Crianças torturadas por tios ficarão em abrigo por mais quatro meses

Audiência que definirá futuro dos três irmãos de Sabrina de Jesus, torturada e morta pelos parentes no Entorno, acontecerá em outubro

atualizado 16/06/2019 13:23

Andre Borges/Esp. Metrópoles

As três crianças – de 1, 4 e 8 anos – que sobreviveram aos maus-tratos praticados pelos tios terão que esperar pelo menos mais quatro meses para terem o futuro decidido. Com uma audiência marcada para outubro, elas ficarão no abrigo de Planaltina de Goiás, cidade do Entorno do Distrito Federal, na qual dois deles estão desde a morte da irmã de 6 anos, Sabrina de Jesus Cabral, em 29 de maio.

O que será decidido, no entanto, é uma incógnita. Segundo o vice-presidente do Conselho Tutelar da região, Antônio Freire, todas as possibilidades devem ser consideradas, inclusive a manutenção das crianças no abrigo. “Elas podem ser colocadas para adoção, a guarda pode ser dada a algum outro parente ou até mesmo a manutenção da medida protetiva pode acontecer”, comenta.

No momento, apenas os meninos de 1 e 8 anos estão sendo atendidos pelo abrigo. A garota de 4 anos continua internada no Hospital da Criança de Brasília, onde deu entrada em 31 de maio. “Ela está se recuperando bem e, assim que tiver alta, será levada ao mesmo abrigo dos irmãos, para que eles fiquem juntos”, explica o conselheiro.

Relembre o caso

Sabrina de Jesus Cabral, de 6 anos, morreu após ser espancada e torturada pelos tios – Bruno Deocleciano da Silva, 19 anos, e uma menor de 17. O irmão de 8 anos relatou que a menina foi castigada com um vergalhão de ferro e um pedaço de madeira. Ela teve traumatismo cranioencefálico e uma lesão no pescoço. Depois, foi deixada ao relento, durante toda a noite. Quando o socorro foi acionado, no dia seguinte, a criança já estava morta.

As crueldades cometidas contra Sabrina chocaram o próprio delegado. “A explicação é tão absurda quanto o ato em si. Eles saíram pela manhã e deixaram as crianças sozinhas, trancadas em casa, e, quando souberam que elas pediram comida aos vizinhos, ficaram com raiva, castigaram e agrediram os meninos”, revelou.

Além de Sabrina, o casal maltratava e agredia as outras três crianças. “Através da coloração das lesões, é possível ter uma ideia de quando os maus-tratos foram praticados. Isso é uma característica de tortura”, apontou Antônio Humberto. “Nós, que estamos acostumados a trabalhar com situações violentas, achamos esse caso particularmente chocante. Uma violência absurda. Um fato animalesco. Uma selvageria sem precedentes”, completou.

Andre Borges/Esp. Metrópoles
Antônio Humberto Costa, delegado do Grupo de Investigações de Homicídios (GIH) de Planaltina de Goiás

 

Sem arrependimentos
O delegado garantiu que os agressores não demonstraram arrependimento no momento do depoimento. Segundo a tia, Sabrina tentou se esconder debaixo da mesa e, mesmo assim, foi agredida com chutes na cabeça.

A menina de 4 anos, que está internada no hospital, apresentava lesões antigas, como marcas de ferro de passar roupa. Os conselheiros tutelares contaram que as crianças comeram de forma desesperada ao chegarem ao centro de saúde.

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Agressões constantes
De acordo com vizinhos e policiais ouvidos pela reportagem do Metrópoles, os atos de violência contra as crianças eram recorrentes. O pedreiro Antônio Jares, 33 anos, contou que o último episódio presenciado por ele ocorreu na noite de 27 de maio. “Por volta de meia-noite, eu abro a janela e vejo a tia arrastando a menina pelos cabelos aqui na rua. Era um relacionamento conturbado. Escutávamos brigas todos os dias.”

Ainda segundo o vizinho, o casal circulava com as crianças no bairro há cerca de cinco meses. “Nós já havíamos denunciado outras vezes. A polícia vinha, eles não abriam a porta, e as autoridades iam embora. Ouvíamos os meninos chorando. Eles passavam o dia fora e deixavam as crianças chorando em casa, sem comida. Era um casal intimidador. Tínhamos medo de virar alvo e ficávamos neutros”, comentou.

A diarista Maria Josué, 56, é vizinha do casal e mora na casa onde as crianças pediram comida na manhã do crime. “Nós sempre dávamos. Às vezes, ouvia as crianças gritando e perguntava o que estava acontecendo, mas eles diziam que não era nada. Nesse dia, ele se arretou, ficou com raiva e fez o que fez”, observou.

Vídeo feito por policial na hora da ocorrência:

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