Aliada russa, Belarus recria temor de nova frente na guerra da Ucrânia

Exercícios nucleares entre Belarus e Rússia levam Volodymyr Zelensky a reforçar defesas e alertar para ameaças no norte da Ucrânia

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Quase cinco anos após tropas russas cruzarem o território de Belarus rumo a Kiev nos primeiros meses da invasão em larga escala, o norte da Ucrânia voltou ao centro das preocupações do governo ucraniano.

A participação de Belarus em exercícios nucleares conjuntos com a Rússia e a crescente integração militar entre Minsk e Moscou reacenderam o temor de que o Kremlin utilize novamente o território bielorrusso para abrir uma nova frente de pressão contra a Ucrânia.

Diante desse cenário, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, chegou a afirmar que o país está preparado para reforçar as defesas e adotar medidas preventivas contra eventuais ameaças vindas da fronteira norte.

Durante uma visita à cidade de Slavutych, próxima à fronteira com Belarus, o ucraniano anunciou o reforço das defesas nas regiões de Kiev e Chernihiv e fez um raro aviso direto ao governo do presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko.

“Temos capacidade para fortalecer as nossas defesas. Também temos capacidade para agir preventivamente em relação ao território russo de onde possam surgir ameaças, e em relação à liderança de fato da Bielorrússia”, declarou.

Segundo Zelensky, Minsk deve compreender que haverá “consequências” caso participe de ações militares contra a Ucrânia.

O fantasma de 2022

Quando a invasão em larga escala começou, em fevereiro de 2022, tropas russas avançaram em direção à capital ucraniana a partir do território de Belarus.

Foi por esse corredor que Moscou lançou a ofensiva contra Kiev e alcançou cidades como Bucha e Irpin, posteriormente associadas a algumas das mais graves denúncias de atrocidades da guerra.

Desde então, Belarus se tornou um dos principais pilares estratégicos da campanha militar russa, servindo como base logística, corredor para movimentação de tropas e plataforma para exercícios conjuntos.

Embora Lukashenko continue negando que pretenda enviar soldados bielorrussos para o conflito, Kiev observa com desconfiança o aprofundamento da cooperação militar entre os dois países.

Nos últimos dias, essa preocupação ganhou força após Moscou e Minsk iniciarem exercícios envolvendo forças nucleares estratégicas e táticas.

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Ucrânia acusa Rússia de violar trégua e rejeitar esforços de paz
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Exercícios nucleares

  • Pela primeira vez, os presidentes russo e bielorrusso participaram diretamente de um treinamento nuclear.
  • Putin ressaltou que o arsenal nuclear continua sendo uma “medida extrema e excepcional”, mas afirmou que a tríade nuclear — armamento por terra, ar e mar —russo-bielorrussa deve permanecer como garantia da soberania dos dois países diante do aumento das tensões globais.
  • Lukashenko adotou tom semelhante e declarou que Belarus está pronta para defender, ao lado da Rússia, a “pátria comum, de Brest a Vladivostok”.
  • Os exercícios incluíram o lançamento de mísseis balísticos e hipersônicos, testes com submarinos nucleares, sistemas Iskander-M e bombardeiros estratégicos capazes de transportar armamento nuclear.
  • Durante o último fim de semana, a guerra na Ucrânia registrou uma nova escalada.
  • A Rússia realizou um dos maiores ataques contra Kiev desde o início da invasão, utilizando inclusive mísseis hipersônicos, o que deixou mortos e feridos.
  • Diante do agravamento do conflito, Moscou anunciou novos ataques coordenados para esta terça-feira (26/5) e recomendou que cidadãos estrangeiros, incluindo diplomatas, deixem a capital ucraniana.

Por que Kiev está preocupada?

Ao Metrópoles, o professor Vitor de Pieri, especialista em geografia humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), avalia que o alerta feito por Zelensky deve ser interpretado mais como um aviso estratégico do que como a confirmação de uma ofensiva iminente.

Segundo ele, a principal preocupação da Ucrânia não é necessariamente uma repetição do ataque contra Kiev visto em 2022, mas a possibilidade de a Rússia utilizar Belarus para obrigar os ucranianos a dispersar recursos militares.

“A lógica central é que Moscou pode buscar utilizar Belarus como vetor de reativação da pressão sobre o norte da Ucrânia, não necessariamente com o objetivo de repetir uma ofensiva direta contra Kiev, mas para obrigar a Ucrânia a dispersar tropas, munições, sistemas antiaéreos e capacidades logísticas que hoje estão concentrados em outras frentes consideradas mais críticas”, explica.

Na avaliação do pesquisador, Belarus funciona atualmente como uma “profundidade estratégica” da Rússia — conceito militar que envolve a utilização de territórios de retaguarda para ampliar a capacidade de manobra e pressão sobre o adversário.

“Em termos de pensamento estratégico russo, a ameaça já produz efeitos mesmo antes de qualquer ofensiva concreta, pois seu valor reside justamente na capacidade de gerar incerteza e dispersão”, afirma.

A preocupação ucraniana também se explica pela extensão da fronteira compartilhada entre os dois países.

Belarus e Ucrânia dividem cerca de 1.084 quilômetros de fronteira, que se estendem da divisa com a Polônia até a tríplice fronteira com a Rússia.

Belarus entre Moscou e o Ocidente

Apesar da proximidade com o Kremlin, Lukashenko também vem tentando abrir canais de diálogo com o Ocidente.

Nos últimos meses, o líder bielorrusso promoveu a libertação de presos políticos e buscou uma aproximação cautelosa com os Estados Unidos do presidente Donald Trump, em meio a discussões sobre um eventual alívio de sanções.

Kiev acompanha o movimento com cautela.

Autoridades ucranianas temem que uma flexibilização das restrições contra Belarus possa ser interpretada por Moscou como um sinal de que futuras concessões semelhantes também seriam possíveis para a Rússia.

Enquanto isso, Zelensky procura ampliar a percepção de que uma eventual escalada envolvendo Belarus não afetaria apenas a Ucrânia.

Como o país faz fronteira também com membros da Otan — Polônia, Lituânia e Letônia —, qualquer aumento da atividade militar na região tem potencial para repercutir em toda a arquitetura de segurança do leste europeu.

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