PCDF indicia professor que pediu texto sobre “boquete” e “69”

O docente foi indiciado por um crime previsto no ECA, que consiste em submeter menores sob sua autoridade a vexame ou a constrangimento

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atualizado 03/12/2019 14:00

A Polícia Civil do Distrito Federal concluiu a investigação sobre o professor de português do 6º ano do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 104 Norte Wendel Santana, 25 anos. Após ouvir pais e adolescentes, a 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte) relatou o caso e indiciou o docente por um crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que consiste em submeter menores sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento. O caso, agora, segue para o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT), que pode arquivá-lo ou oferecer denúncia ao Judiciário, iniciando o processo penal.

O caso foi revelado pelo Metrópoles, e o professor foi desligado da rede pública de ensino. Em sala de aula, Wendel ensinou sobre sexo aos alunos do 6º ano. Na ocasião, também pediu aos estudantes que produzissem uma redação improvisada sobre o tema e escreveu no quadro algumas palavras inadequadas para sala de aula: “boquete”, “69”, “fio terra”, “punheta”, “dar o cu”.

À reportagem, os responsáveis por estudantes disseram que o profissional, que tinha sido contratado temporariamente pela Secretaria de Educação, deu “show de horrores” em sala de aula. O crime tipificado pela PCDF está inserido no artigo 232 do ECA e tem pena prevista de detenção – de 6 meses a 2 anos.

Conteúdo inapropriado

Segundo denúncia recebida pelo Metrópoles, as crianças fotografaram o conteúdo escrito pelo docente na lousa e gravaram áudios durante a aula. A servidora Priscilla Fava de Sousa, 38, é mãe de uma menina que estuda na mesma sala. Ela disse que a filha tem 11 anos e havia relatado anteriormente o comportamento estranho do docente.

“Sabemos que ele estava há cerca de um mês no colégio, desde que outra professora se aposentou. Segundo as crianças, um dia ele chegou a levar um texto em latim para a sala e também citou que invocaria o demônio e colocaria os nomes [dos estudantes] na boca do sapo para costurar. Ele tinha um histórico. O que ocorreu na quarta-feira foi um show de horrores”, assegurou, na época.

Segundo a servidora, a filha dela falou que não anotou nada do que estava escrito no quadro e, quando as amigas dela foram até a coordenação reclamar da situação, a vice-direção não atendeu as meninas.

“O conteúdo era completamente inapropriado e o professor recolheu essas redações. Eu fui até a 2ª DP registrar ocorrência porque acredito que deve haver uma apuração rigorosa. A direção nos garantiu que, neste concurso, ele foi devolvido e não entra mais em sala. Mas, e nos próximos? Não podemos deixar que aconteça”, ressaltou Priscilla.

Pais de outro aluno do 6º ano, a administradora Liliane Soares, 40, e o analista de redes Edilson de Souza, 43, também se mostraram chocados. Segundo eles, a turma do filho ainda não havia tido aula de redação com Wendel, mas poderia ser a próxima a receber o conteúdo.

“Palavras muito baixas. As crianças nem tinham conhecimento do que se tratava. O que tinha a ver com português? Temos que deixar claro que isso pode ser classificado como pedofilia. Não podemos ficar calados. É necessário apurar e penalizar”, defendeu Edilson.

 

MPDFT

A Promotoria de Justiça de Defesa da Educação (Proeduc), do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), instaurou procedimento para investigar as denúncias apresentadas contra o professor temporário afastado do CEF 104 Norte.

O Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) também se posicionou sobre o ocorrido. Gilza Camilo, diretora da associação, afirmou que a entidade apura as acusações. “Viemos aqui hoje [18/11/2019] para resolver outro problema e tomamos conhecimento do caso. Não sabemos se as acusações procedem, mas o professor foi afastado e iremos apurar as denúncias”, explicou.

“A situação é grave. A Secretaria de Educação afastou o professor e vamos aguardar as apurações dos órgãos competentes”, disse o também diretor da entidade, Samuel Fernandes.

Nas imagens cedidas à reportagem, é possível ver a data da ocorrência e o tema proposto pelo educador no quadro branco. “Brasília, 13 de novembro de 2019. Objetivo: fazer o próprio currículo. Redação improvisada. Escrever sobre polidez e transformações afetivo-sexuais na adolescência (pós-infância). Sexo oral e penetração”, escreveu Wendel.

 

Veja os registros obtidos pela reportagem:

No conteúdo dos áudios obtidos pela reportagem, é possível ouvi-lo dizendo aos alunos: “Repitam comigo: ‘clitóris’, ‘clitóris’. Tem que tratar o assunto com educação, porque é normal”, ele diz.

Confira os áudios:

Outro lado

Em nota, a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEE-DF) informou que “suspendeu o contrato do professor e ele não será chamado para assumir novas substituições. Foi aberto um procedimento administrativo disciplinar (PAD) para apurar os fatos, medida prevista nos contratos temporários”.

Além disso, anteriormente, a pasta destacou que os estudantes receberão o devido apoio do Serviço de Orientação Educacional.

Metrópoles procurou o professor Wendel Santana para ouvir sua versão sobre o episódio, mas ele não respondeu aos questionamentos da reportagem. O espaço continua aberto a possíveis manifestações.

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