Não sabe o que coding? Uma criança perto de você é craque nisso

Entenda os projetos que inserem os pequenos no mundo digital e as lógicas usadas para ensinar a tecnologia para os pequenos

Vinícius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 01/12/2019 17:22

Quem já soltou a frase “Eu não dou conta, sou de humanas” pode mudar o jeito de ver as coisas a partir de um projeto que busca ensinar programação às crianças. A ideia é introduzir o coding para os pequenos, de forma que um pensamento lógico se forme desde o ensino fundamental.

Se a imagem que passa na cabeça do leitor é de menino ou menina mexendo num computador cheio de códigos e números complexos, nada feito. É bom repensar o conceito. O tal coding já faz parte do cotidiano de muitos.

“Quando se fala em programação, a maioria das pessoas já imaginam um nerd com óculos grandes sentado no computador digitando códigos difíceis”, compara conta Rose Bernardi, diretora do Pueri Bilíngue.

“Pensam que é algo apenas para adultos e nem sabem que existem específicos para as crianças, que envolvem exercícios de raciocínio lógico com blocos, por exemplo”, continua a profissional, cuja escola vai aplicar o projeto no Centro de Ensino Candanguinho a partir de 2020. 

Nos Estados Unidos da América (EUA), em 2016, 40% das escolas tinham o coding na educação básica. Dois anos antes, o número alcançava apenas 25%. Para Rose, é uma tendência mundial e um projeto que avança bastante, mas ainda é pouco conhecido no Brasil. 

Segundo a diretora, o coding também ganha destaque no currículo. “Muitas coisas não voltarão a ser analógicas. Então, a tecnologia precisa ganhar seu espaço no aprendizado dos jovens”, comenta.

Rose Bernardi lembra que o coding não é algo exclusivo para programadores, mas pode ser um campo profissional para qualquer um. 

Ela critica a falta de preocupação com a técnica nas escolas atuais, o que faz muitas pessoas aprenderem a programar por conta própria, pela demanda do mercado.

É o caso de Douglas Caetano de Sousa, que atualmente trabalha como analista. Aos 27 anos, ele aprendeu a programar durante a faculdade, quando fazia estágio. Segundo ele, o curso de computação, teórico demais, não trouxe os conhecimentos que teve que aprender na prática.

“A programação se baseia na lógica. Sempre tive afinidade com matemática. Talvez, se eu tivesse algum contato com o coding desde pequeno, a trajetória teria sido mais fácil e direta até o mercado de trabalho”, comenta o jovem.

Beabá da programação

Em uma aula ministrada no Colégio ESPU COC de Taguatinga, os alunos pareciam empolgados com os robozinhos, que tocavam até música.

Cada ação das máquinas vinha das mãos dos adolescentes, que usavam um aplicativo no celular para comandá-las, por uma linguagem em blocos.

Geraldo de Assis Alves Júnior, 40, é professor e dono da empresa Robotclub, que aplica o projeto em várias escolas do DF há cerca de um ano. Ele diz que o ensino tem vários níveis de aprendizado, com base no material disponível para o uso e o grau de conhecimento do aluno.

Veja cenas de uma aula de programação e robótica:

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No nível chamado Lego, por exemplo, as crianças aprendem a lógica da programação pelas construções de peças do brinquedo.

“Isso as prepara para, mais tarde, codificar um robô em um formato que a máquina entenda e execute a ação. Além disso, ficam com essa visão tridimensional e uma noção de encaixe”, explica Geraldo.

O professor procura trazer a realidade para a representação no brinquedo. Uma peça que simula uma gangorra de equilíbrio, por exemplo, pode evoluir para o conceito de um guindaste na vida real.

Os alunos sempre trabalham em dupla. Assim, é possível fazer a mesma ação de formas diferentes. Para Geraldo, por meio do coding as crianças aprendem a trabalhar em equipe e buscar a solução de problemas.

E mais: desenvolvem questões matemáticas (ângulos, graus de giro do robô), físicas (troca de luz, músicas tocadas) e uma série de interdisciplinaridades, chegando à própria robótica.

“Quando a gente fala de programação, o objetivo principal não é só criar um jogo ou um aplicativo, mas as outras vertentes de trabalho em equipe e resolução de problemas”, aponta Geraldo.

“Isso porque essa geração já nasce com a afinidade na tecnologia. Então, essa parte divertida de construir e fazer os robôs funcionarem é a isca”, define o professor.

Vertentes

O dono da empresa explica que as três vertentes trabalhadas pelo projeto fazem parte de uma evolução. E são trabalhadas em todas as idades:

  • Área maker: tendência mundial, na qual se aprender fazendo e construindo
  • Programação: parte dos comandos e das codificação de robôs
  • Robótica: área eletrônica, na qual se aprendem conceitos de positivo e negativo, como funciona um motor, entre outras coisas

“O aluno sai capacitado até para o mercado de trabalho. Não necessariamente ele será um programador, desenvolvedor ou seguirá para áreas de TI (tecnologia da informação), mas saem preparados para resolver problemas”, ressalta.

E os adolescentes dizem gostar do projeto. André Victor Fernandes de Brito, de 17 anos, está no terceiro ano do ensino médio e aprendeu a fazer um robô agarrar uma bolinha do outro lado da mesa.

“Às vezes, eu não vejo onde está problema (na hora de programar), mas o outro pode ver e a gente se ajuda”, conta. Para Vinicius Araújo Oliveira, que aos 14 anos já mexe nos códigos, “também é um passatempo bom”.

Hélio Franco Portal Júnior, outro professor que participa do projeto, diz que cada um programa de um jeito. “A gente tenta incentivar a pensar fora da caixinha, tem várias soluções para as limitações do que os robôs podem fazer. É um conhecimento de si mesmo, do que você quer”, afirma.

O jogo do Elfo

Há também crianças que estão por aí desenvolvendo os próprios games. Dante Costa Mendes é um deles. Com apenas 10 anos, o menino diz lembrar do primeiro jogo que baixou: “My talking Tom”.

É o aplicativo de um gato interativo: a pessoa dá certos comando na tela do celular e a personagem responde. Dante tinha 4 anos quando começou a jogar. Com 7 anos, ganhou um X-box e a paixão pela tecnologia só cresceu. Agora, ele fica entre o computador e o tablet.

A mãe, Ana Paula Barreto Costa, 50, conta que tentava evitar que o filho ficasse grudado demais nas telas. 

“Ele sempre gostou muito de jogos. A gente segurou um pouco quando ele era pequenininho, porque queria que ele brincasse com coisas menos tecnológicas. Afinal, a gente vem de outra geração e fica preocupado”, lembra a servidora pública. 

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Entretanto, toda vez que Dante via um tablet, ele queria muito mexer. Não teve jeito: os pais acabaram deixando ele se aproximar.

Para canalizar esse apego do menino a algo construtivo, os pais o colocaram em uma escola de programação, para que desenvolvesse melhor as habilidades. Logo a criança aprendeu a fazer seus próprios jogos, um deles pelo RPG maker.

Ele fala das expectativas de voltar a mexer com o coding, após a escola antiga ter fechado e aparecer uma nova oportunidade agora. 

“Quero programar, aprender a fazer os jogos, aprender a fazer robótica. Queria terminar o jogo que estava fazendo antes da outra escola fechar. Eu criava os personagens. A gente começa fazendo o cenário, depois os personagens e o objetivo”, explica. 

Dante diz ter se inspirado no jogo Zelda para fazer o próprio game. Nele, chamada “A lenda do Elfo”, a personagem principal era esse ser mitológico.

O jogo tinha um prédio de 10 andares, cada um sendo uma fase. O protagonista saía de casa e encontrava outros personagens, até chegar no boss (chefão). Para subir de nível, o objetivo era eliminar o adversário.

O garoto tem canal no YouTube, no qual posta vídeos jogando. Perguntado se ele pensa em seguir a carreira de programador, Dante deixa claro: para ele é uma diversão.

“Gosto muito de escrever. Queria fazer alguns jogos ainda, porque diverte. Mas se alguém quiser comprar e baixar, vai ser bom pra mim também.” 

Expectativas

O coding faz com que as crianças se desenvolvam cognitivamente para criar aplicativos, games e projetos, seja para o mercado, seja como hobbyes.

“As pessoas vivem cercadas de tecnologias nas quais sentem dificuldades até na hora de demandar um atendimento específico que precisam. A pessoa ganha facilidade para reconhecer padrões, o que é prioritário ou não no momento”, explica Rose Bernardi.

Segundo a especialista, os pequenos lidam com a complexidade com desenvoltura, um pensamento computacional, que é importante para todas as profissões do presente e do futuro.

“Esse aprendizado é para que as pessoas possam dialogar com o mundo digital e não apenas ser usuário dele”, ressalta.

No ambiente escolar, caso do colégio dirigido por Rose, o espaço para um art maker é cheio de ferramentas. As crianças têm livre acesso, sendo supervisionadas. Entre máquinas, como impressoras 3D, cortadora laser, prótese para imprimir banner, marcenaria e serraria, elas podem construir o que quiserem.

“A internet já ensina de tudo. Acredito que a escola, além de orientar, ajuda o aluno a chegar lá. O mais importante é provocar, porque tudo no espaço maker é assim: para instigar os alunos a buscarem dentro deles o que são capazes”, finaliza a diretora. 

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