“Quero que ele pague”, diz irmã de vítima de feminicídio morta em casa
Crime ocorreu em 2024 e diante dos filhos da vítima; Janilson Almeida responde por feminicídio qualificado e vai a júri nesta quarta-feira
atualizado
Compartilhar notícia

Depois de dois anos de espera, Janilson Quadros de Almeida será julgado pelo feminicídio de Daniella Di Lorena Pelaes de Almeida nesta quarta-feira (10/6), a partir das 9h, no Tribunal do Júri de Brasília. A família da vítima acompanha o desfecho do processo iniciado em junho de 2024 e afirma esperar que o julgamento represente uma resposta da Justiça ao crime.
“Nós acreditamos na Justiça e é isso que nós queremos. Queremos justiça, quero que ele pague”, declarou Beth Pelaes, irmã de Daniella.
A mãe de Daniella, Maria do Socorro Pelaes relata que a morta da filha deixou um vazio na família, principalmente para os filhos da vítima.
“Eu me pego com Deus. A gente sofre, chora, sem lágrimas, magoa, muito mesmo. Meus netos olham para mim e fazem as perguntas. Vão olhar e eu não sei o que dizer para eles, porque a dor é muito grande”, afirmou.
Nesta terça-feira, a família organizou um protesto alertando sobre o feminicídios e pedindo justiça pela morte de Daniella.
Denúncia do MP
A denúncia do Ministério Público sustenta que Daniella, de 46 anos, foi morta a facadas na manhã de 25 de maio de 2024, dentro da própria casa, no Condomínio Amobb, no Jardim Botânico. Segundo a acusação, Janilson teria invadido o quarto onde ela dormia com dois dos filhos do casal e a atacado com golpes de faca.
O crime foi enquadrado como feminicídio qualificado por motivo torpe, recurso que dificultou a defesa da vítima e prática em contexto de violência doméstica e familiar.
De acordo com o processo, o relacionamento entre os dois havia terminado meses antes do crime. Testemunhas ouvidas pela Justiça relataram um histórico de discussões frequentes, ciúmes, comportamento possessivo e ameaças. Familiares afirmaram que Janilson não aceitava o fim da relação e continuava monitorando a rotina da ex-companheira.
Medidas protetivas e histórico de violência
Antes do assassinato, Daniella chegou a registrar ocorrência e obteve medidas protetivas de urgência contra Janilson. As medidas foram concedidas pela Justiça, mas posteriormente revogadas a pedido da própria vítima, segundo os autos. A família afirma que a decisão ocorreu porque as restrições dificultavam o contato do pai com o filho do casal.
Durante a fase de instrução, a filha de Daniella relatou que a mãe já havia manifestado medo de Janilson e que ele teria feito ameaças de morte em ocasiões anteriores. Ela também afirmou que o relacionamento era marcado por agressividade, controle e ciúmes excessivos.
O cunhado da vítima, Flávio Lima Barreto, declarou em depoimento que Daniella havia se mudado para Brasília justamente na tentativa de se afastar do acusado. Segundo ele, mesmo após a separação, Janilson fazia ligações constantes e se recusava a assinar a minuta de divórcio.
Prisão em flagrante e andamento do processo
Janilson foi preso em flagrante no dia do crime e teve a prisão convertida em preventiva durante a audiência de custódia. Desde então, a Justiça manteve o acusado preso em sucessivas reavaliações, sob o entendimento de que a liberdade dele representaria risco à ordem pública diante da gravidade dos fatos.
A denúncia foi recebida em 3 de junho de 2024. Em decisão de pronúncia, a Justiça entendeu haver provas da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria para que o caso fosse submetido ao Conselho de Sentença, destacando que caberá aos jurados decidir sobre a responsabilidade criminal do acusado.
“Nada vai trazer minha irmã de volta”
Às vésperas do julgamento, a família afirma que a espera de dois anos foi marcada por dor, mudanças profundas e a responsabilidade de reconstruir a vida dos filhos de Daniella. Beth Pelaes, irmã da vítima, diz que a condenação do acusado é a única expectativa para o júri.
“Esse julgamento não vai ser fácil”, afirmou.
Segundo ela, a morte de Daniella deixou marcas permanentes na família. “Virou a nossa vida de cabeça para baixo. Impactou demais. É um buraco, um vazio. A falta que ela faz todos os dias.”
Beth também destacou o impacto do crime sobre os filhos de Daniella, que presenciaram o ataque. Segundo ela, o processo de recuperação emocional das crianças ainda continua e faz parte da realidade da família desde maio de 2024.
“Acho que eu adotei as crianças, são meus filhos na Justiça mesmo”, afirmou. “O menor acorda de madrugada e pede para eu ler a Bíblia para ele. Os dois viram tudo o que aconteceu.”
Apesar do sofrimento, Beth diz confiar na decisão dos jurados e espera que o caso resulte em uma condenação. “Nós acreditamos na Justiça e é isso que nós queremos. Queremos justiça, quero que ele pague”, declarou.
Para a irmã, nenhuma sentença será capaz de reparar a perda, mas a responsabilização criminal pode servir de alerta.
“Eu sei que nada vai trazer minha irmã de volta, mas eu quero que ele pague. Que seja também exemplo para outros homens que se pensarem em fazer algo assim, vejam quantos anos de prisão podem pegar. E que seja a pena máxima, com certeza”, disse.
O dia do crime
Segundo relatos presentes no processo, o ataque aconteceu por volta das 5h15 da manhã. A babá que trabalhava na residência afirmou ter acordado com gritos de Daniella pedindo para que Janilson parasse. Ao chegar ao quarto, encontrou a porta arrombada e viu o acusado golpeando a vítima.
Os dois filhos menores do casal presenciaram o crime. Um dos meninos, de 10 anos à época, correu para esconder as facas da casa por medo de que o pai também atacasse os irmãos ou a funcionária.
Depois, foi esse mesmo filho quem pediu ajuda ao segurança do condomínio. Ao chegar ao local, o vigilante encontrou Daniella já sem sinais vitais e Janilson caído ao lado dela. A Polícia Militar e o Samu foram acionados em seguida.
O Metrópoles não localizou a defesa de Janilson Quadros de Almeida. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.















