Votação sobre gestão compartilhada com PM movimenta 5 escolas no DF

Pais, alunos e servidores ainda não entraram em consenso sobre a presença dos militares no ambiente escolar

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 18/08/2019 16:14

Alunos, pais, professores e servidores de cinco escolas do Distrito Federal participam de plebiscito neste sábado (17/08/2019) sobre a implementação do programa de Gestão Compartilhada entre as secretarias de Educação e da Segurança Pública. A votação acontece em unidades de ensino localizadas em Taguatinga, Samambaia, Asa Norte, Itapoã e Núcleo Bandeirante. Ao longo desta semana, o secretário de Educação, Rafael Parente, afirmou que as instituições que aprovarem a gestão compartilhada terão o projeto iniciado em, no máximo, duas semanas.

No Centro de Ensino Fundamental (CEF) 19, na QNL, em Taguatinga, a votação foi tranquila, embora o projeto ainda divida opiniões. Enquanto os pais aguardavam na fila que se formava em frente à sala de aula e comemoravam a medida, um grupo de representantes do Sindicato dos Professores do Distrito Federal (Sinpro-DF) se reuniu em frente ao local de votação para garantir a “lisura do processo”.

Igo Estrela/Metrópoles
Elineide Rodrigues, diretora Sinpro-DF, não acredita que o projeto, da forma como está, possa seguir sem interferências pedagógicas

Segundo a diretora do Sinpro-DF, Elineide Rodrigues, a categoria concorda que o ambiente escolar precisa de mais segurança, mas não acredita que o projeto, da forma como está, possa seguir sem interferências pedagógicas.

“Não houve debate com a comunidade. Temos feitos visitas às unidades onde a metodologia já está funcionando e o que constatamos foram alunos acuados com a presença dos militares, além de experiências mal sucedidas”, pontuou. A professora se refere às denúncias de policiais que entraram em confronto com alunas, além de supostos casos de assédio.

Igo Estrela/Metrópoles
Antônio Silva, pai de uma aluna de 11 anos, é a favor da presença dos PMs na escola da filha

Alguns pais, no entanto, acreditam que com o tempo todos vão se acostumar e os alunos terão mais segurança. Essa, pelo menos, é a expectativa de Antônio Silva de Andrade, pai de uma aluna de 11 anos. “Toda vez que ela vai para a escola, só ficamos tranquilos quando ela retorna para dentro de casa. Com a Polícia Militar dentro dos portões, temos uma sensação maior de segurança”, disse.

Representantes do Sinpro-DF e integrantes da Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto protagonizaram confusão no Centro Educacional (CED) Gisno, na Asa Norte. Segundo o sindicato, os servidores da seccional colocaram cartazes e distribuíram panfletos a favor da gestão compartilhada durante o pleito, o que configura, de acordo com a entidade, boca de urna, além de ferir a norma de Gestão Democrática, adotada para a votação.

“Os debates já foram realizados, hoje é o dia da comunidade escolar decidir. Não tem cabimento um representante da Secretaria de Educação se prestar a convencer os pais enquanto estão na fila pra votar”, disse o porta-voz do Sinpro-DF, Claudio Antunes. Os materiais favoráveis ao modelo de administração escolar foram retirados após a chegada de policiais militares.

De acordo com a Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto, não houve boca de urna. “Trata-se de sobra de material de esclarecimento distribuído durante a semana e que não foi entregue hoje”, acrescentou.

Divergências em família

A maioria dos alunos ouvidos pelo Metrópoles neste sábado discorda que levar forças de segurança auxiliares para dentro da sala de aula seja uma solução. Em Samambaia, a família Carvalho ainda não entrou em consenso. Enquanto os pais e o irmão mais velho de Ludmilla, Camila e Letícia defendem a presença dos militares, as estudantes votaram contra a medida. “A escola não tem nenhuma estrutura e não concordamos que esse seja o investimento mais urgente. Além disso, precisa haver um consenso. Os professores e alunos não se sentem à vontade”, comentou Letícia.

O irmão mais velho das estudantes, Marcus Vinicius Carvalho, também frequentou o CEF 407, há 15 anos, e acredita que a medida é fundamental para mudar o cenário de violência em que as escolas da Região Administrativa estão inseridas. “Já estudei aqui e sei como o crime organizado está presente na escola. A alternativa é testar, depois, se não der certo, tira”, opinou.

Igo Estrela/Metrópoles
Enquanto os pais e o irmão mais velho de Ludmilla, Camila e Letícia defendem a presença dos militares, as estudantes votaram contra a medida

O pai, Waldemar Carvalho, concorda com o filho, mas criticou o regulamento do plebiscito. Isso porque, apesar de terem ido em família, apenas um dos responsáveis pode votar, independentemente da quantidade de filhos matriculados na escola. “Achei injusto”.

Segundo as regras do plebiscito, a família Carvalho só teria direito a mais um voto caso uma das filhas estudassem em outra unidade de ensino onde a votação está sendo realizada ou se um dos pais também trabalhasse na rede pública de ensino.

No CED 01 do Itapoã, a presença dos militares é demanda de integrantes da comunidade escolar, que, durante a votação, reclamaram de constantes assaltos e episódios de violência nas proximidades da escola. “A princípio, eu não era a favor, mas ouvi muitas pessoas e votei favorável. A violência é tão presente que os professores não conseguem fazer o próprio trabalho”, pontuou Gislaine Gomes, mãe de uma aluna do 6º ano.

O Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) do Itapoã acompanhou a votação e tirou dúvidas de pais e responsáveis. “Alguns acham que a Polícia Militar vai agir com truculência com os alunos, o que não é verdade. A intenção é promover ambiente mais seguro e com disciplina ”, defendeu o presidente do Conseg, Alessandro dos Santos.

A votação

O pleito começou às 8h, no CEF 19 de Taguatinga, CEF 407 de Samambaia, CED Gisno da Asa Norte e CED 1 do Itapoã, e será possível votar até as 21h. Já no CEF 01 do Núcleo Bandeirante, a comunidade só terá até as 18h. A Secretaria de Educação informou que o passe livre estará liberado para que os estudantes das instituições tenham maior facilidade em se deslocar aos colégios.

No último sábado (10/08/2019), o Centro Educacional (CED) do Condomínio Estância III, em Planaltina, tornou-se a quinta escola do Distrito Federal a ter gestão compartilhada. A mudança foi aprovada pela comunidade local por meio de voto secreto e o resultado foi aferido por uma comissão montada especialmente para a ocasião. Segundo a Secretaria de Educação, os votos favoráveis corresponderam a 59,69% do total.

Pesquisa

Em junho, a Secretaria de Segurança Pública divulgou pesquisa realizada com 1,2 mil pessoas, sendo 962 estudantes. O balanço aponta que 75% dos professores entrevistados querem que os militares permaneçam nas escolas em que o modelo funciona. Do total, metade dos alunos e 86,9% dos servidores se mostraram a favor.

Quanto à sensação de segurança, quase 90% dos estudantes avaliaram o ambiente escolar como seguro (53,3%) ou muito seguro (36,5%). Nesse mesmo quesito, 88,8% dos professores e 98,8% dos servidores têm a mesma impressão.

De acordo com balanço da Secretaria de Educação, 55,21% dos professores entrevistados acreditam que o novo modelo “tornou as escolas um lugar melhor para se trabalhar”, e 75,6% dos educadores querem que os militares permaneçam.

Apesar de a medida ser amplamente aprovada por pais, alunos e docentes, também há posicionamentos contrários. Parlamentares, professores e entidades ligadas à pauta educacional elaboraram uma carta aberta contra a proposta de gestão compartilhada das escolas públicas do Distrito Federal.

O documento foi idealizado pelo Observatório da Militarização das Escolas, instituído no âmbito da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa, e recebeu apoio da Universidade de Brasília, do Sindicato dos Professores (Sinpro-DF), da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. Já entre os deputados distritais, Fábio Felix (Psol), Arlete Sampaio (PT), Chico Vigilante (PT), Leandro Grass (Rede), Reginaldo Veras (PDT) e a deputada federal Erika Kokay (PT) assinam a iniciativa.

Últimas notícias