desocupação da reitoria da instituição, que está tomada pelos estudantes desde a tarde de quinta-feira (7/5). Para o professor, que assumiu o comando da USP neste ano, a demanda dos alunos de elevar o valor do auxílio permanência estudantil para um salário mínimo é “impraticável” e “inadmissível”.
Em entrevista a jornalistas, nesta sexta-feira (8/5), Segurado disse que o reajuste oferecido após a última rodada de negociação com os grevistas, e que elevou de R$ 885 para R$ 912 o benefício do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), é a proposta final da universidade para os alunos.
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“Estamos no teto, R$ 912 é o teto. Os [outros] programas de bolsas estão aí e podem aumentar muito o valor percebido pelo estudante”, disse o reitor, citando que alunos podem se inscrever em projetos de monitoria, por exemplo, para aumentar a verba que recebem.
Alunos x reitoria
A ocupação no prédio da reitoria, no Butantã, zona oeste de São Paulo, completou 24 horas nesta sexta-feira (7/5). Na quinta, os estudantes derrubaram as grades que cercavam a entrada e uma porta de vidro para entrar no espaço. O grupo, que está em greve desde 15 de abril, cobra a retomada das negociações com a universidade, que decretou o encerramento das conversas com os grevistas no início da semana.
Segurado diz que os estudantes estavam intransigentes nos últimos dias e diziam que a negociação duraria até que “todas as reivindicações fossem atendidas”, o que não seria possível.
Segundo o reitor, o reajuste de R$ 27 no PAPFE atendeu à reivindicação de um aluno, que teria comprovado, durante reunião de negociação anterior, que o benefício de permanência perdeu valor por causa da inflação de 2025. Naquele mesmo encontro, no entanto, Segurado diz ter avisado aos alunos que seria inadmissível elevar o auxílio a um salário mínimo, como eles defendiam.
“Imediatamente dissemos que isso era impossível de ser praticado pelo orçamento da Universidade de São Paulo”, disse ele, afirmando que a universidade ouviu outras demandas dos estudantes e criou grupos de trabalho para debater pontos trazidos pelos alunos.
Apesar disso, parte dos estudantes argumenta que o bônus de R$ 4.500 aprovado para professores é a prova de que há verba para melhorar a permanência estudantil, e mostra que a USP estaria privilegiando uma categoria em detrimento da outra, o que o reitor nega.
“A USP já está investindo em permanência estudantil mais de R$ 460 milhões ao ano. Isso é mais do que a soma do investimento que será feito na gratificação aos docentes e servidores. O segmento estudantil está recebendo o dobro daquilo que está sendo ofertado aos outros segmentos.”
Ele diz que vê com “tristeza e decepção” o movimento dos alunos de ocupar a reitoria e afirma que a invasão é “inadmissível no cenário democrático”. “Para nós, esse ato vai muito além do direito de manifestação. Acabou se constituindo em um ato de violência”.
Segurado afirma que a Polícia Militar (PM), acionada na tarde de ontem, foi orientada a não agir de forma desproporcional e tem respeitado a instrução. O reitor acredita que a ocupação pode ser desativada pelos próprios alunos em breve, mas, caso seja mantida, a instituição considera a possibilidade de entrar na Justiça para retomar o prédio.
“Isso [de procurar a Justiça para negociar a liberação] não está afastado. […] Temos que observar o andamento do movimento nas próximas horas, nos próximos dias”, disse ele. Questionado se pretende processar estudantes por causa da ocupação, o reitor declarou que “não é intenção neste momento”. “Nós ainda estamos entendendo que o bom senso pode prevalecer, mas a escalada de violência experimentada ontem já me preocupa.”
A última vez que a reitoria da USP sofreu uma ocupação foi em 2013, quando estudantes grevistas passaram mais de 40 dias no local. Na época, no entanto, o prédio da reitoria era outro. Essa é a primeira vez que o prédio atual é tomado pelos alunos.
Meia-pizza
Em assembleia nesta quinta, os estudantes decidiram que deixarão o prédio assim que a negociação com a reitoria for retomada. Em entrevista ao Metrópoles, os alunos defenderam a importância de aumentar o auxílio permanência.
Estudante de jornalismo e morador de Diadema, na Grande São Paulo, Guilherme Farpa, de 21 anos, disse que não consegue alugar um quarto perto da universidade com o valor que recebe.
“Eu passo mais de duas horas e meia no transporte público na ida, e o mesmo na volta. É um [tempo de um] estágio só para poder me deslocar até a universidade. Isso porque o auxílio que a universidade paga é insuficiente para poder pagar um aluguel aqui perto”, diz ele.
O mineiro Tuza Puri, de 22 anos, endossa o discurso de que o valor do PAFPE não paga os gastos na capital paulista.
“As bolsas não são condizentes com a realidade do que é a vida em São Paulo. […] Eles fizeram uma proposta de aumento de R$ 27. É dar “meia pizza” para a gente esperando que a gente saísse da greve”, diz ele, que é estudante de Química.
Para o aluno de Relações Internacionais Daniel Lustosa, de 21 anos, o caixa da universidade é grande o suficiente para bancar o pedido dos alunos. “A gente acredita que as nossas demandas podem ser atendidas e esperamos que a reitoria volte atrás e negocie.”
