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Calor extremo ameaça atletas na Copa em meio às mudanças climáticas

Estudo da Climate Central aponta que 97 dos 104 jogos têm risco de ocorrer sob calor capaz de afetar o desempenho dos atletas

23/06/2026 05:00
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Imagem colorida mostra atletas em estádio - Metrópoles

Além da disputa dentro de campo, jogadores que participam da Copa do Mundo de 2026 devem enfrentar um adversário que não veste uniforme: o calor extremo.

Estudos apontam que as mudanças climáticas aumentaram significativamente as chances de partidas serem realizadas sob temperaturas capazes de prejudicar o rendimento físico dos atletas e representar riscos à saúde.

O alerta ganha força porque o torneio é disputado entre junho e julho, período que corresponde ao auge do verão no Hemisfério Norte. Diferentemente da Copa do Catar, em 2022, que foi transferida para novembro e dezembro para evitar as temperaturas mais elevadas, a edição de 2026 manteve o calendário tradicional.

A competição é realizada em 16 cidades distribuídas entre Estados Unidos, México e Canadá. A diferença climática entre as sedes faz com que algumas regiões tenham condições mais amenas, enquanto outras poderão registrar calor intenso e alta umidade justamente nos dias de jogo.

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Foi pensando nisso que a FIFA decidiu implementar uma medida inédita para o Mundial de 2026. Todas as 104 partidas terão duas pausas obrigatórias para hidratação: uma aos 22 minutos do primeiro tempo e outra aos 22 minutos da etapa final.

Cada interrupção tem duração de três minutos e acontecerá independentemente da temperatura registrada no estádio. Diferentemente de edições anteriores, as pausas passam a fazer parte do protocolo oficial do torneio. O tempo parado será acrescentado aos acréscimos ao fim de cada etapa.

De acordo com a entidade, a iniciativa busca ajudar na preservação da saúde dos atletas durante o verão no Hemisfério Norte. Além da reposição de líquidos, as interrupções também permitem orientações técnicas e ajustes táticos por parte das comissões técnicas.

Por que a Copa preocupa os cientistas

Especialistas apontam uma combinação de fatores que aumenta o risco de calor extremo durante o Mundial de 2026. O primeiro é o calendário, que coincide com o período mais quente do ano na América do Norte. O segundo é a localização de várias sedes em regiões tradicionalmente quentes e úmidas, como Miami, Dallas, Houston, Atlanta, Kansas City e Monterrey.

Nesses locais, a umidade elevada dificulta o principal mecanismo de resfriamento do corpo humano: a evaporação do suor. Como resultado, o organismo encontra mais dificuldades para dissipar o calor acumulado durante o esforço físico.

O terceiro fator é o aquecimento global. Desde 1994, quando os Estados Unidos sediaram a Copa do Mundo pela última vez, a temperatura média do planeta aumentou cerca de 0,7°C, segundo análises da rede científica World Weather Attribution (WWA).

Um estudo liderado pelo climatologista Donal Mullan, da Queen’s University Belfast, em parceria com a Brunel University de Londres, analisou duas décadas de dados meteorológicos e concluiu que 14 das 16 cidades-sede podem ultrapassar, durante tardes de verão, o patamar de 28°C na escala WBGT, índice utilizado para medir o estresse térmico no organismo.

Quase todos os jogos podem ser afetados

Levantamento da organização Climate Central mostra que 97 dos 104 jogos previstos para a competição apresentam risco de ocorrer em condições de calor capazes de comprometer o desempenho dos jogadores.

Em 49 partidas, a probabilidade de enfrentar esse cenário supera 50%. Já em outros 26 confrontos, os pesquisadores concluíram que as mudanças climáticas elevaram em mais de 10 pontos percentuais a chance de temperaturas extremas.

Outro levantamento da World Weather Attribution indica que 26 partidas devem ser disputadas com índices de WBGT de pelo menos 26°C, nível a partir do qual a Federação Internacional de Jogadores Profissionais de Futebol (FIFPRO) recomenda pausas obrigatórias para resfriamento.


O que é o índice WBGT

  • Para medir o impacto do calor no organismo, pesquisadores utilizam o índice conhecido como temperatura de bulbo úmido e globo, ou WBGT.
  • O cálculo considera a temperatura do ar, a umidade, a radiação solar e a velocidade do vento para indicar o nível real de estresse térmico a que uma pessoa está submetida.
  • Segundo a FIFPRO, quando o WBGT alcança 26°C, já seria recomendável interromper a partida para pausas de resfriamento.
  • A partir de 28°C, o sindicato considera que as condições deixam de ser seguras para a prática esportiva e defende o adiamento dos jogos.
  • As regras adotadas pela FIFA são mais flexíveis. Atualmente, a entidade prevê a possibilidade de suspensão ou adiamento apenas em situações acima de 32°C de WBGT.

Desses jogos, 17 ocorrerão em estádios equipados com sistemas de refrigeração, enquanto os demais serão disputados em arenas abertas. Os pesquisadores também projetam que cinco partidas poderão atingir ou ultrapassar os 28°C de WBGT, patamar em que o sindicato considera que as condições deixam de ser seguras e defende o adiamento do jogo.

Nem mesmo a decisão do torneio está totalmente protegida desse cenário. Marcada para 19 de julho, em Nova Jersey, a final da Copa do Mundo de 2026 tem 47% de chance de ser disputada sob condições climáticas capazes de afetar o rendimento físico dos jogadores.

Como o calor afeta os atletas

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, o calor excessivo afeta diretamente o funcionamento do organismo durante exercícios intensos. Nessas condições, os atletas tendem a percorrer distâncias menores, reduzem o número de arrancadas e encontram mais dificuldade para manter o mesmo ritmo ao longo dos 90 minutos de partida.

De acordo com o fisioterapeuta e cientista do esporte Thales Lopasso, isso acontece porque o organismo precisa cumprir duas funções simultaneamente.

“O corpo tem duas grandes tarefas. A primeira é manter os níveis energéticos e o suprimento de oxigênio para os músculos, para que eles continuem trabalhando de forma eficiente e entregando o desempenho exigido em uma partida de futebol de alto rendimento”, explica.

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Jogadores da seleção alemã
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Julian Finney - FIFA/FIFA via Getty Images

Ao mesmo tempo, o organismo precisa controlar a própria temperatura, um desafio que se torna ainda maior em ambientes quentes e úmidos. “O principal mecanismo de resfriamento é o suor. Só que, quando o ar já está saturado de vapor d’água, a evaporação não acontece de forma eficiente. O suor simplesmente escorre pela pele e, sem essa evaporação, não é possível dissipar o calor”, afirma.


Torcedores também estão na zona de risco

  • Os pesquisadores alertam que os impactos do calor não devem atingir apenas quem está em campo. Embora algumas arenas possuam sistemas de climatização, a maioria dos estádios utilizados na competição é aberta.
  • Além disso, milhões de torcedores devem participar de fan fests, eventos paralelos e áreas de convivência ao ar livre, permanecendo expostos às altas temperaturas por longos períodos.
  • A preocupação reforça a necessidade de medidas de prevenção, como hidratação frequente, busca por áreas de sombra e atenção aos sinais de exaustão provocados pelo calor.

Lopasso ressalta que a preocupação não está relacionada apenas à temperatura registrada nos termômetros. A umidade do ar também desempenha papel fundamental no aumento do estresse térmico.

“Como esse mecanismo não é eficiente, eu acabo tendo uma disputa por esse fluxo sanguíneo, que é o aporte de nutrientes e oxigênio que vai me manter performando. Se eu tenho essa disputa energética, acabo não fazendo de forma suficiente nem uma coisa nem outra”, diz.

Segundo o especialista, esse processo ajuda a explicar a queda de rendimento observada em campo. Equipes que apostam em marcação sob pressão, velocidade e alta intensidade tendem a sentir ainda mais os efeitos do clima, já que dependem de um esforço físico constante para sustentar seu modelo de jogo.