Vazamento de operação contra tráfico repercute no meio político

Reações sobre suposta interferência de Rollemberg variaram entre cobranças efusivas de opositores e ponderações cuidadosas de aliados

Will Shutter/ Câmara dos DeputadosWill Shutter/ Câmara dos Deputados

atualizado 02/07/2019 22:47

A revelação de que o ex-governador Rodrigo Rollemberg (PSB) teria vazado informações de operação policial contra o tráfico de drogas para proteger o filho caçula, Pedro Ivo Gonçalves Rollemberg, 28 anos, repercutiu no meio político. As reações variaram entre cobranças efusivas de opositores e ponderações cuidadosas de aliados. A reportagem também ouviu entidades representativas de categorias, que defenderam o papel das instituições independentes na apuração dos fatos relatados no inquérito aberto pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF).

Ex-aliada do socialista enquanto presidente da Câmara Legislativa (CLDF), a hoje deputada federal Celina Leão (Progressistas) classificou como “gravíssima” a possível interferência do então chefe do Executivo local nas investigações que envolviam o próprio filho. “Ele [Rollemberg] precisa respeitar as instituições. O que vimos é que há áudios, interceptações com autorização da Justiça, transcrições, tudo feito de forma legal. Rollemberg tem mais é que ficar preocupado, porque tudo indica que ele se valeu do cargo que ocupava para proteger o filho. É gravíssima a acusação e, caso confirmada, ele tem que responder por isso. Usar instituições subordinadas para se privilegiar e proteger quem interessa a ele é mais grave do que até mesmo o suposto crime cometido pelo filho. Se estivesse no cargo, poderia ser preso. Obstruir o trabalho da Justiça dá cadeia”.

Já para o senador Izalci Lucas (PSDB-DF), as acusações contidas no inquérito são sérias. “A lei é para todos. A nossa Polícia Civil é uma instituição reconhecida no país e no mundo justamente pela isenção do seu trabalho. Acusar a PCDF de perseguição política, como um todo, é uma tremenda irresponsabilidade, ainda mais vinda de alguém que foi governador e teve oportunidade de acompanhar a lisura do trabalho policial”, opinou o vice-líder do governo no Senado.

Vice-presidente da Câmara Legislativa, o deputado Rodrigo Delmasso (PRB) afirmou não acreditar que a PCDF “se prestaria a esse tipo de serviço [de perseguição política]”. “Ela é a melhor polícia do país, faz um trabalho isento, independentemente de quem é investigado. Se alguém cometeu crime, tem de ser investigado, doa a quem doer. Não existe perseguição, tanto que o rapaz não foi indiciado como traficante. No máximo, descobriram que ele poderia, talvez, ser um usuário. E outra coisa: não é o governo local que autoriza a paridade, mas sim o governo federal. A fala do ex-governador afronta todos os servidores da PCDF e, por isso, foi muito infeliz”, declarou.

Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional do Distrito Federal, o criminalista Délio Lins e Silva defendeu o aprofundamento isento e independente das investigações. “A OAB-DF entende a seriedade das acusações e espera que os órgãos responsáveis pela persecução penal façam a devida apuração, ressaltando que toda denúncia, contra qualquer cidadão brasileiro, seja político ou não, deve obedecer aos ritos e normas previstas no Estado Democrático de Direito em que vivemos”, disse.

Integrante da PCDF, o distrital Cláudio Abrantes (PDT), ex-aliado de Rollemberg, afirmou que as entidade “atua dentro dos mais rigorosos critérios de seriedade e comprometimento com seu trabalho, com seu papel na nossa sociedade”. “Então, como representante da categoria e como deputado distrital, rechaço veementemente essa falácia, a qual não merece sequer repercussão. Toda e qualquer pessoa que vier a transgredir a legalidade deve ser investigada e responsabilizada por seus atos, na forma da lei. Vale dizer ainda que uma polícia não chega ao lugar de ser considerada a melhor do país com direcionamento nas investigações”, ressaltou.

Já o presidente do Sindicato dos Policiais Civis do DF (Sinpol-DF), Rodrigo Franco, mais conhecido como Gaúcho, engrossou a defesa da corporação que representa. “Como disse anteriormente o nosso atual diretor, o trabalho da polícia é de Estado e não de governos. Não estamos a serviço de grupos políticos nenhum. O ex-governador, pelo tempo que ficou no palácio, sabe da seriedade e da responsabilidade de nossa instituição. Não interessa quem esteja sendo acusado, se há suspeitas, vamos investigar. É uma informação leviana e irresponsável do ex-governador de atacar nossos quadros, já que ele deveria ser o primeiro a saber que a Polícia Civil não trabalha desta forma. Ela não tem lado”, disparou.

Embora os fatos tenham ocorrido na gestão de seu antecessor, o atual diretor-geral da PCDF, Robson Cândido, falou em nome da corporação quando a matéria foi publicada: “A PCDF age como uma polícia de Estado e não de governo. Se, em algum momento algum dos nossos policiais teve envolvimento com estes supostos episódios de vazamento, vai ter de responder à Corregedoria”. “Consigo responder pela minha gestão, em nossa administração, a Polícia trabalha pela lisura do processo doa a quem doer”, sublinhou Robson.

A reportagem também procurou os dois representantes do DF eleitos pelo PSB, partido do ex-governador Rodrigo Rollemberg. Tanto a senadora Leila Barros quanto o deputado distrital Roosevelt Vilela afirmaram “ainda ser cedo” para se posicionarem oficialmente. Apenas o integrante da Câmara Legislativa decidiu encaminhar nota oficial à redação: “Hoje pela manhã tomei ciência do fato pela imprensa e verifiquei que os órgãos competentes estão investigando. No momento, não tenho o que comentar, já que o caso ainda está sendo apurado”, reforçou Vilela.

Vazamento de operações

O Metrópoles publicou com exclusividade parte do inquérito que gerou operações policiais que resultaram na prisão de 28 pessoas ligadas ao tráfico de drogas que abasteciam o mercado de alto poder aquisitivo no Distrito Federal. Durante pelo menos 30 dias, Pedro Ivo teve seus dois celulares pessoais interceptados pela polícia com autorização da Justiça. Além de Pedro Ivo, outros 10 suspeitos entraram na mira dos investigadores e passaram a ser sistematicamente monitorados. Das inúmeras conversas registradas, os policiais abriram duas frentes de investigação.

Na outra frente, ainda sob apuração, detectaram “fortes indícios” de que o então governador teria tomado conhecimento das investigações e vazado informações sigilosas aos alvos para proteger o próprio filho. Apesar das investigações policiais, Pedro Ivo não chegou a ser denunciado pelo Ministério Público.

Informado pela reportagem sobre o teor do inquérito, o ex-governador Rodrigo Rollemberg afirmou se tratar de “mais uma repugnante tentativa de setores da Polícia Civil” de atingir integrantes da família do político, hoje sem mandato. Segundo Rollemberg, o fato ocorre “desde a decisão do nosso governo de não conceder a paridade entre a Polícia Civil e a Polícia Federal”. “Enfrentamos ameaças veladas e ataques concretos, como, por exemplo, aquele que tentou levianamente envolver meu irmão em uma outra investigação que não poderia ter tido outro destino que não o arquivamento”, pontuou.

Ainda de acordo com o ex-titular do Palácio do Buriti, o caso recente é “uma investida inaceitável” contra Pedro Ivo, na tentativa de envolvê-lo em uma investigação criminal “pelo simples fato de conhecer alguns dos investigados”. “Os trechos do inquérito a que tivemos acesso pelo jornalista não indicam sequer um único ato dele que pudesse ser enquadrado em algum tipo penal. A fragilidade e a inconsistência são gritantes e perceptíveis até mesmo para os leigos. A improcedência das ilações foi tão evidente que, concluída a investigação, a denúncia do Ministério Público já foi apresentada, e não menciona sequer o seu nome. Não conheço os investigados, e apenas tomei ciência dessa Operação ao ser questionado pelo Metrópoles. Reitero ainda que durante todo o meu governo tratei a PCDF com respeito e profissionalismo jamais interferindo em qualquer investigação.”, escreveu.

 

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