PCDF investiga professor que pediu texto sobre “boquete” e “69”

Pais e o diretor do CEF 104 Norte procuraram a 2ª DP, que abriu inquérito e trata o caso como prioridade. Docente será intimado

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 20/11/2019 8:56

A polêmica envolvendo um professor de português do 6º ano do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 104 Norte virou caso de polícia. A PCDF confirmou que, após o docente pedir para os estudantes escreverem uma redação para falar de sexo oral e anal, o diretor da instituição de ensino e os pais registraram ocorrência na 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte). Na manhã desta terça-feira (19/11/2019), responsáveis por estudantes disseram que o profissional, que foi contratado temporariamente pela Secretaria de Educação, deu “show de horrores” em sala de aula.

O caso foi revelado pelo Metrópoles. O professor Wendel Santana, 25 anos, foi desligado da unidade educacional após ensinar sobre sexo durante aula na última quarta-feira (13/11/2019). Na ocasião, ele também pediu aos alunos que produzissem uma redação improvisada sobre o tema e escreveu no quadro algumas palavras inadequadas para sala de aula: “boquete”, “69”, “fio terra”, “punheta”, “dar o cu”.

Inicialmente, o crime investigado está inserido no artigo 232 do ECA, que consiste em submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento. A pena prevista é detenção de seis meses a dois anos. A tipificação criminal pode mudar no decorrer das apurações. As autoridades alertam que os pais devem registrar ocorrência. Em casos sensíveis como esse, a 2ª DP trabalha em conjunto com a DPCA e possui policiais treinados para colher depoimentos dos estudantes.

Segundo denúncia recebida pelo Metrópoles, as crianças fotografaram o conteúdo escrito pelo docente na lousa e gravaram áudios durante a aula. A servidora Priscilla Fava de Sousa, 38, é mãe de uma menina que estuda na mesma sala. Ela disse que a filha tem 11 anos e havia relatado anteriormente o comportamento estranho do docente.

“Sabemos que ele estava há cerca de um mês no colégio, desde que outra professora se aposentou. Segundo as crianças, um dia ele chegou a levar um texto em latim para a sala e também citou que invocaria o demônio e colocaria os nomes na boca do sapo para costurar. Ele tinha um histórico. O que ocorreu na quarta-feira foi um show de horrores”, assegurou.

Segundo a servidora, a filha dela falou que não anotou nada do que estava escrito no quadro e, quando as amigas dela foram até à coordenação para reclamar da situação, a vice-direção não atendeu as meninas. “O conteúdo era completamente inapropriado e o professor recolheu essas redações. Eu fui até a 2ª DP registrar ocorrência porque acredito que deve haver uma apuração rigorosa. A direção nos garantiu que neste concurso, ele foi devolvido e não entra mais em sala. Mas, e nos próximos? Não podemos deixar que aconteça”, ressaltou.

Pais de outro aluno do 6º ano, a administradora Liliane Soares, 40, e o analista de redes Edilson de Souza, 43, também se mostraram chocados. Segundo eles, a turma do filho ainda não havia tido aula de redação com Wendel, mas poderia ser a próxima a receber o conteúdo. “Palavras muito baixas. As crianças nem tinham conhecimento do que se tratava. O que tinha a ver com português? Temos que deixar claro que isso pode ser classificado como pedofilia. Não podemos ficar calados. É necessário apurar e penalizar”, defendeu Edilson.

Nessa segunda-feira (18/11/2019), os pais se reuniram com a direção do CEF 104 para pedir esclarecimentos. A corretora Wanessa Machado, 42, disse que a direção acolheu os alunos. Agora, os responsáveis desejam que os filhos recebam apoio psicológico. “São 19 crianças na sala. É preciso que todos sejam atendidos. A direção disse que a orientadora vai fazer um trabalho com eles e também vamos pedir para a regional de ensino o apoio de um psicólogo”, afirmou Wanessa.

“Achamos necessário que a secretaria filtre melhor e tenha mais zelo na contratação dos profissionais. Sobre este caso, esperamos o prosseguimento do boletim de ocorrência e também pretendemos processar o professor.”

MPDFT

A Promotoria de Justiça de Defesa da Educação (Proeduc) do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) instaurará procedimento para investigar as denúncias apresentadas contra o professor temporário afastado do CEF 104 Norte.

O Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) também se posicionou sobre o ocorrido. Gilza Camilo, diretora da associação, afirmou que a entidade apura as acusações. “Viemos aqui hoje [segunda-feira (18/11/2019)] para resolver outro problema e tomamos conhecimento do caso. Não sabemos se as acusações procedem, mas o professor foi afastado e iremos apurar as denúncias”, explicou.

“A situação é grave. A Secretaria de Educação afastou o professor e vamos aguardar as apurações dos órgãos competentes”, disse o também diretor da entidade, Samuel Fernandes.

Nas imagens cedidas à reportagem, é possível ver a data da ocorrência e o tema proposto pelo educador no quadro branco. “Brasília, 13 de novembro de 2019. Objetivo: fazer o próprio currículo. Redação improvisada. Escrever sobre polidez e transformações afetivo-sexuais na adolescência (pós-infância). Sexo oral e penetração”, escreveu.

 

Veja os registros obtidos pela reportagem:

No conteúdo dos áudios obtidos pela reportagem, é possível ouvi-lo dizendo aos alunos: “Repitam comigo: ‘clitóris’, ‘clitóris’. Tem que tratar o assunto com educação, porque é normal”, ele diz.

Confira os áudios:

O outro lado

Em nota, a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEE-DF) havia informado nessa segunda-feira (18/11/2019) que o professor temporário foi devolvido preventivamente pela Coordenação Regional de Plano Piloto e Cruzeiro, enquanto [a pasta] está investigando a situação no CEF 104 Norte.

Nesta terça-feira (19/11/2019), a pasta atualizou as informações e disse que irá rescindir o contrato do professor. “As autoridades policiais foram comunicadas pela direção da escola. Os estudantes receberão o devido apoio do Serviço de Orientação Educacional”, diz trecho do texto.

Metrópoles procurou o professor Wendel Santana para ouvir sua versão sobre o episódio, mas ele não respondeu aos questionamentos da reportagem.

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