Caso Naja: Ministério Público Militar suspeita que PMs cometeram fraude processual

MPM terá acesso à íntegra da investigação e vai apurar se foram cometidos crimes por oficiais do Batalhão Ambiental do DF

atualizado 30/09/2020 10:05

Naja picou estudante no DFIvan Mattos/Zoológico de Brasília

O Ministério Público Militar (MPM) terá acesso à cópia integral das provas colhidas na Operação Snake, conduzida pela 14ª Delegacia de Polícia (Gama). A ofensiva investigou o universitário Pedro Henrique Krambeck, parentes e amigos dele, além de membros do Batalhão de Polícia Militar Ambiental do Distrito Federal (BPMA), em julho deste ano, por suposta participação em esquema de tráfico internacional de animais exóticos na capital. O caso veio à tona após Pedro Henrique ser picado pela cobra Naja que criava como animal de estimação.

A determinação para compartilhamento do inquérito com o MPM foi da 1ª Vara Criminal do Gama e atende pedido do próprio Ministério Público Militar, conforme o veredicto do juiz.

De acordo com a decisão, o MPM pretende averiguar “possíveis crimes de prevaricação e fraude processual praticados, em tese, pelos oficiais da Polícia Militar do Distrito Federal, Joaquim Elias Costa Paulino e Cristiano Dosualdo Rocha, à época lotados no Batalhão de Polícia Militar Ambiental, bem como por outros policiais militares daquela unidade, os quais podem ter agido para beneficiar Clóvis Eduardo Condi e seu enteado Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl”.

Os policiais responsáveis pelo Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA) chegaram a ser afastados preventivamente das atividades externas, em agosto, por suspeita de atrapalhar as investigações da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF).

Imagens do circuito de segurança do Shopping Pier 21 obtidas pela 14ª DP colocam policiais do BPMA em evidência. Relatórios que fazem parte do inquérito, aos quais o Metrópoles teve acesso com exclusividade, levantam suspeita de que eles tenham agido supostamente para proteger os alvos da Operação Snake.

Segundo os documentos, as gravações mostram o momento em que o também estudante de medicina veterinária Gabriel Ribeiro, 24 anos, amigo de Pedro, deixa a cobra Naja no estacionamento do estabelecimento comercial. Uma equipe da PM aparece no local em menos de um minuto e recolhe o animal.

A serpente estava dentro de uma caixa de plástico, próximo a um barranco, nas redondezas do Pier 21, no Setor de Clubes Sul. O fato ocorreu em 8 de julho, um dia após Pedro ser picado pela Naja. O rapaz foi levado ao Hospital Maria Auxiliadora, no Gama, e chegou a ficar internado, em coma.

No dia seguinte à apreensão da cobra, os policiais militares retornaram à 14ª DP com mais 16 serpentes. Todos os animais pertenciam a Pedro Henrique e não tinham documentação. Estavam escondidos dentro de uma baia de cavalo em um haras do Núcleo Rural Taquara, em Planaltina.

“Mais uma vez, a PMDF apresentou os animais arrecadados sem conduzir ninguém à delegacia. Sendo que, coincidentemente, após poucos instantes, compareceu a esta circunscricional ‘espontaneamente’ o filho do dono do haras e também amigo de Pedro Henrique e Gabriel Ribeiro”, diz o inquérito conduzido pela Polícia Civil. O rapaz foi ouvido e confirmou ter permitido que Gabriel escondesse as serpentes de Pedro no local.

Veja fotos da apreensão no haras:

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Segundo o depoimento dos policiais militares que apreenderam os animais, a empreitada ocorreu após uma denúncia anônima. Os PMs narram que receberam um ponto de referência e acabaram encontrando um haras. No imóvel, foram recebidos por um capataz, que indicou o local onde estavam as cobras. Os militares alegaram que não foi preciso conduzir a testemunha até a delegacia “pelo fato de residir ricamente naquele local”.

“Diante desse cenário, percebe-se que, desde o início da investigação, a autoridade policial responsável pela apuração vem encontrando severas dificuldades no tocante à obtenção de provas, o que decorre, lamentavelmente, da conduta praticada por policiais militares, especialmente o padrasto de Pedro, coronel Clovis Condi, e os policiais lotados no BPMA/PMDF comandado pelo major Elias Costa“, diz um dos trechos dos relatórios.

O caso

O esquema foi revelado após o estudante de medicina veterinária Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl, 22, ter sido picado por uma cobra Naja, criada clandestinamente em sua casa, no Guará. A Polícia Civil do DF (PCDF) concluiu o inquérito no dia 13 de agosto e indiciou 11 pessoas por crimes ambientais.

Pedro foi indiciado por tráfico de animais silvestres, associação criminosa e exercício ilegal da medicina veterinária.

A mãe de Pedro, Rose Meire dos Santos Lehmkuhl, e o padrasto dele, o coronel da PMDF Eduardo Condi, também foram indiciados, assim como o major Joaquim Elias Costa Paulino, comandante do Batalhão Ambiental da PMDF.

“Foi elucidado um esquema de tráfico de animais a partir desse rapaz, onde se comprovou que ele trafica animais. Ele traz cobras de outros estados. Temos registros de viagens, vendas, diálogos a partir de aplicativos de conversa. Compra, venda, valores. Pessoas que compareceram à delegacia e que confirmaram o valor, modo de entrega”, afirmou o delegado Willian Ricardo, da 14ª DP, na ocasião.

Veja imagens do caso:

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