Família acusa HRSam de negligência em morte de bebê 3 horas após parto

Parentes da mãe alegam que há inconsistências no prontuário. Secretaria de Saúde afirma que recém-nascido recebeu todo o apoio necessário

atualizado 25/07/2019 21:56

Fachada HRSamJacqueline Lisboa/Especial para o Metrópoles

A morte de um recém-nascido no Hospital Regional de Samambaia (HRSam) é a 32ª denúncia de negligência médica registrada contra a equipe profissional do local. De acordo com a família, há inconsistências no prontuário médico do bebê, morto nessa terça-feira (23/07/2019). A Secretaria de Saúde do Distrito Federal afirma, no entanto, que ele recebeu todo o suporte necessário.

Após dar entrada no Hospital Regional de Taguatinga (HRT), na noite de segunda (22/07/2019), grávida de nove meses, Carla Rodrigues de Campos, de 21 anos, foi encaminhada ao HRSam em trabalho de parto. Segundo a secretaria, ela teve acompanhamento de hora em hora até que, às 10h30, foi recomendada a realização de uma cesárea.

No entanto, logo depois de nascer, o bebê teria apresentado um desconforto respiratório e acabou morrendo três horas depois. A equipe médica não quis atestar a causa e solicitou uma necropsia para indicar o motivo do óbito.

Segundo a família, Carla demorou a ser atendida e teria sido orientada por um médico do HRSam a esperar até a manhã de terça-feira por uma evolução no trabalho de parto. Os parentes acreditam que houve negligência médica no caso, uma vez que a gestação ocorreu sem nenhuma intercorrência.

Procurada, a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) informou que a ocorrência está em apuração.

Investigações

Nos últimos dias, 17 novas denúncias por negligência médica e violência obstétrica no HRSam chegaram ao conhecimento da 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia Norte). Ao todo, já são 32 casos, sendo que oito deles foram reunidos em um inquérito. De acordo com a delegada Renata Pereira de Jesus, responsável pela investigação, as histórias continuam seguindo o mesmo padrão. “Erros médicos e maus-tratos. De alguma forma, o que continuamos recebendo corrobora aquilo que já havia sido passado para a gente”, afirmou ao Metrópoles.

A próxima medida que a delegada pretende tomar é a criação de uma força-tarefa em conjunto com o Instituto Médico Legal (IML) para que os laudos periciais saiam o mais rápido possível. “Precisamos ver isso de maneira rápida, pela relevância social em torno disso. São muitos os laudos periciais que devem ser feitos, além de uma análise de todo o prontuário médico de cada paciente.”

Bebê dado como morto

No dia 17, o Metrópoles trouxe o relato de uma jovem de 16 anos. Grávida, a estudante V. G. S. viveu horas de apreensão após dar entrada no HRSam com fortes dores na região da barriga. Na unidade pública de saúde, foi recebida e atendida por uma médica que, sem nem mesmo realizar qualquer exame, diagnosticou a morte precoce do bebê e receitou um abortivo. Nove horas depois, a gestante entrou em trabalho de parto e, contrariando o diagnóstico da profissional, deu à luz um menino cujo coração ainda batia.

A surpresa e a alegria da mãe e dos familiares duraram exatas uma hora e 40 minutos. Após ela deixar a sala de cirurgia para se instalar no quarto, um médico informou à jovem que seu bebê prematuro, de seis meses, havia sofrido complicações e não resistiu. O óbito foi registrado às 23h30 daquela noite.

A adolescente sustentou que a morte da criança é resultado de negligência dos profissionais e poderia ter sido evitada com um diagnóstico preciso.

“A médica apenas tocou na minha barriga e disse que meu bebê tinha morrido. Sem fazer exames, me medicou. Mais tarde, por volta das 19h, outro médico me examinou, com um estetoscópio, e disse que não conseguia ouvir os batimentos cardíacos. Mesmo assim, meu filho nasceu vivo. Se fosse em qualquer outro hospital ou qualquer outro médico, ele poderia estar comigo hoje”, desabafou a jovem.

Gaze esquecida na vagina

Erika Pereira Nascimento, 25 anos, foi outra a denunciar o HRSam. Não bastasse o trauma de perder o primeiro filho por complicações na gestação, de acordo com a mulher, os médicos responsáveis pelo parto do natimorto esqueceram, em seu útero, duas gazes utilizadas no procedimento cirúrgico.

Erika relatou ter procurado a unidade após realizar exame de ultrassom que apontou a morte precoce do bebê. Diante da comprovação, a equipe optou pela internação da jovem. “Eles [médicos] disseram que não tinham como fazer mais nada. Fizeram os procedimentos de internação, mas só fui fazer o parto no dia seguinte, por volta das 5h.”

Dois dias após o parto, a autônoma recebeu alta médica e voltou para casa. No entanto, durante a recuperação, começou a ter complicações. “Fiz todo meu resguardo da maneira como me foi recomendado e, no final dele, comecei a sentir umas dores e percebi que saía um líquido com odor forte e sangue da minha vagina. No início, achei que fazia parte do próprio resguardo”, conta.

Cinco dias após ela apresentar os sangramentos na região uterina, as dores se intensificaram, levando-a a procurar novamente o HRSam. “Eu sentia uma dor muito forte. Quando tocava, parecia ter um caroço. Fui ao hospital ver o que era, e o médico retirou de dentro da vagina a primeira gaze, que estava podre, e em seguida outra.”

Segundo Erika, o profissional responsável pela extração dos materiais hospitalares omitiu a informação no prontuário, em uma tentativa de “tentar esconder o erro médico”. À reportagem, a jovem disse ter procurado a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) no dia seguinte, para denunciar o fato, e ter se sentido “esquecida”.

“Foi tudo muito difícil. Primeiro, perdi meu primeiro filho, em um hospital que não tinha atendimento bom, que foi negligente. Fui esquecida e minha irmã teve de procurar os médicos para que eles me atendessem. Depois do parto, quando estava me recuperando e sofrendo meu luto, ainda tive que passar por tudo isso, inacreditável.”

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