A cada ano, seis crianças são assassinadas no Distrito Federal

Episódios de violência, como a que o pai diz ter submetido o menino Bernardo, não são incomuns na região: de 1996 para cá, foram 149 vítimas

Michael Melo/Metrópoles

atualizado 07/12/2019 10:02

Ao detalhar em confissão à polícia como teria matado o filho Bernardo, de apenas 1 ano e 11 meses, e, depois, abandonado o corpo do bebê em um matagal às margens de rodovia na Bahia, o metroviário Paulo Roberto de Caldas Osório, 45 anos, trouxe à tona uma triste realidade. Os chocantes assassinatos de crianças no Distrito Federal não são incomuns.

De acordo com levantamento feito pelo (M)Dados, núcleo de análise de grande volume de informações do Metrópoles, desde 1996, houve 149 homicídios que vitimaram meninos e meninas na capital da República. São, em média, seis casos a cada ano.

Conforme o Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus), foram registradas 143 mortes violentas, de 1996 a 2017, envolvendo moradores do DF com idades entre 0 e 9 anos. Já a Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP/DF) informou ter havido seis casos nos últimos dois anos com vítimas de até 12 anos – a faixa etária classificada como criança definida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Se for somada a faixa dos 10 aos 14 anos (população já classificada como adolescente) constante no Datasus, a estatística de assassinatos nas cidades brasilienses sobe para 461 casos, uma média de 20 mortes anuais. Em 2000, houve o maior número de registros: 31. Já 2019 é marcado pelo menor dado, com dois homicídios confirmados. O caso de Bernardo ainda está em aberto: um corpo foi localizado, mas apenas um exame de DNA dará certeza se o cadáver é o do bebê. A mãe da criança tem esperança de ainda encontrá-lo com vida.

Confira os dados compilados pelo (M)Dados:

 

De todas as crianças com até 9 anos mortas por agressão no DF, 60,8% eram do sexo masculino. Na divisão por raça e cor, constata-se que 65,7% eram pardos ou negros e 20,2%, brancos – o restante não foi classificado.

O SUS considera morte por agressão (CID-10: X85) toda aquela causada por terceiro, seja por envenenamento, estrangulamento, disparo de arma de fogo, com uso de faca ou outro instrumento, ou mesmo por meio de força física, negligência ou maus-tratos. Esse tipo de categorização é utilizada em importantes estudos sobre segurança no país, como o Atlas da Violência, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“Mudança cultural”

Psicóloga especialista em prevenção à violência, Fernanda Falcomer defende que apenas uma mudança cultural poderia amenizar o sofrimento causado a crianças vítimas de maus-tratos. “Temos que desconstruir esse conceito de que palmada educa. Ouvimos muito isso nos atendimentos, mas é uma palmada que abre precedentes para outros tipos de violência”, explica.

Alguns casos são influenciados pelo fator psicopatológico do autor, como quadros de depressão profunda. “Por trás disso tudo, existe o sofrimento psíquico. [Os agressores] Pensam que a solução para aquela situação é o homicídio, o suicídio”, acrescenta a especialista.

A violência doméstica também está por trás dos assassinatos dos pequenos. “[Autores homens] Fazem para culpar a mãe [da criança]. Não é um feminicídio, mas um infanticídio no contexto da violência doméstica”, comenta Falcomer.

Nos últimos anos, vários casos chocaram a população do Distrito Federal, tanto pela brutalidade quanto pelo fato de terem sido praticados por pessoas da própria família dos pequenos assassinados. Relembre os casos que comoveram os brasilienses nos últimos tempos:

Tortura e morte de Rhuan

Imagem cedida ao Metrópoles
Rhuan tinha 9 anos e era bastante alegre, segundo o pai

 

O assassinato do menino Rhuan Maycon da Silva Castro, aos 9 anos, causou um sentimento de revolta em todo o país pela crueldade praticada pela mãe do menino, Rosana Auri da Silva Candido, e sua companheira, Kacyla Priscyla Santiago Damasceno Pessoa.

Após o assassinato, a dupla esquartejou, perfurou os olhos e dissecou a pele do rosto da criança. Elas também tentaram incinerar partes do corpo em uma churrasqueira, com o intuito de destruir o cadáver e dificultar o seu reconhecimento.

Como o plano inicial não deu certo, elas colocaram partes em uma mala e duas mochilas. Rosana jogou a mala em um bueiro próximo à residência onde ocorreu o crime. Antes que ocultasse as duas mochilas, moradores da região desconfiaram da atitude da mulher e acionaram a polícia, que prendeu as duas autoras em flagrante, em 1º de junho.

A mãe confessou o crime brutal (confira abaixo).

Negligência e maus-tratos

A pequena Esther Barbosa morreu com apenas 6 meses, após reiteradas maldades praticadas pelos próprios pais. A mãe da pequena, Elizana Pereira da Costa, 24 anos, chegou a confessar que o companheiro – e pai de Esther –, Anderson Gustavo de Araújo Barbosa, 30, jogava a bebê no chão quando perdia a paciência.

Reprodução

 

Quando finalmente recebeu atendimento médico, Esther apresentava lesões na clavícula, braço e coxa, todas já calcificadas.

A bebê também tinha queimaduras na vagina, ânus, virilha e rosto. Apresentava, ainda, uma subnutrição severa: em seis meses de vida, tinha ganhado apenas 1 kg.

Ela não resistiu aos meses em que foi submetida à crueldade dos pais e morreu na UTI do Hospital Materno Infantil (HMIB).

Pai mata os quatro filhos

Reprodução

O motorista Marco Aurélio Almeida Santos matou os quatro filhos – três meninos e uma menina – após jogar o próprio carro contra uma carreta, na BR-070, em Cocalzinho (GO). O crime ocorreu minutos após ele buscar as crianças na casa da ex-mulher, em Brazlândia.

Antes de sair com o veículo para pôr fim à própria vida e de seus quatro filhos, Marco Aurélio escreveu, de próprio punho, uma carta destinada à ex-mulher, na qual dizia:

Hoje é um grande dia para mim e meus filhos. Estaremos buscando um lugar de paz onde não exista humilhação e covardia

Irmãos torturados

Sabrina de Jesus Cabral morreu aos 6 anos, após ser torturada pelos tios, que eram responsáveis pela guarda dela e de seus três irmãos, enquanto os pais cumpriam pena por tráfico de drogas.

A menina morreu no dia 29 de maio, após apanhar com um vergalhão de ferro e ser deixada ao relento, no quintal de uma casa em Planaltina de Goiás (veja vídeo abaixo).

Assim como Sabrina, seus irmãos – incluindo um bebê de colo – sofriam com as sessões de tortura praticadas pelos tios.

Morte por overdose

A médica Juliana de Pina Araújo, 34 anos, foi presa após matar o próprio filho, de 3 anos, por overdose de medicamentos. Após o crime, ela tentou se matar cortando os pulsos e o pescoço, mas sobreviveu e foi presa.

Juliana sofre de depressão e atualmente está internada na ala psiquiátrica da penitenciária feminina do Distrito Federal.

“Tá duvidando?”

Michel Salustiano, de apenas 6 meses, foi morto pelo próprio pai, Maycon Salustiano Silva, 25 anos, em Luziânia (GO). O homem deu um tiro de garrucha no peito do filho.

Reprodução

 

O crime ocorreu no dia 12 de setembro e, segundo a versão da mãe do menino, o homem teria se irritado após a mulher se negar a fazer sexo com ele.

Diante da negativa, ele mirou a espingarda contra o filho e perguntou: “está duvidando?”; e disparou em seguida. Os dois admitiram ter consumido drogas e vinho no dia do crime.

Depressão e morte

Um homem de 53 anos matou a filha de apenas 3 anos e se suicidou em seguida. O crime ocorreu no dia 6 de setembro, em Ceilândia, e os nomes não foram divulgados pelas autoridades.

A filha mais velha do autor foi quem localizou os dois corpos, ao chegar em casa. Primeiro, viu o cadáver do pai e depois encontrou o da irmã caçula sobre a cama.

Ela chegou a acionar o socorro e a Polícia Militar, mas a equipe do Samu apenas atestou o óbito de ambos.

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