“Sofrimento que nunca passa”, diz mãe de vítima da maior chacina no DF. Veja vídeo
Familiares de Elizamar da Silva acompanham julgamento de acusados pela morte da cabeleireira e três filhos
atualizado
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Os parentes das vítimas da maior chacina do Distrito Federal chegaram ao Tribunal do Júri de Planaltina momentos antes do início do julgamento dos cinco acusados pelo crime, na manhã desta segunda-feira (13/4). Familiares de Elizamar da Silva, 39 anos – uma das vítimas da chacina, falaram com a imprensa sobre o luto diante do crime cruel.
Os corpos de Elizamar da Silva, 39 anos, e de seus três filhos: os gêmeos Rafael e Rafaela, de 6 anos, e Gabriel da Silva, 7, foram encontrados carbonizados, em 12 de janeiro de 2023, dentro de um carro, em Cristalina (GO).
“É um sofrimento que nunca sara. Muita saudade da minha filha, do meu neto. É Deus em primeiro lugar, pois se não fosse Deus, eu não sei o que seria de mim. Acho que eu nem existia. Mas eu tenho um Deus vivo, um Deus que tudo pode, um Deus misericordioso que vai fazer justiça”, disse Nelita Maria, mãe de Elizamar da Silva, muito emocionada.
A cabeleireira e os filhos foram os primeiros integrantes da mesma família a desaparecer e deram origem às investigações acerca da chacina
“O sentimento é de revolta né? A gente quer justiça. A gente espera que Deus ilumine a mente, a cabeça do juiz, promotor, advogado, jurados, né? E que eles [criminosos] peguem a pena máxima, que é o que a gente espera, nós a família”, disse Ismael da Silva, irmão de Elizamar.
Perguntado sobre como ele se sente ao reviver o julgamento do caso, Ismael disse que o sentimento é de sofrimento e de tristeza profunda. Segundo ele, a família chegou a adoecer por causa tragédia.
“De muita tristeza, porque a gente carrega uma ferida que nunca fecha, e hoje a gente tem esperança, né? Que seja feita justiça para que a gente tenha um alívio. Deitar a cabeça no travesseiro e pelo menos pensar nossa irmã foi, nossa família foi, mas a justiça terrena vai ser feita”, afirma.
Sobre rever os criminosos, que confraternizavam com as famílias das vítimas antes do crime, Ismael falou que a lembrança causa revolta.
“Meu padrasto, que está aqui, tratava [os criminosos] como se fossem filhos, fez tudo, fez um churrasco, buscava uma cerveja, fez tudo pra a pessoa [Gideon], sabe? E aquela pessoa fazer uma barbaridade dessa, uma coisa dessas que no Brasil mesmo eu nunca vi, né? Uma coisa de outro mundo. Mas Deus sabe. Deus sabe o que vai fazer porque a justiça é divina, eu tenho certeza que ela já está preparada, já vai ser feita, né?”, declara.
“Agora o que a gente espera é que esse caso não caia em esquecimento. Que eles [envolvidos] paguem e peguem a pena máxima. Que apodreça na cadeia, principalmente esse lá [Gideon] que a minha mãe deixava ele fazer churrasco. Eu quero que esse apodreça mesmo, eu quero que ele morra, morfe na cadeia”, pontuou Ismael.
Pouco antes do julgamento, o advogado da família disse que não existe, na legislação brasileira possibilidade de condenação razoável para os réus diante de tamanha “monstruosidade”. Ele comentou que o ideal seria que o caso fosse julgado em locais onde há pena de morte.
Relembre o caso
A barbárie foi realizada em janeiro de 2023, mas os criminosos começaram a arquitetar o plano três meses antes, em outubro de 2022.
Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carlomam dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva responderão por seis crimes diferentes.
Relembre a participação de cada um no crime:
- Gideon Batista de Menezes: apontado como um dos principais articuladores do plano, Gideon morava na chácara das vítimas porque prestava serviços gerais à família. Ele confessou que, junto a Horácio, planejou todo o crime e alugou a casa onde manteve as vítimas escondidas antes de matá-las.
- Horácio Carlos Ferreira Barbosa:assim como Gideon, morava na chácara prestando serviços gerais. Horácio atuou diretamente nos assassinatos se fingindo de vítima durante um assalto fake; sequestrando vítimas; enviando mensagens a familiares das vítimas se passando por elas; e enterrando, esquartejando e incendiando corpos e veículos.
- Carlomam dos Santos Nogueira: se embrenhou no plano criminoso e participou diretamente dos sequestros e execuções. É o autor do tiro na nuca que matou Marcos Antônio, autodeclarado dono da chácara. Chegou a ficar foragido após as prisões de Gideon e Horácio, mas se entregou dias depois.
- Fabrício Silva Canhedo: além de atuar nos sequestros, foi responsável pela vigilância do cativeiro onde as vítimas ficaram escondidas e também pela ocultação do carro de Cláudia, “segunda esposa” de Marcos Antônio.
- Carlos Henrique Alves da Silva:último a ser preso, participou da rendição de vítimas. Tentou fugir pelo telhado de casa ao ser localizado por policiais.
Os cinco réus vão responder pelos crimes de homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menor.
Emboscada
Avaliado em R$ 2 milhões, o terreno no Itapoã que motivou os assassinos a arquitetarem a morte de 10 pessoas tem cachoeira privativa, ampla área de capim de gado e cerca de 5 hectares – equivalentes a 50 mil metros quadrados.
O plano, então, era assassinar toda a família e tomar posse do imóvel, sem deixar qualquer herdeiro vivo. O terreno, no entanto, nem sequer pertencia à vítima, o patriarca da família, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, o primeiro a ser brutalmente morto. A chácara era alvo de disputa judicial desde 2020, na qual os verdadeiros donos tentam recuperar a área.
Os integrantes da família, então, foram atraídos para emboscadas e assassinados um por um.
São eles:
- Marcos Antônio Lopes de Oliveira – patriarca
- Renata Juliene Belchior – esposa de Marcos
- Gabriela Belchior de Oliveira – filha do casal
- Thiago Gabriel Belchior de Oliveira – filho do casal
- Elizamar da Silva – esposa de Thiago
- Rafael (6 anos), Rafaela (6) e Gabriel (7) – filhos de Thiago e Elizamar
- Cláudia da Rocha Marques – ex-companheira de MarcosAna Beatriz Marques de Oliveira – filha de Marcos e Cláudia
A primeira ação ocorreu em 27 de dezembro de 2022, quando Marcos, a esposa dele, Renata, e a filha Gabriela foram rendidos dentro de casa. O grupo roubou R$ 49,5 mil das vítimas e levou os três para um cativeiro, em Planaltina. Marcos foi morto logo depois, enquanto as duas permaneceram vivas.
A partir daí, os criminosos passaram a usar os celulares das vítimas para se passar por elas e atrair outros integrantes da família.
Nos dias seguintes, Cláudia e Ana Beatriz foram enganadas, sequestradas e levadas ao mesmo cativeiro.
Na sequência, os acusados mataram as demais vítimas mantidas em cativeiro para evitar que os crimes fossem descobertos. Renata e Gabriela foram levadas até Unaí (MG), onde foram assassinadas.
Por fim, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago também foram mortos, e os corpos escondidos em uma cisterna.
Todos os detalhes do crime que ficou conhecido como a maior chacina do DF, com as reviravoltas e os mistérios que cercaram o caso, foram detalhadas na reportagem especial “O Fim de uma Família”.




















