Caso Naja: PMs suspeitos de atrapalhar investigação são afastados das ruas

Eles são acusados de interferir na atuação da Polícia Civil (PCDF), que apura esquema de tráfico internacional de animais na capital

atualizado 05/08/2020 13:41

Naja no Zoo de BrasíliaIvan Mattos/ Zoológico de Brasília

Policiais responsáveis pelo Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA) foram afastados preventivamente das atividades externas por suspeita de atrapalhar as investigações da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), que apura esquema de tráfico internacional de animais.

A Operação Snake foi deflagrada após Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl, 22, ser picado por uma cobra Naja que criava clandestinamente em casa, no Guará. O estudante de medicina veterinária é suspeito de fazer parte de uma organização criminosa que trazia animais exóticos ilegalmente para o país.

A Corregedoria-Geral da PMDF informou ao Metrópoles, nesta quarta-feira (5/8), que afastou o major Elias Costa e o capitão D. Rocha do BPMA. Eles são alvo de inquérito policial militar (IPM). O caso também tramita no Ministério Público Militar e no Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT).

“A PMDF informa que os policiais foram movimentados para a área administrativa. Tal ação foi solicitada pelo Departamento de Controle e Correição da PMDF, visando dar transparência às apurações”, afirmou a corporação por meio de nota.

Suspeitas

Imagens do circuito de segurança do Shopping Pier 21 obtidas pela 14ª Delegacia de Polícia (Gama) colocam policiais do BPMA em evidência. Relatórios que fazem parte do inquérito, obtidos com exclusividade pelo Metrópoles, levantam suspeita de que eles tenham agido supostamente para proteger os alvos da Operação Snake.

Segundo os documentos, as gravações mostram o momento em que o também estudante de medicina veterinária Gabriel Ribeiro, 24 anos, amigo de Pedro, deixa a cobra Naja no estacionamento do estabelecimento comercial. Uma equipe da PM aparece no local em menos de um minuto e recolhe o animal.

A serpente estava dentro de uma caixa de plástico, próximo a um barranco, nas redondezas do Pier 21, no Setor de Clubes Sul. O fato ocorreu em 8 de julho, um dia após Pedro ser picado pela Naja. O rapaz foi levado ao Hospital Maria Auxiliadora, no Gama, e chegou a ficar internado, em coma.

No dia seguinte à apreensão da cobra, os policiais militares retornaram à 14ª DP com mais 16 serpentes. Todos os animais pertencem a Pedro Henrique e não tinham documentação. Estavam escondidos dentro de uma baia de cavalo em um haras do núcleo rural Taquara, em Planaltina.

“Mais uma vez, a PMDF apresentou os animais arrecadados sem conduzir ninguém à delegacia. Sendo que, coincidentemente, após poucos instantes, compareceu a esta circunscricional ‘espontaneamente’ o filho do dono do haras e também amigo de Pedro Henrique e Gabriel Ribeiro”, diz o inquérito conduzido pela Polícia Civil. O rapaz foi ouvido e confirmou ter permitido que Gabriel escondesse as serpentes de Pedro no local.

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Segundo o depoimento dos policiais militares que apreenderam os animais, a empreitada ocorreu após uma denúncia anônima. Os PMs narram que receberam um ponto de referência e acabaram encontrando um haras. No imóvel, foram recebidos por um capataz, que indicou o local onde estavam as cobras. Os militares alegaram que não foi preciso conduzir a testemunha até a delegacia “pelo fato de residir ricamente naquele local”.

“Diante desse cenário, percebe-se que, desde o início da investigação, a autoridade policial responsável pela apuração vem encontrando severas dificuldades no tocante à obtenção de provas, o que decorre, lamentavelmente, da conduta praticada por policiais militares, especialmente o padrasto de Pedro, coronel Clovis Condi, e os policiais lotados no BPMA/PMDF comandado pelo major Elias Costa”, diz um dos trechos dos relatórios.

Condi é irmão do subcomandante-geral da corporação, Claudio Fernando Condi, e padrasto de Pedro Henrique. Assim como a mãe do rapaz, Rose Meire, ele também é investigado no âmbito da Operação Snake.


Tráfico

Segundo a PCDF, a partir dos elementos colhidos durante as investigações, foi possível verificar, pela grande quantidade de animais apreendidos, que “Pedro Henrique é traficante de animais silvestres e não mero colecionador.”

A afirmação é corroborada por mensagens de texto trocadas entre o jovem e a mãe dele. Em uma delas, o universitário passava pela cidade de Ibotirama (BA) e trazia consigo uma cobra. Ele também mantinha contatos de outros traficantes de animais.

Pedro foi picado pela cobra Naja kaouthia que criava como animal de estimação, apesar de a serpente não ser natural de nenhum habitat brasileiro. A suspeita é que o animal tenha sido trazido para o Distrito Federal a partir de uma licença irregular, emitida por uma servidora do próprio Ibama, que já foi afastada do cargo.

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