Em todo o DF, medo da violência assombra o brasiliense

Com média diária de mais de 1 mil ocorrências no primeiro semestre, população não sente segurança nas ruas do Distrito Federal

Hugo Barreto/Metrópoles

atualizado 24/07/2018 7:38

Uma população refém da violência. É assim que o brasiliense tem se sentido com os casos diários de assaltos à mão armada registrados nas cidades do Distrito Federal, independentemente da Região Administrativa onde os crimes ocorrem ou da classe social das vítimas.

Mesmo com a redução dos indicadores de criminalidade computados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF), o brasiliense não tem percebido melhoria da segurança nas ruas nem mesmo em casa. Não é por acaso.

Só no mês de junho, 40 pessoas foram assassinadas no DF. Durante todo o primeiro semestre, a Polícia Militar (PMDF) atendeu 196.893 ocorrências – uma média de mais de mil casos por dia. Os números da Polícia Civil são parecidos: 204.679 ocorrências de janeiro a junho de 2018, indicando média de 1,1 mil registros a cada dia.

Apesar de nem todos os casos serem de assaltos, multiplicam-se histórias de cidadãos sob a mira de bandidos. Muitas vezes, a vítima tem se defendido por conta própria, colocando os criminosos para correr (prática desaconselhada pela polícia). Relatos espalham ainda mais o medo e aumentam o desassossego pelas cidades do DF.

Descrédito da Justiça
Para o porta-voz da PMDF, major Michello Bueno, o fato de criminosos serem postos em liberdade pouco tempo após sua detenção dificulta o trabalho de policiamento. A especialista Maria Beatriz Coelho, doutora em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), tem avaliação semelhante.

Ela afirma que o Judiciário está muito desacreditado no Brasil: “Vivemos uma Justiça de classe, apenas para um seleto grupo, o resto é desconsiderado”. Segundo Maria Beatriz, o Estado tem se omitido, enquanto as pessoas estão se sentindo inseguras.

Virou a lei do mais forte, cada um por si e Deus por todos. É isso que nós estamos vivendo no Brasil: a falência generalizada das instituições

Maria Beatriz Coelho

Cidadãos reagem
Nessa segunda-feira (23/7), um criminoso foi baleado durante assalto no Conjunto 2 da QL 4 do Lago Sul, na casa do desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) Pedro Aurélio Rosa de Farias, 72 anos. Ele reagiu ao roubo e baleou o suspeito que o rendeu por volta das 14h – outros dois bandidos participaram da ação. O aposentado também se feriu.

Ao Metrópoles, o desembargador detalhou a abordagem do trio. “Estava chegando de um almoço quando fui surpreendido pelos três assaltantes. Um deles desceu armado e os outros dois ficaram no carro”, disse. De acordo com o magistrado, os bandidos saíram do veículo gritando e perguntando onde estava o cofre.

Pedro Aurélio foi levado para dentro da casa. “Me prenderam no banheiro junto com a secretária. Roubaram relógios e correntes”, afirmou. A  esposa dele também foi vítima de violência: recebeu várias coronhadas. Quando o desembargador viu que os bandidos estavam fugindo, subiu no quarto, pegou a arma e disparou seis vezes. Um dos assaltantes foi atingido, mas escapou.

Max Melo, 30 anos, é advogado e mantém escritório na mesma rua onde mora o desembargador e a família. Ele acredita que o crime desta tarde tenha sido premeditado. “Escolheram a dedo a vítima e o local. Chegaram exatamente no momento em que ele [Pedro Aurélio] estava entrando em casa. Foi tudo pensado”, avaliou Max.

O desembargador aposentado não foi a única vítima de assalto recente a tentar se defender. No domingo (22), um morador de Ceilândia, de 54 anos, foi preso. De acordo com a ocorrência, ele esfaqueou um homem, 49, e tentou golpear uma mulher de 40. O motivo: a dupla o teria roubado e ameaçado de morte na véspera.

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O assalto foi registrado sábado, na 23ª Delegacia de Polícia, do Setor P Sul (Ceilândia). Sem saber da denúncia, o casal foi à casa da vítima, incendiou alguns objetos e a ameaçou morte. Depois, o homem alvo do roubo encontrou os suspeitos na rua e atacou a dupla com um facão.

No Recanto das Emas, na semana passada, a lutadora Lorrana Braga Oliveira, 23 anos, surpreendeu um assaltante que tentava roubar sua bolsa com uma sequência de golpes de artes marciais. O caso aconteceu na tarde de quarta-feira (18) (veja vídeo abaixo).

 

Câmeras de segurança flagraram a ação de dois assaltantes em Planaltina de Goiás, no Entorno do Distrito Federal. O crime ocorreu na quinta-feira (19), nas proximidades da Escola Municipal Machado de Assis, localizada na Quadra 13 Norte.

No vídeo (veja abaixo), é possível ver a ação dos bandidos. Eles chegam em uma motocicleta e anunciam o roubo. As vítimas, duas mulheres, tentam reagir, mas sem sucesso. Os assaltantes, que ainda não foram identificados, fogem no veículo.

 

Risco de morte
Reagir a assaltos é totalmente desaconselhado pelas autoridades da área de segurança pública, sob risco de os bandidos contra-atacarem e matarem a vítima. Foi exatamente o que ocorreu na madrugada do último dia 16, no Recanto das Emas.

Um homem, de 74 anos, foi encontrado morto na Quadra 803, em via pública. De acordo com informações preliminares, a vítima – Raimundo Rodrigues Alves – teria reagido a um assalto e acabou morto.

Muitas dessas reações acontecem quando a pessoa pensa que a arma é de brinquedo, mas, nos casos de armas artesanais, o bandido pode usar um pedaço de cano e fazê-lo disparar. Eles [os criminosos] não agem sozinhos. Se a pessoa consegue dominar um, em seguida pode vir o segundo e o terceiro e ferir a vítima

Major Michello Bueno, porta-voz da PMDF

Em uma situação como essa, a recomendação, segundo o major, é manter a calma, observar as características físicas e as roupas do suspeito e, assim que estiver em condições de segurança, acionar a PM.

“Mesmo se a pessoa for ameaçada por arma branca, também não se deve reagir. A faca é um instrumento muito letal e, a partir da primeira facada, a vítima perde a força. Os outros golpes e o óbito são consequências. O bem maior que você tem de preservar é a sua vida”, reforça o policial.

Serviço
Em caso de emergência, peça socorro à Polícia Militar pelo telefone 190.

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