HRSam: médicos relatam falta de pessoal e aparelhos para atender grávidas

Força-tarefa criada para apurar denúncias de negligência e violência obstétrica feitas desde 2018 esteve no Hospital Regional de Samambaia

atualizado 02/08/2019 14:03

A força-tarefa criada para apurar denúncias de negligência e violência obstétrica no Hospital Regional de Samambaia (HRSam) feitas desde 2018 esteve na unidade da rede pública de saúde para ouvir os médicos que atendem na ginecologia e obstetrícia. Os servidores relataram sobrecarga e falta de equipamentos básicos – entre eles, sonares fetais, fundamentais para escutar os batimentos cardíacos dos bebês, entre outros.

Os profissionais foram unânimes em reconhecer que o atendimento se torna lento porque estão sobrecarregados com muitos casos da atenção primária, uma vez que, atualmente, as unidades básicas de saúde não contam mais com a especialidade de ginecologia. Segundo os médicos, são realizados entre 150 e 200 atendimentos por dia na unidade de ginecologia e obstetrícia, além de, aproximadamente, 400 a 450 partos por mês.

Durante encontro com integrantes do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), na quarta-feira (31/07/2019), e com a direção do HRSam, os médicos disseram que têm de levar os próprios sonares. Contaram ainda que, aos fins de semana, feriados e no período noturno, por falta de profissionais plantonistas, não são realizadas ultrassonografias fetais. A equipe afirmou que, sem informações consistentes do pré-natal e sem a realização de exames, a gestante pode chegar com complicações não detectadas. São comuns casos de pressão alta, sífilis e diabetes gestacional sem diagnóstico prévio.

O diretor do hospital, Luciano Agrizzi, acompanhou a equipe do MPDFT em visita às instalações do HRSam. Ele explicou como funciona o atendimento aos pacientes, desde a porta de entrada e a triagem até a regulação dos leitos de UTI. “Atendemos a população de Samambaia, Recanto das Emas e Santo Antônio do Descoberto. É um volume muito grande de pacientes, mas estamos sempre implantando sistemas e projetos para a melhoria dos fluxos e dos procedimentos. É um momento muito triste para nós essa desconfiança gerada sobre nossa equipe”, declarou.

Em nota enviada ao Metrópoles, a Secretaria de Saúde informou que “essa é a realidade de caos na rede pública que foi deixada pelas gestões anteriores”. De acordo com a pasta, “todas as providências estão sendo tomadas para melhorar essa realidade pela atual gestão. Além da contratação de mais profissionais de saúde, a secretaria iniciou ontem a execução de um contrato de manutenção predial para todas as unidades do Distrito Federal que vai ajudar a melhorar as condições de atendimento e que não existia há vários anos”.

Segundo o MPDFT, a Promotoria Criminal de Defesa dos Usuários dos Serviços da Saúde (Pró-vida) percebeu a necessidade de escutar os profissionais e conhecer a realidade de trabalho e as dificuldades enfrentadas por eles e pelas gestantes que buscam atendimento no local. Ao final do encontro, foram indicados representantes da equipe de ginecologia e obstetrícia para compor um grupo de trabalho com a Pró-vida.

O objetivo é traçar ações preventivas de intercorrências danosas nos partos. Também participaram da visita ao HRSam integrantes do Núcleo de Direitos Humanos (NDH/MPDFT) e do Instituto Anis de Bioética, Direitos Humanos e Gênero. “Todas as instituições que formam a força-tarefa estão comprometidas a tomar providências preventivas, visando amparar as vítimas, seus familiares e os médicos com o maior número de informações possíveis, buscando melhorar o atendimento à população”, destaca o médico Márcio Souza, que representou a Pró-vida na reunião.

Investigação

Em nota conjunta divulgada na semana passada, o Ministério Público, a Secretaria de Saúde, o Conselho Regional de Medicina, o Sindicato dos Médicos e a Polícia Civil do DF informaram que reuniram esforços para responder o mais rápido possível às dezenas de denúncias de negligência e violência obstétrica no Hospital Regional de Samambaia (HRSam). Uma força-tarefa foi criada no âmbito da 26ª Delegacia de Polícia e do Instituto de Medicina Legal para apresentação, até 12 de novembro, dos resultados periciais relacionados a 11 casos em investigação. No total, foram recebidas 31 denúncias até 23/07/2019.

Também ficou definida a criação de uma rotina da 1ª Promotoria de Justiça de Defesa dos Usuários do Sistema de Saúde para comunicação compulsória à Secretaria de Saúde e ao Conselho Regional de Medicina dos casos envolvendo denúncias judicializadas de ilícitos vinculados a profissionais de saúde da rede pública, na especialidade de obstetrícia.

Das 15 denúncias que a 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia) recebeu até 16 de julho, oito foram juntadas e encaminhadas ao Ministério Público. “Foram aquelas mais recentes e que chamaram mais atenção da polícia”, segundo a delegada Renata Pereira de Jesus. Ela disse que a decisão de enviar um inquérito para todos os casos foi estratégica. “Ao longo da investigação, eles irão se desmembrar, dada a complexidade de cada história. A escolha ajudou a estabelecer um protocolo de trabalho com a direção do HRSam. A partir de agora, pretendemos criar inquéritos autônomos”, explicou.

Bebê dado como morto

No dia 17 deste mês, o Metrópoles trouxe o relato de uma jovem de 16 anos. A estudante V. G. S. viveu horas de apreensão após, grávida, dar entrada no HRSam apresentando fortes dores na região da barriga. Na unidade pública de saúde, foi recebida e atendida por uma médica que, sem nem mesmo realizar qualquer exame, diagnosticou a morte precoce de seu bebê e receitou um abortivo. Nove horas depois, a gestante entrou em trabalho de parto e, contrariando o diagnóstico da profissional, deu à luz um menino cujo coração ainda batia.

A surpresa e a alegria da mãe e dos familiares duraram uma hora e 40 minutos. Após ela deixar a sala de cirurgia para se instalar no quarto, um médico informou à jovem que seu bebê prematuro, de 6 meses, havia sofrido complicações e não resistiu. O óbito foi registrado às 23h30 daquele dia.

A adolescente sustentou que a morte da criança é resultado da negligência dos profissionais e poderia ter sido evitada com um diagnóstico preciso.

“A médica apenas tocou na minha barriga e disse que meu bebê tinha morrido. Sem fazer exames, me medicou. Mais tarde, por volta das 19h, outro médico me examinou, com um estetoscópio, e disse que não conseguia ouvir os batimentos cardíacos. Mesmo assim, meu filho nasceu vivo. Se fosse em qualquer outro hospital ou qualquer outro médico, ele poderia estar comigo hoje”, desabafou a jovem.

Gaze esquecida na vagina

Erika Pereira Nascimento, 25 anos, foi outra a denunciar o HRSam. Não bastasse o trauma de perder o primeiro filho por complicações na gestação, de acordo com a mulher, os médicos responsáveis pelo parto do natimorto esqueceram, em seu útero, duas gazes utilizadas no procedimento cirúrgico.

Erika relatou ter procurado a unidade após realizar exame de ultrassom que apontou a morte precoce do bebê. Diante da comprovação, a equipe optou pela internação da jovem. “Eles [médicos] disseram que não tinham como fazer mais nada. Fizeram os procedimentos de internação, mas só fui fazer o parto no dia seguinte, por volta das 5h.”

Dois dias após o parto, a autônoma recebeu alta médica e voltou para casa. No entanto, durante a recuperação, começou a ter complicações. “Fiz todo meu resguardo da maneira como me foi recomendado e, no final dele, comecei a sentir umas dores e percebi que saía um líquido com odor forte e sangue da minha vagina. No início, achei que fazia parte do próprio resguardo”, conta.

Cinco dias após apresentar os sangramentos na região uterina, as dores se intensificaram e ela procurou novamente o HRSam. “Eu sentia dor muito forte. Quando tocava, parecia ter um caroço. Fui ao hospital ver o que era, e o médico retirou de dentro da vagina a primeira gaze, que estava podre, e em seguida a outra.”

Segundo Erika, o profissional responsável pela extração dos materiais hospitalares omitiu a informação no prontuário, em uma tentativa de “esconder o erro médico”. À reportagem, a jovem disse ter procurado a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) no dia seguinte, para denunciar o fato, e ter se sentido “esquecida”.

“Foi tudo muito difícil. Primeiro, perdi meu primeiro filho, em um hospital que não tinha atendimento bom, que foi negligente. Fui esquecida e minha irmã teve de procurar os médicos para que eles me atendessem. Depois do parto, quando estava me recuperando e sofrendo meu luto, ainda tive que passar por tudo isso, inacreditável”, disse ela.

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