Chacina: presos usaram celulares de vítimas para despistar mortes

A ideia, segundo investigadores, era despistar o crime e impedir que pessoas próximas às vítimas acionassem a polícia

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1 de 1 julgamento-maior-chacina-df-3 - Foto: HUGO BARRETO / METRÓPOLES @hugobarretophoto

Primeira testemunha ouvida pelo Tribunal do Júri do caso que ficou conhecido como a maior chacina do Distrito Federal, o agente da Polícia Civil Tácio, que atuou como investigador do crime, disse que após sequestrarem e matarem 10 pessoas de uma mesma família, criminosos utilizaram os celulares das vítimas para responder mensagens de familiares e conhecidos.

A ideia, segundo o investigador, era despistar o crime e impedir que pessoas próximas às vítimas acionassem a polícia denunciando desaparecimentos.

“Como as famílias estavam recebendo mensagens dos celulares das vítimas que, na verdade, estavam sendo enviadas pelos criminosos, eles [familiares] não desconfiavam. Depois que o corpo da Elizamar e das crianças foram encontrados, conhecidos e familiares passaram a procurar a polícia”, disse o policial.

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Réus da considerada a maior chacina do DF
Réus da considerada a maior chacina do DF
Julgamento dos réus da maior chacina do DF
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Foi utilizando essa estratégia, inclusive, que os envolvidos no crime atraíram a cabeleireira Elizamar da Silva e os três filhos dela para uma emboscada. Conforme o policial, os criminosos, que já haviam sequestrado Thiago Belchior – companheiro de Elizamar,  usaram o celular do homem para pedir que a cabelereira fosse com os filhos para uma chácara onde Thiago vivia.

No local, Elizamar e as crianças: Rafael, 6 anos; Rafaela, 6; e Gabriel, 7, foram sequestrados e mortos. Conforme informado pelo policial, os menores ainda estavam vivos quando os criminosos atearam fogo no veículo onde eles estavam. Os três respiraram fumaça e morreram carbonizados, segundo provas técnicas informadas pelo policial.

Elizamar, de acordo com o relato, morreu por possível asfixia mecânica e teve o corpo carbonizado em seguida.

Ela e os filhos foram sequestrados no DF e levados para Cristalina, em Goiás. Lá, eles foram mortos dentro do veículo utilizado no sequestro. Os corpos de mãe e filhos foram encontrado em 12 de janeiro de 2023.

Os presos também utilizaram o celular de Gabriela Belchior para acalmar o namorado da vítima. O celular de Renata Belchior – mãe de Gabriela e Thiago, também foi usado para acalmar familiares da mulher, que perguntavam sobre o paradeiro dela. À época, mãe e filha já estavam sob custódia dos sequestradores.

O crime brutal, cometido com requintes de crueldade, foi praticado por pessoas próximas às vítimas, que tinham como objetivo a apropriação da chácara onde que viviam os integrantes da família. A área, contudo, nem sequer pertencia aos mortos.

As vítimas são:

  • Marcos Antônio Lopes de Oliveira – patriarca
  • Renata Juliene Belchior – esposa de Marcos
  • Gabriela Belchior de Oliveira – filha do casal
  • Thiago Gabriel Belchior de Oliveira – filho do casal
  • Elizamar da Silva – esposa de Thiago
  • Rafael (6 anos), Rafaela (6) e Gabriel (7) – filhos de Thiago e Elizamar
  • Cláudia da Rocha Marques – ex-companheira de Marcos
  • Ana Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia

Detalhes das execuções

De acordo com o policial ouvido no tribunal, Marcos – o patriarca da família, morreu por um disparo de arma de fogo na cabeça. O corpo foi decapitado e esquartejado.

Já no corpo de Thiago havia sinais de amarração nos membros superiores e inferiores, e a causa da morte foi asfixia por sufocação direta, por meio de uma gase.

No corpo de Cláudia também havia sinais de amarração nos membros superiores e inferiores. Segundo o exame, a causa da morte foi hipovolemia por esgorjamento — quando há grande perda de sangue devido a um corte na região lateral do pescoço. Ana Beatriz morreu da mesma forma.

Já em relação a Renata e Gabriela, os peritos não conseguiram determinar a causa da morte, porque os corpos estavam muito carbonizados.

O Crime

A barbárie foi cometida em janeiro de 2023, mas os criminosos começaram a arquitetar o plano três meses antes, em outubro de 2022.

A participação de cada um no crime segundo o MPDFT:

Gideon Batista de Menezes: apontado como um dos principais articuladores do plano, Gideon morava na chácara das vítimas porque prestava serviços gerais à família. Ele confessou que, junto a Horácio, planejou todo o crime e alugou a casa onde manteve as vítimas escondidas antes de matá-las.

Horácio Carlos Ferreira Barbosa: assim como Gideon, morava na chácara prestando serviços gerais. Horácio atuou diretamente nos assassinatos se fingindo de vítima durante um assalto fake; sequestrando vítimas; enviando mensagens a familiares das vítimas se passando por elas; e enterrando, esquartejando e incendiando corpos e veículos.

Carlomam dos Santos Nogueira: se embrenhou no plano criminoso e participou diretamente dos sequestros e execuções. É o autor do tiro na nuca que matou Marcos Antônio, autodeclarado dono da chácara. Chegou a ficar foragido após as prisões de Gideon e Horácio, mas se entregou dias depois.

Fabrício Silva Canhedo: além de atuar nos sequestros, foi responsável pela vigilância do cativeiro onde as vítimas ficaram escondidas e também pela ocultação do carro de Cláudia, “segunda esposa” de Marcos Antônio.

Carlos Henrique Alves da Silva: último a ser preso, participou da rendição de vítimas. Tentou fugir pelo telhado de casa ao ser localizado por policiais.

Os cinco réus vão responder pelos crimes de homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menor

Se condenados, os criminosos podem pegar mais de 70 anos de prisão cada. Somadas, as penas podem chegar a 358 anos.

Motivação

Durante o depoimento ao tribunal do júri, o investigador da PCDF contou que a questão da Chácara como motivação do crime deixou dúvidas, pois um dos envolvidos na morte sabia que a casa não era de Marcos.

“Executaram para que os familiares não fossem atrás dos outros. Marcos tinha posse da chácara, mas estava em disputa judicial, Gedeon sabia disso”, declarou.

No final, segundo o policial, quase todos os envolvidos confessaram em partes os crimes. Conforme relatou o agente, Gedeon e Horacio apresentaram como motivação a posse da chácara, mas o policial disse desconfiar de uma espécie de ódio desenvolvido na convivência entre Marcos e os presos.

Segundo a investigação da polícia, em 18 dias, Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira, Fabrício Silva Canhedo, Carlomam dos Santos Nogueira e Carlos Henrique Alves assassinaram as 10 pessoas. O crime também teve a participação de um adolescente.

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