HRSam: chega a 31 o número de denúncias por negligência e erro médico

Somente na última semana, foram apresentadas mais 16 acusações de maus-tratos e violência obstétrica no Hospital Regional de Samambaia

Jacqueline Lisboa/Metrópoles

atualizado 24/07/2019 19:32

Subiu para 31 o número denúncias por negligência médica e violência obstétrica no Hospital Regional de Samambaia (HRSam). Só na última semana, 16 novas histórias chegaram ao conhecimento da 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia Norte). Ao todo, oito delas foram reunidas e um inquérito foi aberto.

De acordo com a delegada Renata Pereira de Jesus, responsável pela investigação, chama atenção a quantidade de novos casos. “Do dia 16 de julho até ontem [terça-feira, 23/07/2019], recebemos este grande número de relatos de que ainda não tínhamos conhecimento. Há situações de três anos atrás que as pessoas só se sentiram encorajadas de dizer agora, pois viram que não estão sozinhas no sofrimento.”

As histórias continuam seguindo o mesmo padrão, afirma a delegada. “Erros médicos e maus-tratos. De alguma forma, o que continuamos recebendo corrobora aquilo que já havia sido passado para a gente”, afirmou ao Metrópoles.

Renata Pereira explica que as investigações dessas ocorrências ainda estão no início. “Estamos na fase da apuração preliminar, ouvindo as vítimas. Aqueles [relatos em] que julgarmos que é possível ser instaurado inquérito, assim faremos”, disse a policial.

Inquérito instaurado

Das 15 denúncias que a 26ª DP recebeu até 16 de julho, oito foram juntadas e enviadas ao Ministério Público. “Foram aquelas mais recentes e que chamaram mais atenção da polícia”. Segundo a delegada, a decisão de enviar um inquérito para todos os casos foi estratégica. “Ao longo da investigação, eles irão se desmembrar, dada a complexidade de cada história. A escolha ajudou a estabelecer um protocolo de trabalho com a direção do HRSam,  a partir de agora, pretendemos criar inquéritos autônomos”, adiantou.

A próxima medida que a delegada pretende tomar é a criação de uma força-tarefa em conjunto com o Instituto Médico Legal (IML) para que os laudos periciais saiam o mais rápido possível. “Precisamos ver isso de maneira rápida, pela relevância social em torno disso. São muitos os laudos periciais que devem ser feitos, além de uma análise de todo o prontuário médico de cada paciente.”

Bebê dado como morto

No dia 17, o Metrópoles trouxe o relato de uma jovem de 16 anos. A estudante V. G. S. viveu horas de apreensão após, grávida, dar entrada no HRSam apresentando fortes dores na região da barriga. Na unidade pública de saúde, foi recebida e atendida por uma médica que, sem nem mesmo precisar realizar qualquer exame, diagnosticou a morte precoce de seu bebê e receitou um abortivo. Nove horas depois, a gestante entrou em trabalho de parto e, contrariando o diagnóstico da profissional, deu à luz um menino cujo coração ainda batia.

A surpresa e a alegria da mãe e dos familiares duraram exatas uma hora e 40 minutos. Após ela deixar a sala de cirurgia para se instalar no quarto, um médico informou à jovem que seu bebê prematuro, de seis meses, havia sofrido complicações e não resistiu. O óbito foi registrado às 23h30 daquele dia.

A adolescente sustentou que a morte da criança é resultado da negligência dos profissionais e poderia ter sido evitada com um diagnóstico preciso.

“A médica apenas tocou na minha barriga e disse que meu bebê tinha morrido. Sem fazer exames, me medicou. Mais tarde, por volta das 19h, outro médico me examinou, com um estetoscópio, e disse que não conseguia ouvir os batimentos cardíacos. Mesmo assim, meu filho nasceu vivo. Se fosse em qualquer outro hospital ou qualquer outro médico, ele poderia estar comigo hoje”, desabafou a jovem.

Gaze esquecida na vagina

Erika Pereira Nascimento, 25 anos, foi outra a denunciar o HRSam. Não bastasse o trauma de perder o primeiro filho por complicações na gestação, de acordo com a mulher, os médicos responsáveis pelo parto do natimorto esqueceram, em seu útero, duas gazes utilizadas no procedimento cirúrgico.

Erika relatou ter procurado a unidade após realizar exame de ultrassom que apontou a morte precoce do bebê. Diante da comprovação, a equipe optou pela internação da jovem. “Eles [médicos] disseram que não tinham como fazer mais nada. Fizeram os procedimentos de internação, mas só fui fazer o parto no dia seguinte, por volta das 5h.”

Dois dias após o parto, a autônoma recebeu alta médica e voltou para casa. No entanto, durante a recuperação, começou a ter complicações. “Fiz todo meu resguardo da maneira como me foi recomendado e, no final dele, comecei a sentir umas dores e percebi que saía um líquido com odor forte e sangue da minha vagina. No início, achei que fazia parte do próprio resguardo”, conta.

Cinco dias após ela apresentar os sangramentos na região uterina, as dores se intensificaram, levando-a a procurar novamente o HRSam. “Eu sentia uma dor muito forte. Quando tocava, parecia ter um caroço. Fui ao hospital ver o que era, e o médico retirou de dentro da vagina a primeira gaze, que estava podre, e em seguida outra.”

Segundo Erika, o profissional responsável pela extração dos materiais hospitalares omitiu a informação no prontuário, em uma tentativa de “tentar esconder o erro médico”. À reportagem, a jovem disse ter procurado a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) no dia seguinte, para denunciar o fato, e ter se sentido “esquecida”.

“Foi tudo muito difícil. Primeiro, perdi meu primeiro filho, em um hospital que não tinha atendimento bom, que foi negligente. Fui esquecida e minha irmã teve de procurar os médicos para que eles me atendessem. Depois do parto, quando estava me recuperando e sofrendo meu luto, ainda tive que passar por tudo isso, inacreditável”

Érika Pereira Nascimento

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